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Galaad, além de ser um lugar de um conflito político-territorial, é também um lugar de interação cultural, social e econômica entre a população da Cisjordânia e da Transjordânia.

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Profeta Amós e Oseias desempenham um papel determinante na denúncia contra o rei e a elite da Samaria na época de Jeroboão II (KAEFER, 2015a, p. 89-91).

5.2.6.1 A questão do idioma

Uma das provas materiais da influência aramaica sobre Canaã é atestada pelo uso da escrita e de língua aramaica na região. A inscrição de Balaão (LEVINE, 2003. p. 140-145), encontrada em Tell Deir Alla37 (ca. 800 a. C.), a Sucot bíblica, que dista a 8 km de Penuel, comprova o uso da língua aramaica e da escrita fenício-aramaica no vale central do Jordão (FINKELSTEIN; KOCH; LIPSCHITS, 2011, p. 148-149). O uso da escrita cursiva aramaica no Vale do Jordão e nas terras altas de Amon era ainda mais comum na Idade do Ferro, como evidenciam os ôstracos encontrados em vários locais dessas regiões, especialmente em Tell Mazar, Tell Abu-Khazar, Tell Es-Sa’idiyeh, Tell Jawa e Tell Hisban (SERGI, 2016, p.337).

A influência da língua aramaica na região de Galaad ficou remanescente nos nomes pessoais, cuja origem está relacionada a Galaad. Mencionamos no nosso estudo semântico do cap. III a origem da raiz do nome de Jacó, mas também há outros exemplos na Bíblia: Yedayel (1Cr 7,6.10.11), Adriel (1Sm 8,19; 2Sm 21,8) e Galaadita Barzillay (2Sm 17,27; 19,32-35). Isso pode ser uma prova do uso do dialeto aramaico nesse período no norte da Transjordânia (SERGI, 2016, p. 338).

5.2.6.2 Contato cultural com o Levante

Os contatos culturais e comerciais entre o norte da Transjordânia com o resto do Levante já são atestados no final da Idade do Bronze, como demonstram os selos importados, objetos de cerâmica e outros objetos de luxo importados (SAUER, 1986, p. 9).

A interação econômica (através do comércio) com a Síria é visível, por exemplo, num edifício da Idade do Bronze Tardio (templo?) escavado no aeroporto de Amã (10 km a leste de Amã). Pelos achados característicos de influência sírio-mesopotâmica de artigos de luxo, bem como monumentos que retratam determinados hábitos funerários, foi sugerido que um grupo do norte, possivelmente hititas, estabeleceu-se na região de Amã. Os achados arqueológicos do Bronze Tardio, principalmente túmulos, também foram encontrados em Mádaba, Vale de Beq’ah, Quweilbeh e Qataret es-Samrȃ. Essas representações do Bronze Tardio também foram encontradas no Vale do Jordão Oriental (SAUER, 1986, p. 6-8; SERGI,

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Em Tel Deir Alla, um grupo de arqueólogos holandeses encontrou, em 1947, várias inscrições fragmentadas em língua aramaica que fazem menção a um vidente chamado Balaão. As inscrições foram feitas em tinta numa parede de gesso, que posteriormente foi destruída (KAEFER, 2015a, p. 86).

2016, p. 336-337), o que parece demonstrar que houve uma forte influência cultural e econômica no centro e sul de Canaã procedente do norte.

A influência síria na cultura material local também é atestada na Idade do Ferro, como se pode ver no estilo da cerâmica e decoração típica, sem paralelo, por exemplo, com a cultura material das cidades fenícias (DION, 2003, p. 504). É importante lembrar, como já mencionamos, que o estilo e a técnica dos desenhos encontrados em Penuel estão bem conectados com o estilo do norte da Síria (POLA; et al., 2016, p. 119-129).

Ampliando o leque geográfico, a influência aramaica é atestada também nas vizinhanças de Galaad: inscrições aramaicas da Idade do Ferro I foram encontradas no vale de Betsã,Tel Rehov e na região da Galileia (En-gev). Essa afinidade existe também com a cultura material mais ao norte de Canaã, como em Tel Kinrot, Tel Hadar e Betsaida. Enfim, isto parece ser uma evidência da influência aramaica nessas regiões (SERGI, 2016, p.339).

