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Torna-se evidente para Nós que não é só a Língua Gestual que define e dá sentido a uma comunidade, mas também a pertença ao movimento associativo e a figura de um grupo que gere e lidera a luta pela emancipação e reconhecimento dos nossos Direitos.

Considerando as entrevistas efetuadas para a análise deste estudo, verificamos que, numa época em que o oralismo se centralizava na educação dos Surdos, “a forma como decorriam e a repercussão que os encontros atingiam elevavam a auto-estima dos surdos, estimulando a valorização positiva da

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pertença ao grupo” (Campos, 2005:69), estiveram, em parte, na origem dos primeiros Grupos de “Surdos-Mudos”.

Segundo relatos que passam de geração em geração, antes do ano de 1958, foram implementados dois Grupos de “Surdos-Mudos”: o Grupo Recreativo de Surdos-Mudos do Porto (GRSMP) e o Grupo Desportivo de Surdos-Mudos de Lisboa (GDSML).

O primeiro, de índole mais Cultural e Recreativa, surgiu a 5 de Agosto de 1934, através do ajuntamento de um conjunto de homens Surdos que reuniam-se numa Tasca da zona da Batalha onde conviviam e reencontravam velhos colegas e amigos que tinham frequentado a mesma escola. Sendo a sua maioria analfabetos ou com pouca escolaridade, não definiram nenhum documento estatutário, regulamentar para o Grupo mas criaram uma Bandeira16 e começaram a organizar jantares e passeios turísticos com o dinheiro que juntavam na “Caixa dos 20 Amigos”. Especula-se que, como o local das reuniões era naquela Tasca, apenas os Homens Surdos frequentavam o Grupo sendo que a participação das Mulheres Surdas eram apenas nos jantares e nos passeios.

Nessa mesma altura, na Casa Pia de Lisboa, os alunos Surdos, terminada a quarta classe, começaram a frequentar formação especializada nas áreas de Marcenaria, Carpintaria, Ferragem, Alfaiataria, Mecânica, Ourivesaria e Relojoaria. Era curioso que esses cursos eram definidos de acordo com o grau de surdez, sendo que os Surdos quem tinham mais ganho auditivo e conseguiam oralizar seguiam mais a Mecânica, a Ourivesaria e a Relojoaria, sendo que os mais fluentes em Língua Gestual Portuguesa tinham especializações em áreas que exigiam maior esforço manual.

Paralelamente à formação, o grupo de Surdos mais fluente em Língua Gestual Portuguesa, formou uma equipa de Futebol de Onze e disputavam jogos contra os colegas ouvintes que viviam e permaneciam no lar da Casa Pia de Lisboa, chegando a vencê-los inúmeras vezes.

Como a formação só tinha um período de dois anos, sob o risco de não perder o convívio e sobretudo o Futebol, esses mesmos Jovens Surdos decidiram juntar-se e fundar o GDSML, a 15 de Novembro de 1936. Este grupo desenvolvia atividades de índole desportiva, participando em campeonatos de Futebol de

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Onze, Karaté, Gincana de Carros e Natação sendo representados apenas com um logotipo e uma bandeira. Era um grupo composto por Surdos, maioritariamente homens, fluentes em Língua Gestual Portuguesa, tendo consigo dois ou três ouvintes que, sabendo ambas as línguas, serviam de “intérpretes”.

Os restantes Surdos, os que oralizavam, para salvaguardarem a sua fluência e capacidade em comunicar por via oral, quando a formação terminou, não quiseram integrar-se no Grupo e começaram a frequentar o Colégio do Professor José da Cruz Filipe, um educador oralista que tinha tido formação no Instituto de Surdos Mudos de Paris e se sagrou professor de Surdos na Casa Pia de Lisboa. Este professor, devido às reformas educativas da Casa Pia de Lisboa e às remodelações anteriormente ditas anteriormente, abandonou o seu cargo e fundou um recinto educativo privado para desenvolvimento do treino da fala e reabilitação auditiva acolhendo Crianças e Jovens Surdos, de várias idades.

Anos depois, com o fim da II Guerra Mundial, a sociedade transformou-se e trouxe a abertura a novas ideias, novas perspetivas para todo o país. Os alunos Surdos do Porto, rapazes, que frequentavam a Casa Pia de Lisboa, ao regressar à sua terra natal, transportavam uma visão mais desportiva e inclinada para o Futebol de Onze e, ao sagrarem-se “associados” ao Grupo Recreativo de Surdos Mudos do Porto, pediam uma nova designação para este Grupo. Desse modo, a 28 de Maio de 1951, o GRSMP, passou a designar-se Grupo Desportivo de Surdos-Mudos do Porto (GDSMP).

Como o nome alterou, apesar de não haver Estatutos do Grupo, os responsáveis, que tinham uma capacidade inata de gerir e orientar esta estrutura, decidiram com a alteração do nome, atribuir uma nova Bandeira, um novo logótipo e adotar um novo sistema de quotizações sendo que, para fins de equipamentos, calçados desportivos e aluguer de campos, os jogadores pagavam uma quota mais elevada que os restantes “associados”. Dadas as “novas” estruturas a serem assumidas, não era possível continuar a frequentar a Tasca, tendo o grupo decidido abraçar um novo projeto: a procura de umas instalações.

