A inadequação de uma linha de pensamento essencialmente objetiva e positivista aos propósitos e no contexto específico deste trabalho não implica a aceitação alternativa de uma perspectiva preponderantemente subjetivista, uma vez que a
tecnologia, se não é um determinante estrutural, tem um papel de elevada importância na constituição do fenômeno analisado. Em outras palavras, as tecnologias de mobilidade digital e bancária também não poderiam ser consideradas somente elementos passivos em relação às intenções e interações sociais.
Esta questão da perspectiva tecnológica retoma um dos mais importantes debates nas ciências sociais entre “objetivismo” e “subjetivismo”, ou mais especificamente, entre os conceitos dicotômicos de “estrutura” e “ação” relacionados à “dualidade da estrutura”, conforme comentam Orlikowski e Robey (1991). Sem ter a pretensão de conceituá-los, resumi-los ou exauri-los neste trabalho, poder-se-ia associar a idéia abstrata de “estrutura” aos elementos e regras que limitam ou influenciam as oportunidades dos indivíduos, ou mesmo que determinam suas decisões e ações. Por outro lado, a idéia de “ação” (ou “agência”) estaria relacionada à capacidade e à liberdade dos indivíduos de tomarem suas próprias decisões e de agir, sem serem condicionados a isto, contrapondo-se ao determinismo imposto pela estrutura.
Pozzebon e Pinsonneault (2005) analisam uma corrente teórica alternativa que se aplicaria mais adequadamente à questão evidenciada neste trabalho: o estruturacionismo. Segundo estes autores, o estruturacionismo seria uma das várias alternativas teóricas que suplantariam as linhas dualistas de pensamento, propondo uma forma de análise social que evitaria a divisão histórica entre as visões deterministas e voluntaristas.
Structuration is posited as a social process that involves the reciprocal interaction of human actors and structural features of organizations. The theory of structuration recognizes that human actions are enabled and constrained by structures, yet that these structures are the result of previous actions. (ORLIKOWSKI, 1992, pág. 404).
A partir do estruturacionismo, a dicotomia entre estrutura e ação poderia ser superada na medida em que questionasse a premissa de mútua exclusão e contraposição entre estes elementos (POZZEBON, 2004b).
Rather than opposing objective-subjective or voluntarist-determinist dimensions, Giddens (1984) challenged the premise of mutual exclusivity and assumed the duality of structure and action, proposing the theory of structuration. (POZZEBON, 2004b, pág. 03).
Uma importante contribuição desta teoria, proposta e defendida pelo sociólogo britânico Anthony Giddens, um dos seus maiores expoentes, seria o conceito da “dualidade da estrutura”, a partir do qual a estrutura seria entendida tanto como um meio quanto como um resultado da ação social. Para Orlikowski e Robey (1991), as estruturas limitariam o comportamento dos indivíduos, contudo também os tornariam possíveis. Neste sentido as estruturas sociais seriam tanto constituídas pela interação humana, como também seriam o próprio meio desta constituição.
Giddens developed structuration theory as a way of overcoming what he saw as deficiencies in the two approaches dominating social analysis in the late 1970s and early 1980s. One of these was positivism, or “naturalistic” sociology as Giddens refers to it [...] Structuration, therefore, sought to avoid such asymmetrical and dualistic treatment of action and structure by conceptualizing the two as a mutually constitutive duality. Giddens’s rejection of objectivism and naturalistic approaches, leads him to adopt a post-empiricist and antipositivist approach to methodology. (JONES; KARSTEN, 2008, pág. 130-131).
A teoria estruturacionista, articulada de modo a integrar equilibradamente os conceitos de estrutura (determinismo) e ação (liberdade), apresenta-se como uma relevante alternativa conceitual para o presente estudo, em detrimento de outras abordagens teóricas como a fenomenologia, a teoria institucional e outras, justamente por poder relacionar a tecnologia a estas duas dimensões. A Figura 2 posiciona diferentes abordagens teóricas em relação aos conceitos mencionados, ressaltando a pertinência desta teoria.
