Essencial para este trabalho, a editora Cotovia também foi contatada por Josélia Aguiar, que classifica a editora – responsável pela publicação de Bernardo Carvalho em Portugal – como “independente”, e explica: “Independente, o leitor vá se acostumando, é o nome que se dá às pequenas e até médias [editoras] que não fazem parte de grandes grupos editoriais” (2011). A informação que o adjetivo usado pela jornalista nos dá é definidora: a partir da análise do campo editorial português, entendemos que não pertencer a um grande grupo significa trabalhar em esquema “paroquial” e artesanal, com dificuldade na concorrência com as grandes redes livreiras, bem como com foco definido a determinado nicho de mercado.
Mas a Cotovia é mais que independente. Para falar dela é preciso falar da figura de seu editor e fundador, André Fernandes Jorge. Morto em agosto de 2016, foi homenageado no jornal português Público numa matéria cuja manchete dizia “Morreu André Jorge, o editor que
era a Cotovia”11; esse título nos diz mais ainda acerca de sua editora: para Jorge, só se publicava aquilo que de que ele gostava:
Em entrevista ao Público em 2008, André Jorge assumia que "quase" só publicava aquilo de que gostava e descrevia-se, sobre a difícil coabitação da sua personalidade com o poder, assim: "Sou feito do avesso." Francisco Vale, o editor da Relógio D'Água que se aproximou de André Jorge sobretudo nos últimos anos, com o lançamento da BI, sublinha exactamente a sua intransigência editorial: "A Cotovia foi um dos projectos mais exigentes e mais interessantes que Portugal teve nestas décadas mais recentes. E o André Jorge, como dizia a rir-se, era o único editor cujas dificuldades resultavam das exigências que ele próprio punha no seu catálogo – não me lembro de facto de ver no catálogo dele nenhuma concessão à facilidade ou às vendas." Esse rigor, diz, manteve-se até ao fim: "O último autor que editou é um escritor brasileiro recente [Marcelo Mirisola] para um público reduzido, mas de grande qualidade: foi sempre esse o lema dele", diz ao Público12.
11 Disponível em: https://www.publico.pt/2016/08/19/culturaipsilon/noticia/morreu-andre-jorge-o-editor-da-
cotovia-1741793 (acesso em 02/01/2018; grifo meu).
O caráter pessoal do catálogo da Cotovia, reflexo de seu editor exigente, fez com que a morte de André Jorge causasse comoção. Diferentes figuras do campo cultural português, inclusive o ministro da Cultura de Portugal, lamentaram sua morte e destacaram sua importância para o âmbito do livro no país: “legado literário, demonstrado no valor do catálogo que publicou ao longo das últimas décadas”13. Seu falecimento foi anunciado em nota pelo jornal O globo14 e, no português Jornal i – do Grupo SAPO –, a notícia de sua morte tomou
forma de uma ode, escrita pelo jornalista Diogo Vaz Pinto, da qual destaco a seguinte passagem: Editar livros como o fez André Jorge, mais do que um acto de resistência, é hoje uma forma de optimismo. Foi Tatiana Salem Levy quem, ao reagir à morte do seu antigo editor numa mensagem no Facebook, reconheceu que o seu caso constitui “uma aberração nos dias de hoje”; um editor que “publicava mesmo sabendo que o único retorno que teria seria de ordem intelectual e afetiva, pelo simples prazer de publicar autores que lhe interessavam”. Levy conta que ele foi o seu primeiro editor, que a contactou depois de ter lido apenas um conto seu, querendo saber se tinha mais. Apostou nela, publicando-lhe o primeiro romance, “A Chave de Casa”, logo depois de o ler, de tal modo que saiu primeiro em Portugal do que no Brasil. Foi uma de entre vários autores que André Jorge trouxe do Brasil.
“Nunca mais veremos um editor como ele – disposto a torrar dinheiro para publicar autores que não vendem nada em Portugal: Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Machado de Assis, Samuel Rawet, Clarice Lispector, Manoela Sawitzki, Nuno Ramos, Sérgio Sant’Anna, André Sant’Anna, Raduan Nassar, Adélia Prado, Rubens Figueiredo, João Antônio e eu mesma... Foi sem dúvida o maior editor de literatura brasileira em Portugal”, escreve Levy15.
O investimento de André Jorge na literatura brasileira, rendeu a coleção “Sabiá”, que, segundo Josélia Aguiar, publicou André Sant'Anna, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Rubens Figueiredo. Além desses, figuram os nomes de Adélia Prado, Raduan Nassar, Samuel Rawet, Sérgio Sant´Anna e também, é claro, Tatiana Salem Levy. A Coleção Sabiá, idealizada pela Cotovia, publicou, contos e romances de Bernardo Carvalho; do autor, ainda, a editora publicou duas edições distintas de Mongólia, uma pela Série Oriental Viagens e outra pela série Biblioteca Independente (BI) – parceria entre a Cotovia, a Assírio & Alvim e a Relógio D’Água. Também foi a Cotovia o espaço encontrado por Abel Barros Batista, grande nome da crítica literária portuguesa contemporânea, para publicar seus ensaios e obras acerca não só de teoria literária, mas da literatura brasileira.
13 Ibidem.
14 https://oglobo.globo.com/cultura/livros/morre-editor-portugues-andre-fernandes-jorge-19956666 (acesso em
02/01/2018).
A partir dos relatos de amigos e dos autores que o editor publicava, podemos entender a editora Cotovia e estabelecer entre esta e a brasileira Cosac Naify, que encerrou as atividades em 2015, uma comparação a título de exemplo. Ambas as editoras trouxeram um caráter bastante distinto para a produção editorial dos respectivos países, com livros que nem sempre tinham perspectiva de alta vendagem, mas que interessavam a um nicho de público – caso dos livros de artes plásticas e arquitetura, da Cosac Naify (cujo ex-editor, Charles Cosac, é, hoje, diretor da Mário de Andrade, segunda maior biblioteca pública do Brasil, localizada em São Paulo); caso também dos textos dramáticos publicados quase que unicamente pela Cotovia, em Portugal.