• Aucun résultat trouvé

Entendemos que, antes de expor nossas escolhas no tocante à análise das informações obtidas no momento empírico, importa apontar qual o papel que lhes é atribuído. Assim, desejamos retomar nossa concepção de que não há uma separação estrita entre pesquisador e objeto pesquisado, vez que esses se constituem mutuamente. Além disso, não concebemos a possibilidade de que os dados existam por si mesmos, como representantes diretos da realidade que se apresentam de forma imediata à observação e à relação com a teoria, independentemente da atuação subjetiva do pesquisador. Consideramos interessante a conceituação que González Rey (2002) realiza acerca dos indicadores, representados por aqueles elementos ou informações produzidos durante a pesquisa e que adquirem significação graças à interpretação do pesquisador, o que implica que não são acessíveis de forma direta à experiência nem aparecem em sistemas de correlação. Entendemos que os registros dos casos que foram analisados na presente pesquisa constituem fontes de indicadores, momentos hipotéticos no processo de produção da informação que podem conduzir à aparição de novos indicadores, associados às ideias da pesquisadora.

Em consonância com tais observações, desejamos ressaltar que não consideramos que os registros escritos dos casos a serem analisados sejam dados objetivos, retratos fáticos da realidade. São, antes, partes da constituição subjetiva dos diversos profissionais que os redigiram (policiais, psicólogos, assistentes sociais, juízes, promotores, advogados, médicos), frutos de suas próprias interpretações da realidade em que atuam. Do mesmo modo, nosso olhar sobre eles é uma elaboração subjetiva, no diálogo com a forma como a realidade é por nós integrada a nossa subjetividade, nossas experiências, interesses e conhecimentos teóricos.

González Rey (2002) define o estudo de casos como um momento inescusável para a produção de conhecimentos em psicologia, no qual se expressa a tensão permanente entre o individual e o social, ambos níveis de constituição da subjetividade. Essa modalidade de trabalho é caracterizada pela atenção à singularidade do estudado, adquirindo seu valor para a generalização por sua capacidade de contribuir para o processo de construção teórica, e não por seu valor em termos de quantidade.

A utilização da análise de conteúdo nos pareceu proposta útil como forma de lidar com as informações obtidas em nosso momento empírico. Segundo Bardin (1979), trata-se de um processo que se inicia com uma apreciação do conteúdo manifesto das mensagens, sua superfície. Entretanto, objetiva, por processos inferenciais e pelo uso de técnicas sistemáticas e objetivas, acessar os significados ocultos e profundos nelas contidos, que trazem elementos a respeito do emissor e do contexto de produção. Desse

modo, permitiria acessar fatores de ordem psicológica, social, histórica. Nesse processo, seria etapa essencial a divisão do material, pelo pesquisador, em categorias analíticas que levassem em conta os contextos de sua produção para a apreensão dos significados implícitos.

Apesar de a análise de conteúdo possuir, nas últimas décadas, espaço considerável no âmbito do que é chamado de pesquisa qualitativa, entendemos que, para que nosso processo analítico seja coerente com os pressupostos metodológicos já explicitados, seria necessário levar em consideração a crítica realizada por González Rey (2002). O autor demonstra que, embora se situando como técnica que vem sendo privilegiada no bojo do que é denominado de qualitativo, a forma como a análise de conteúdo costuma ser sistematizada e empregada carrega em si os pressupostos da epistemologia positivista, acabando por situar-se de modo contraditório no que tange à pesquisa qualitativa. Assim, ressalta que, do modo como é tradicionalmente considerada, a análise do conteúdo trata o material a ser estudado como informação evidente, como um texto que é conteúdo externo ao pesquisador e ao qual esse tem acesso por intermédio das técnicas a serem empregadas. Produz categorias que se comportam como um código objetivo e estático, reificadas pelo pesquisador, operando uma redução da riqueza do objeto, sua fragmentação, por meio de unidades parciais objetivas, que orientam e limitam a posterior interpretação. Os passos sistemáticos que encerra acabariam se interpondo no curso fluido dos processos de produção teórica do pesquisador, que acompanham e são parte da qualidade da informação produzida na pesquisa.

Assim, González Rey (2002) entende que a análise de conteúdo estaria vinculada a uma epistemologia positivista, ao funcionar com caráter instrumentalista e verificador. Concordando com tal posicionamento, julgamos que, mais importante do que seguir os passos rígidos tradicionalmente propostos pela análise de conteúdo, nossa aproximação aos casos em estudo tem por objetivo produzir uma compreensão acerca de aspectos que os compõem e que podem contribuir para a construção do conhecimento acerca da temática da violência contra pessoas com deficiência na família, produzindo novos marcos teóricos que se integrem de forma coerente ao que já vem sendo construído de modo incipiente na psicologia. Nesse sentido, entendemos, tal qual González Rey (2002), que a análise de conteúdo pode ser utilizada dentro de uma epistemologia qualitativa de pesquisa se for compreendida como um processo construtivo-interpretativo, que ocorre de forma aberta e processual, transcendendo a codificação e a produção de categorias concretas restritivas.

Nessa trajetória, a identificação de indicadores conduz à formulação de categorias que pretendem dar um sentido ao conteúdo, sem separá-lo dos processos construtivos do pesquisador nem reduzi-lo a tais categorias. Essa produção pode incluir o inesperado e as contradições, não previsíveis a partir de marcos teóricos definidos a priori. Segundo González Rey (2002), a geração de categorias a partir dos indicadores trata-se de um dos momentos mais criativos e delicados do processo de pesquisa, em que o pesquisador

produz uma integração e uma generalização das informações, permitindo a produção de novas zonas de sentido acerca do objeto estudado, o que é a finalidade do fazer científico.

Desse modo, nossa análise dos casos obtidos durante o momento empírico leva em conta que a pesquisa é um processo fluido e dinâmico de produção de pensamento, em que o pesquisador constrói, ativamente, relações entre suas próprias experiências e ideias, seu conhecimento teórico prévio e as informações produzidas, no sentido de gerar novas possibilidades integrativas. Assim, embora nos afastando das intenções de produzir uma análise que acredite na produção de objetividade e neutralidade conforme a tradição da ciência positivista, isso não implica que nos afastemos de um rigor científico. Esse se embasa em um constante cuidado crítico em relação a nossa atuação no processo de pesquisa, compromissos e intenções, que perpassa o estabelecimento de um diálogo entre a fundamentação teórica e o momento empírico.

Finalmente, mais do que apresentar uma análise que objetive a verificação de hipóteses prévias com o objetivo de validar fundamentos teóricos existentes em um caminho de consolidação de um corpo de conhecimentos definitivo, intentamos, neste trabalho, nos aproximar de um fenômeno que ainda nos parece invisibilizado na ciência e na sociedade. Essa aproximação conta com a abertura para vislumbrar o novo, o inesperado e as contradições, o que contempla a expectativa da produção de novos questionamentos e zonas obscuras que orientem a realização de novas pesquisas.

Documents relatifs