Rede
Institucional
Construtivismo
Fenomenologia
Estrutura (baixa influência)
Determinismo ambiental
Estrutura (alta influência)
Agência (baixa influência)
Agência (alta influência)
Determinismo
de ação Voluntarismointerpretativo
Escolhas estratégicas Interacionismo Sensemaking Sociologia realista Estruturação Rede Institucional Construtivismo Fenomenologia
Estrutura (baixa influência) Determinismo
ambiental
Estrutura (alta influência)
Agência (baixa influência)
Agência (alta influência)
Determinismo
de ação Voluntarismointerpretativo
Escolhas estratégicas Interacionismo Sensemaking Sociologia realista Estruturação
Figura 2 - Abordagens teóricas conforme nível de influência Fonte: traduzido de Pozzebon (2004b, pág. 259).
Apesar da pertinência conceitual da teoria estruturacionista, Pozzebon e Pinsonneault (2005) avaliam que a aplicabilidade dos conceitos de Anthony Giddens se depara com dois grandes desafios: por um lado a teoria da estruturação mostra- se complexa e seus conceitos são bastante abstratos; por outro lado os autores entendem que é muito difícil aplicar empiricamente esta teoria, visto que ela não está associada a nenhum método de pesquisa ou abordagem metodológica específicos.
Based on general propositions and concepts that operate at a high level of abstraction, ST gives rise to diverse and sometimes contradictory interpretations. Moreover, ‘structuration theory is not intended as a method of research or even as a methodological approach’, and its application in empirical research is widely recognized as very difficult (Giddens 1989: 296). In order to be relevant, a theory must be applied empirically, and ST is not easily coupled with any specific method. (POZZEBON; PINSONNEAULT, 2005, pág. 03).
Além disto, “a teoria estruturacionista é uma teoria geral das ciências sociais; em sua formulação original, o estruturalismo presta pouca atenção à tecnologia” (POZZEBON; PINSONNEAULT, 2005, pág. 4, tradução nossa). Este entendimento é reforçado por Orlikowski (1992), ao afirmar que Giddens não endereça explicitamente a questão da tecnologia no seu paradigma da estruturação. A autora afirma que nenhuma tentativa havia sido feita, até então, no sentido de usar a teoria da estruturação para reconceituar a noção de tecnologia e para reformular as relações entre tecnologia e organizações.
Thus, despite its almost complete neglect of technology, structuration’s 'focus on structure and on the processes by which structures are used and modified over time' is seen as resonating with long-standing concerns in IS research about 'the structuring properties of technology' and the more recent interest in 'structure as a property of organizations and work groups.' (JONES; KARSTEN, 2008, pág. 134).
Pozzebon e Pinsonneault (2005) e Jones e Karsten (2008) e Orlikowski (1992) compreendem a necessidade e relevância de se evolver os conceitos gerais relacionados a esta teoria no sentido de desenvolver então uma visão estruturacionista da tecnologia.
Para Orlikowski e Robey (1991) e Orlikowski (1992), um modelo estruturacional da tecnologia compreenderia três componentes centrais: agentes humanos, tecnologia e propriedades institucionais das organizações, bem como relações e influências entre eles.
Os tipos de relações e as influências entre tais componentes poderiam ser sumarizados em: a) tecnologia como um produto da ação humana; b) tecnologia como um meio da ação humana; c) a estrutura influenciaria as interações humanas com a tecnologia; e d) a estrutura sofreria influências da interação humana com a tecnologia, reforçando ou transformando a própria estrutura. A Figura 3 apresenta graficamente estas influências.
Propriedades Institucionais Tecnologia Agentes Humanos a b c d Propriedades Institucionais Tecnologia Agentes Humanos a b c d
Figura 3 - Modelo estruturacional da tecnologia Fonte: traduzido de Orlikowski (1992, pág. 410).
A tecnologia seria então o produto da ação humana, enquanto que ela também assumiria propriedades de estrutura (ORLIKOWSKI, 1992, pág. 406). É o que esta autora então denominou de “dualidade da tecnologia”. Posteriormente, a autora reconsiderou algumas de suas idéias articuladas neste artigo.
Mais especificamente, a autora rejeita o conceito baseado no construtivismo social de que a “estrutura” estaria incorporada na tecnologia, como se esta fosse apenas um “artefato” tecnológico estável que carregaria em si as propriedades institucionais (ORLIKOWSKI, 2000). Alternativamente, a autora evidencia o aspecto dinâmico do “uso da tecnologia” e sua recursividade, propondo então uma visão ampliada da “tecnologia-em-prática”.
