Belém é cercada por rios e banhada pelas chuvas que, todos os dias, transformam as ruas da cidade em pequenos braços de rio. Segundo Loureiro (2002), o rio “está intimamente ligado à cultura e à expressão simbólica. É sempre visto como caminho, quer dizer, lugar por onde as pessoas, de certa maneira, andam” (p. 101). Costumamos dizer que, em Belém, o rio vira gente em algumas ocasiões especiais, como as romarias e procissões da festa do Círio de Nazaré, realizada em outubro, transformando a cidade em um rio de fé, rio de festa, rio de encontros e comemorações entre os povos.
Belém também vira rio no carnaval, com suas apresentações de blocos, com seus desfiles de escolas de samba, transformando a cidade em um rio de cores e formas. O rio está
extremamente ligado ao imaginário local; navegar pelos rios é realizar um passeio pela memória e encantos proporcionados por seu vasto misticismo e encantarias.
É nesse sentido que, como resultado performático desse projeto poético, transformamos simbolicamente o rio em gente e vice-versa, no sentido de banhar as ruas da cidade com suas expressões artísticas, carregadas de signos referentes à cultura e ao imaginário amazônico.
O corpo que vira rio e vira gente na performance é um corpo capaz de elaborar sentidos. E esta produção de sentido, para o performer, está diretamente ligada à qualidade expressiva de seus referenciais que, revendo Bonfitto (2013), “não são reduzíveis a signos, processo que
envolve a explorações de intenções e suas implicações e suas ampliações” (pág.115). Logo, o corpo deve ser treinado.
Seja falando do rio ou do Círio de Nazaré, esse corpo nativo passa por uma série de experimentações sincréticas antes de sua ação enquanto artista. Para tanto, ele em contato diário com nossas experimentações e ensaios, percebendo e revelando suas formas plástica, suas expressões de sentimentos, tornaram-se a mancha reveladora desde corpo nativo, entranhado pelos encantamentos de nossa cultura local.
Vira rio, partindo do que foi exposto enquanto elemento indutor da ação em ensaios; vira gente, enquanto corpo mítico imaginado dentro de uma construção de significados, dos movimentos escolhidos minuciosamente para cênica, assim como a junção das contribuições verbais de nossos artistas, suas vivências em contato com a floresta e encantarias. Isso, somado às contribuições do samba-enredo, proporcionou, para esse laboratório performático, a escolha de trechos poéticos, fundamentais para a ignição criativa e servidores de imagens, e receptores do jogo cênico com o coletivo e espectadores.
Olhar para o rio gente na performance no carnaval é olhar “o raio de sol na água, nas folhas molhadas, na pintura dos barcos”, (Loureiro, 2002, p. 109) e perceber, através desse olhar expressivo, a importância dos significados gestuais de cada um no seu ato poético, em relação ao ato de olhar do espectador. O rio imaginário, criado pela Comissão de Frente, ultrapassa o ato das simples ações gestuais e transcende a visualidade formada pelos indivíduos de diferentes camadas criativas, que veem além do alcance de seus olhos,
tornando reais os movimentos, que foram além de uma simples imagem de recriação mística. A Comissão de Frente foi formada por seres encantados, cobertos por uma névoa branca e brilhosa, formadores de uma unidade cênica inspirada nos mitos e lendas da região.
Como resultados dos processos criativos concebidos para a comissão de frente da Associação Carnavalesca Bole Bole, concebemos 4 laboratórios para a criação de suas performances, onde pudemos experimentar métodos e técnicas aprendidas e compartilhadas com artistas do teatro e dança atores/brincantes/performers destas comissões. Em nosso primeiro laboratório trabalhamos com a predominância das técnicas teatrais para o desenvolvimento da cena performática por nossos artistas, assim como, a linguagem do clown, indutora para a encenação da performance. Em nossa segunda experimentação a linguagem da manipulação de bonecos associado a dança no estilho sapateado.
Em nossa terceira experimentação juntamos as duas linguagens artísticas, a dança e o teatro em contantes diálogos, experimentado o teatro e a dança, em especifico o ballet
clássico, trabalhos a principio separadamente e mais tarde em conjunto para se ter a harmonia da performance. Nosso último experimento, partimos de uma diferente temática, onde não existia um personagem propriamente dito e sim um personagem inventado a partir de nossas referencias regionais e poéticas. Procuramos nesta experimentação descobrir um corpo para dança com suas particularidades de gestual e movimentos, criado o desenho coreográfico para o corpo dos atores e dançarinos. Entretanto sendo esta comissão apresentada a partir das técnicas da dança contemporânea.
A comissão de frete de nossos experimentos partem sempre das linguagens artísticas, que seja ela o teatro em sua diversidade multiplas, quer seja a dança em suas especializações. Concluímos ainda que o que nos diferencia não é o fato de estamos trabalhando com o teatro e a dança, mais sim a forma como estas linguagens artísticas são acionadas e trabalhadas dentro do processo de performance da comissão de frente, tendo sempre o corpo do ator/brincante/performer como motor proporcionador criativo para o trabalho coletivo em nossas apresentação.
Belém será a nossa cidade de origem, pois estamos inseridos nas comunidades fazedoras de suas manifestações populares. E é em Portugal, região central, onde encontramos o maior reduto artístico desse tipo de espetáculo, e escolhemos este local como pesquisador
observador para a construção de nossa investigação de doutoramento.
Após a escolha dos locais da pesquisa, concebemos um mapa de localização das escolas de samba que veremos que se encontra no anexo 3, e a partir dele, escolhemos duas
comissões de frente em duas cidades portuguesas, para analisar e comparar com nossos quatro processos de criação em Belém do Pará, onde enquanto artista procuramos compreender e analisar esses fazeres como discursos carnavalescos e performáticos.
Em nossa investigação, apresentamos estes processos criativos que dialogam as ações entre atores, habitantes da comunidade e fazedores artísticos, com suas histórias e histórias das cidades a serem contadas, focando, no espetáculo do desfile, o quesito comissão de frente71. O laboratório artístico de criação performática, para a preparação técnica do ator/brincante/performer, apresentado no último capítulo, é alimentado por uma partitura corporal, desenhos, imagens e palavras que dialogam com as alas, fantasias, alegorias, destaques, samba-enredo e estórias de fazedores. Definiremos as técnicas utilizadas por seus fazedores revelando suas formas elementares de criação dentro do carnaval, e quais
linguagens das artes são escritas pelos artistas das comissões de frente em seus processos nas escolas de samba em ambos os países.
Portugal e suas cidades da região norte tornam-se um campo fértil para a investigação sobre essa temática, já que encontramos poucos registros sobre esse tipo de manifestação carnavalesca, mesmo que os dirigentes das escolas confirmem sua existência a partir da década de 1970. Identificar e catalogar essas práticas na cena contemporânea e suas formas
71Grupamento que, à frente do abre-alas, tem no desfile a função de apresentar a escola de samba ao