A primeira, ainda que de modo provisório, esteve situada na Sede da Casa do Benfica no Porto, um espaço coletivo e partilhado, na Praça da República.

Como o principal objetivo era conseguir um espaço próprio, autónomo, continuaram a procurar instalações que fossem adequadas às suas expectativas

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e, dois anos depois, em meados do ano de 1953, o Grupo Desportivo de Surdos Mudos do Porto, conseguiu uma Sede autónoma na Travessa de Sá da Bandeira.

Importa evidenciar que paralelamente à procura das instalações, os Surdos continuavam a organizar os Torneios de Futebol de Onze, as Festas Populares, os Passeios Turísticos e os Jantares fazendo parte do seu quotidiano e sendo uma forma natural de viver e pertencer ao Grupo composto, exclusivamente, por indivíduos que eram semelhantes entre si.

“Eu percebi logo, quando os vi a gestualizarem, a porta, a porta fechada, alguns deles um bocadinho desconfiados e, aí, percebi logo que os surdos nesse tempo, em 1966, na cidade do Porto, dentro do Grupo Desportivo Surdos Mudos do Porto, os surdos (acena negativamente com a cabeça) estavam fechados entre si, como um ghetto… percebi logo que isso estava ligado à língua” (Entrevistado [S2])

Em 1966, o GDSMP tinha cerca de cem (100) “associados” Surdos e todos prestavam trabalho voluntário na organização das atividades, definiam as suas próprias estruturas, realizavam assembleias, eleições marcando a sua participação social minoritária ativa, ainda que não estivesse legalizada. Os poucos Ouvintes que aderiam ao Grupo, eram familiares próximos (conjugue e/ou filhos) que conheciam e sabiam Língua Gestual. No entanto, eram organizados Torneios de Futebol de Onze entre Surdos e Ouvintes que pertenciam a Associações Desportivas Locais, sem qualquer impedimento nem preconceito de ambas as partes, chegando até a ser publicados em colunas de Jornais da Cidade do Porto. Eram eventos que ocorriam nos campos de futebol, sem qualquer interferência nem participação no Grupo e isso era aceitável.

Entre Surdos, uma vez por ano, havia o Torneio InterGrupos, disputado entre o GDSMP e o GDSML, sendo o jogo realizado um ano na Cidade do Porto e no ano seguinte em Lisboa, e assim sucessivamente. Esses encontros permitiam o reencontro, convívio e sobretudo a preservação e valorização da Língua Gestual, da Identidade e Cultura Surda.

Enquanto na cidade invicta ocorriam alterações na denominação do Grupo de Surdos-Mudos, em Lisboa, pelo ano de 1958, ocorriam os primeiros passos para a fundação da primeira Associação de Surdos em Portugal.

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Estando o GDSML concentrado na organização e promoção de atividades desportivas, aquele grupo de Surdos que se “refugiou” no Colégio Cruz Filipe, apercebendo-se das barreiras e da necessidade dos Surdos em constituírem uma Associação só para eles, solicitaram o apoio do seu mentor (José da Cruz Filipe), para a criação de uma Associação de Surdos. José da Cruz Filipe, habituado a frequentar Associações de Ouvintes Locais, rapidamente ajudou este grupo a formar a Associação Portuguesa de Surdos (APS), com Estatutos próprios que, ortodoxamente, previa a defesa e valorização da Língua Gestual Portuguesa como língua natural dos Surdos.

Legalizando o seu processo, os elementos constituintes da APS, realizaram o seu registo a 24 de Setembro do ano de 1958, com sede em Alvalade e tendo como primeira Presidenta Maria Madalena. Conseguido o registo, José da Cruz Filipe, reconhecendo que os associados que compunham esta nova Associação eram poucos, pediu a Argel Melo, um Surdo Falante, que fosse ao GDSML e desse conta da existência de uma Associação de Surdos, devidamente legalizada, onde poderiam continuar a desenvolver as suas atividades mas desta vez com mais credibilidade. Como o GDSML estava com ideias em fundar uma Associação de Surdos mas não tinha como nem a quem recorrer, ao receber esta notificação, os responsáveis decidiram integrar todos os seus bens e patrimónios à APS, fazendo agora parte da mesma. Mas esta ideia não agradou a todos e, cerca de vinte (20) a vinte e cinco (25) Surdos/as, desligaram-se do Movimento e passaram a frequentar os cafés da zona de Benfica e Amadora.

Poucos meses depois de assumir posse, Maria Madalena, traçou estratégias para impedir o acesso associados Surdos da APS, abriu uma espécie de ATL para crianças surdas, onde desenvolvia a fala e o português escrito. Dado o incumprimento estatutário por parte da atual presidente, o grupo de Surdos apresentou queixa a um Juiz, pai de um deles, que, escrevendo uma carta de denúncia à Polícia, conseguiu a demissão da mesma. Infelizmente, junto com a ordem de demissão, a Polícia penhorou todo o espaço e a APS ficou sem instalações.