À luz dessas evidências arqueológicas, é possível perceber o processo de transformação social, política e cultural que ocorreu na região no final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro. Baseados nos relatórios arqueológicos de McGovern (1986), van der Steen (1995; 2004), Ji (1995) e Petter (2014), Sergi (2016, p. 339-340) afirma que houve uma grande continuidade na transição desses períodos na região central do Vale do Jordão e nas terras altas da Transjordânia. A onda de colonização que começou gradualmente no final da Idade do Bronze atingiu seu pico no início da Idade do Ferro. Essa mudança social não se limitou ao vale do Jordão e aos planaltos da Transjordânia, mas ocorreu, ao mesmo tempo, e na mesma intensidade, na região montanhosa a oeste do Jordão (FINKELSTEIN, 1988; SAUER, 1986, p. 9).

A continuidade observada na tradição oleiro, aliada ao caráter dos assentamentos, indica claramente a origem autóctone de grupos seminômades e pastoris que passaram pela transformação social com a transição para a Idade do Ferro. Assim, as semelhanças na cerâmica e nos estilos arquitetônico usados pelos colonos tanto na Transjordânia como na Cisjordânia refletem estratégias semelhantes de subsistência e esforço econômico, em vez de rótulos étnicos. Isso aponta para um modo socioeconômico comum de vida compartilhado pelos grupos que vivem no vale do Jordão e na região montanhosa, a leste e oeste do Vale do Jordão (SERGI, 2016, p. 340).

Estudos etnográficos indicam que grupos que viviam nessas zonas semiáridas eram politicamente organizados em um sistema tribal ou "clânico" que mantinha um estilo de vida flexível, alternando entre diferentes modos de pastoreio nômade e agricultura baseada na aldeia (NAKANOSE, 2000, p. 135-137). Não havia, portanto, qualquer contradição entre a

agricultura e o pastoreio ou entre a população sedentária e os nômades, que poderiam coexistir dentro do mesmo ecosistema.

O contato de grupos de Galaad com os do oeste do Jordão (Siquém, Betel, Tersa e vale de Jezrael) pode ter sido da seguinte forma. O contato com o norte da Transjordânia era feito via rio Jaboque, onde havia uma passagem importante que ligava as terras altas de Amon ao Vale do Jordão. Pola, et al., afirma que esse antigo caminho passava em Penuel, na travessia de Jaboque (POLA; et al., 2013, p. 83). Os pastores nômades usavam esse caminho para alcançar o quente vale do Jordão no inverno e retornando aos montes transjordanianos no verão (VAN DER STEEN, 2004, p. 109-112, 125-126). A população nômade da região também servia como mediadora de mercadorias entre grupos agropastoris sedentários locais, bem como entre grupos transjordanianos e cisjordânianos (VAN DER STEEN, 2004, p. 112- 114, 281-306). O corredor do rio Jaboque até o vale do Jordão e de lá para o Wadi Far'ah (Tersa), em direção à Siquém permitia não apenas a troca de mercadorias, mas uma interação social e cultural mais ampla (SERGI, 2016, p. 340).

Resumindo, os planaltos a leste e oeste do Jordão, com o Vale do Jordão entre eles, podem ser vistos - apesar das diferenças regionais - como uma unidade cultural dentro da qual as comunidades sedentárias agropastoris e a população nômade local mantinham uma interação constante. As mudanças políticas e econômicas ocorridas no final da Idade do Bronze levaram os grupos tribais locais a adotarem um estilo de vida mais sedentário, em pequenas comunidades agropastoris. Essas comunidades foram posteriormente integradas nos reinos territoriais locais crescentes (Israel, Aram-Damasco, Amon), enquanto algumas delas devem ter tido um papel ativo no processo da formação do Estado, estabelecendo sua hegemonia política na região. Devido à proximidade geográfica e política com a Síria, e considerando o intercâmbio econômico de longa duração, os grupos que viviam no norte da Transjordânia, especialmente nas terras altas de Amon e Galaad, foram mais influenciados por Aram-Damasco do que aqueles que residiam nas terras altas do oeste do Jordão. É bem provável que as lendas regionais surgiram desde o princípio da interação destes diversos grupos. Posteriormente, na formação do Estado, essas lendas foram contadas e reinterpretadas para fortalecer a unidade política territorial e determinar a identidade coletiva.

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