Users' interaction with a technology is thus recursive – in their recurrent practices, users shape the technology structure that shapes their use. Technology structures are thus not external or independent of human agency; they are not "out there," embodied in technologies simply waiting to be appropriated. Rather they are virtual, emerging from people's repeated and situated interaction with particular technologies. These enacted structures of technology use, which I term technologies-in-practice, are the sets of rules and resources that are (re)constituted in people's recurrent engagement with the technologies at hand. (ORLIKOWSKI, 2000, pág. 407).
Para Orlikowski (2000), tecnologia-em-prática diria respeito ao modo como a tecnologia seria de fato usada, não necessariamente obedecendo a propriedades e aplicações definidas previamente pelos seus criadores ou desenvolvedores, mas sendo moldada em um processo de estruturação baseado na interação humana. Esta autora esclarece ainda que a interação humana com a tecnologia é tipicamente recorrente: os usuários ou comunidade de usuários tanto constituiriam uma tecnologia-em-prática através do uso da tecnologia no tempo presente, quanto suas próprias ações seriam moldadas por prévias tecnologias-em-prática que eles constituíram no passado (ORLIKOWSKI, 2000, pág. 410).
A Figura 4 representaria as tecnologias-em-prática considerando as influências de múltiplas estruturas colocadas em prática pelo uso recorrente da tecnologia, bem como a relação entre estrutura e agência. A tecnologia-em-prática também seria compreendida como estrutura. Contudo não seria um mero artefato tecnológico estável. Essencialmente, a tecnologia-em-prática resultaria da recorrente interação humana com a tecnologia.
Figura 4 - Representação das tecnologias-em-prática Fonte: ORLIKOWSKI, 2000, pág. 410.
Adicionalmente, a autora adverte que, apesar da análise do uso da tecnologia ser situacional e emergente, isto não implica que este uso seja completamente único ou exclusivo. Pelo contrário: como o uso regular da mesma tecnologia tende a ser recorrente, a tecnologia-em-prática determinada pelo uso de indivíduos ou de comunidades de indivíduos tende a ser a mesma ou ao menos similar (ORLIKOWSKI, 2000, pág. 421). Conseqüentemente, esta propensa estabilização8 da tecnologia-em-prática permitiria aos pesquisadores generalizar, ainda que de maneira limitada, os tipos de tecnologia-em-prática mais prováveis de ocorrer a partir da análise do contexto geral (tipos de usuários, ocasiões, lugares, tecnologias específicas, etc.) no qual seriam geradas.
Pozzebon, Diniz e Jayo (2008) destacam uma lacuna no conhecimento relacionada à visão estruturacionista da tecnologia: poucos estudos publicados abordam múltiplos níveis de análise junto a complexas redes de agentes, abrangendo tanto o “micro” (contexto específico local, organizacional ou individual) quanto o “macro” (sociedade, política, história e cultura).
O presente tópico não tem por objetivo abordar todos os aspectos concernentes à visão estruturacionista da tecnologia mas, tão somente, selecionar e apresentar alguns conceitos especificamente relevantes para o desenvolvimento deste trabalho. O conceito de tecnologia-em-prática é particularmente relevante ao presente estudo, uma vez que o fenômeno analisado (Mobile Banking) está fundamentado no uso prático de tecnologias (de mobilidade digital e bancárias) em um contexto e para uma finalidade diferentes das quais foram inicialmente desenvolvidas, sendo resultado da recorrente interação humana em contextos e condições específicas. Ainda que pertinente e mais adequado às questões tecnológicas, o conceito estruturacionista de tecnologia-em-prática está associado a uma importante restrição: raros são os trabalhos acadêmicos que abordam ou descrevem a sua aplicação prática. Neste sentido, entende-se serem necessárias contribuições teórico-metodológicas adicionais de modo a ampliar esta visão tecnológica.
8 “Estabilização após desenvolvimento” e “incorporação da estrutura” na tecnologia são duas
proposições oriundas do construtivismo social, anteriormente criticadas pela autora, quando associadas à tecnologia como mero “artefato” (ORLIKOWSKI, 2000, pág. 405-406).