Não desistindo de encontrar uma solução para a Associação, os Surdos conseguiram um pequeno espaço no Areeiro mas, devido às dificuldades nos transportes, poucos meses depois mudaram para a Rua da Fé, para o interior de uma Associação de Ouvintes que lhes tinha oferecido um gabinete. Como a APS,

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através dos elementos do GDSML, continuou a desenvolver atividades desportivas, a organizar torneios e até mesmo a vencer campeonatos locais, começava a lucrar e a ter melhores condições financeiras do que a Associação que lhe cedera o espaço e isso não estava a ser do agrado da mesma. Apercebendo-se disso e antes que fossem despejados, os Surdos começaram a procurar, de novo, um espaço amplo e exclusivo para os sócios da APS, com todas as condições necessárias para o desenvolvimento das suas atividades. Pelo ano de 1970 conseguiram arrendar um andar inteiro de um prédio, na Avenida da Liberdade e, ainda hoje, mantêm.

Representando cerca de setecentos (700) Surdos/as associadas, na sua maioria, analfabetas, a APS desenvolvia eventos culturais tais como a dança, o teatro, os concursos, festas populares assim como continuava fiel ao desporto ao desenvolver torneios de xadrez, futebol de onze, pesca e ping-pong, sob a presidência de Mário Moura, Surdo, que sucedeu a Maria Madalena. A maioria dos elementos da direção era composta por Surdos/as com uma boa fluência no Português Escrito, estando entre eles o jovem José Bettencourt, uma das atuais figuras de referência no Movimento Associativo e no Movimento de defesa e preservação da Língua Gestual Portuguesa.

Contrariamente ao que sucedia em Lisboa, o GDSMP mantinha a sua atividade sem qualquer intenção nem necessidade de se tornar uma Associação. No entanto, os elementos mais jovens, principalmente Armando Baltazar, já se preocupavam com o futuro e a necessidade de legalizar o Grupo.

Em meados do ano de 1971, o Grupo voltou a ter problemas com as instalações. O senhorio a quem arrendavam necessitava do espaço para fins de negócio e ofereceu ao Grupo uma indeminização de dez mil escudos (10.000$00) para conseguirem um outro espaço adequado às atividades que realizavam. Com consentimento unânime de todos, o Grupo abandonou o espaço e passou a frequentar o Café Garça Real, perto do Teatro Rivolli.

Os elementos responsáveis do Grupo, procuravam incansavelmente por um espaço que pudessem alugar e que incluísse um gabinete e um bar/zona de convívio, restrito e exclusivo aos seus associados surdos, conseguindo no final do ano 1972. Porém este feito não era completamente satisfatório ao Grupo pois nessa mesma altura, os grupos mais jovens que terminavam os seus estudos na

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Casa Pia de Lisboa e/ou Instituto de Surdos Mudos Imaculada Conceição, com ideias revolucionárias e controvérsias às do Grupo, decidiram avançar com a implementação da Sociedade de Surdos-Mudos do Porto (SSMP), exclusiva para jovens e com linhas de atuação dirigidas aos mesmos. Com isto, o GDSMP, perdeu muitos elementos, ficando apenas 3 Jovens, entre eles Armando Baltazar que não baixou os braços e tentou, de todas as formas, compreender esta iniciativa por parte dos seus anteriores companheiros assim como procurar a legalização do Grupo para que este não sofresse as consequências do Facismo.

Atento aos movimentos da SSMP, Armando Baltazar procurava acompanhar e conhecer de perto os contactos e as manobras de atuação dos mesmos. Dessa “vigília”, conseguiu aperceber-se que havia troca de correspondência destes com a APS, a única instituição legal para o associativismo surdo em Portugal e decidiu rumar a Lisboa a fim de conseguir uma forma de tornar o Grupo legal, com regulamentação estatutária que impedisse a dissolução do mesmo.

Dessa reunião, dado o historial semelhante das duas cidades em termos associativos, a APS deu o aval para a criação de uma Delegação sua na cidade do Porto sob a gestão do GDSMP, rompendo os contactos e pré-acordos com a SSMP e, a 17/19 de Fevereiro de 1974, em Assembleia Geral, com votação unânime, a Associação Portuguesa de Surdos – Delegação do Porto (APS-Porto) viu transferida para si todo o historial e património do GDSMP.

Como primeiro passo, a APS-Porto contactou os elementos da SSMP e propôs a sua dissolução por não ter nenhum reconhecimento legal, não possuir estatutos nem estruturas que permitissem o seu funcionamento, transferindo os seus associados para a APS-Porto.

Em Abril de 1974, na Revolução pela Liberdade, Portugal tinha “duas” importantes Associações de Surdos que prestavam apoio aos Surdos/as, realizavam cursos de alfabetização, davam os primeiros passos para o ensino da Língua Gestual Portuguesa à Comunidade Ouvinte e jogavam com o poder político dando a conhecer a existência de Surdos, das atividades desenvolvidas pelas mesmas e da importância da Língua Gestual Portuguesa.

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4.2 A Unificação de Poderes: Federação Portuguesa das

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