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2 Planification de la fabrication des

2.3 Techniques de planification existantes et leurs limites

vistas a garantir a ordem na vila. Medidas de prevenção para que outros insurgentes não viessem a deflagrar novas revoltas foram realizadas. O receio de uma guerra civil era evidente, e os temores de 1817 e 1824 (Pernambuco) retornavam a cada probabilidade de surgimento de novos episódios de insatisfação política. Nesse cenário, as Guardas Municipais foram reforçadas, mas, o espírito da rebeldia estava sobre a cidade, e a intranquilidade determinava o cotidiano, a mobilidade e a sociabilidade dos víveres na região. A dificuldade em manter a ordem pública e a unidade territorial ocupava a maioria das correspondências trocadas entre as autoridades. Em 05 de Abril de 1832, o então Regente Padre Antônio Diogo Feijó, buscou informações da Bahia ao presidente da Província, solicitando que este detalhasse as ameaças e conspirações que ali se desenvolviam, com o objetivo de abalar a Regência e derrubar o Governo. De abril a dezembro de 1832, todos os cidadãos da vila de Cachoeira estiveram sob ameaça de um novo levante. No entanto, em 02 e 03 de dezembro daquele ano, novos indícios de sedição seriam vistos na capital da província, Salvador havia amanhecido com cartazes afixados nas paredes dos estabelecimentos, com dizeres que aclamavam a federação. (ACCIOLY, 1852; ARAS, 1995, 2012)

2.4.3 Movimento Federalista de 1833

O movimento de 32 se manteve organizado mesmo após a derrota para as forças legalistas do Império. Com seus líderes presos no Forte do Mar em Salvador, existia uma expectativa das autoridades alinhadas ao Presidente da Província de que os movimentos diminuíssem, ou pelo menos, que as derrotas anteriores fortalecessem o receio de novos embates, e novas derrotas. Desde o fim do movimento de 32 em Cachoeira/S. Félix, que a perseguição aos simpatizantes da causa federal tornou-se uma regra, especialmente, nos fluxos de pessoas entre a capital e o interior do Recôncavo. Era a forma que as autoridades encontraram para manter o controle dos sensíveis a bandeira do movimento. Entretanto, os boatos de novas resistências não cessavam, e em 14 de janeiro de 1833, a cidade de Salvador estava novamente envolvida com a notícia de que os Corpos de Primeira Linha, estavam se preparando e organizando-se para libertar os rebeldes que foram presos no ano anterior, o grupo de Guanaes Mineiro. Além disso, segundo o boato que circulava na capital, a ideia dos revoltosos,

objetivavam elegerem autoridades e empregados públicos, e oferecer solução para o problema da moeda falsa. (ARAS, 1995)90

Os recorrentes boatos levaram as autoridades, com receio de que se transformasse em novos movimentos, a prender os boateiros, como medida preventiva. A situação não foi amenizada com as providências tomadas, e em 09 de março de 1833, grupos civis entram em choque com as autoridades locais. A situação de intranquilidade naquele ano representava uma mudança importante na vida dos moradores da província. Qualquer comportamento que pudesse ser considerado suspeito, como a posse de armas, a reunião de pessoas, ou até mesmo conversas informais, eram consideradas aos olhos das autoridades uma possível conspiração, o suficiente para detenção dos envolvidos. Dois movimentos se destacaram naquele mês: após boato de sublevação, um delegado armou-se em conjunto com moradores do distrito que residia, e tentou desarmar os portugueses, armar o restante da população e acabar com a circulação de moeda falsa, acreditando que a cidade estava em revolução e a casa do Juiz de Paz cercada por rebeldes; a outra situação envolveu o quartel da Cavalaria dos Guardas Permanentes, as informações que circulavam era de que este estava sob ataque, e o Forte São Pedro havia sido invadido por rebeldes. Além dos outros envolvidos, destacou-se no fato a presença de dois pardos, Leonardo e Miguel Chaves. (ARAS, 1995)

Devido a situação caótica que vivia a província, e com vistas a conter as constantes resistências, uma das medidas adotadas pelas autoridades, significou a transferência para a Fortaleza do Mar, em Salvador, de envolvidos na Revolta de 1832 em Cachoeira/S. Félix, e de outros presos políticos. A transferência representaria um dos momentos mais significativos do episódio.

No dia 20 de abril de 1833, os presos da Fortaleza do Mar queixaram-se e requereram ao Conselho de Governo o restabelecimento dos suprimentos para o sustento dos réus que estavam sob custódia. A reivindicação não foi atendida, e isso contribuiu decisivamente para a eclosão da revolta. Iniciada em 26 de abril, quando aproximadamente 30 rebeldes renderam o comandante do Forte, Capitão Joaquim

90 Ainda em 1832, a questão da moeda falsa, que circulava cada vez mais na praça da província e vilas do

interior, já era um problema que as autoridades se preocupavam. O Visconde de Pirajá, em 27 de fevereiro de 1832, havia publicado uma ordem do dia direcionada aos habitantes da vila, que fazia referência ao problema: “[...] Procurai a extinção dos moedeiros falsos, desses inimigos da prosperidade provincial, que tem reduzido nossa praça commercial à fazer banca rota. Não sejamos mais solícitos em destruir anarchistas, que fabricadores de moeda falsa: um altera a tranquilidade pública, o outro consome as rendas do estado. Amados Cachoeiranos, confiai no governo, e em breve tereis o socego que desejaes.” (ACCIOLY, 1852, pp. 164)

Antônio da Silva Carvalhal. Naquele momento, segundo relatos, os líderes do movimento seriam: Miguel Guanaes Mineiro, Joaquim Gerardes, Tenente Alexandre Sucupira, Luiz Onofre Cercundes de Carvalho, Daniel Gomes de Freitas. (ARAS, 1995) Na ocasião, os rebeldes dispuseram a render as embarcações que trafegavam ao redor do Forte, retirando-lhes os suprimentos que eram destinados à comercialização no porto da capital. Ao saber do que estava ocorrendo, o Conselho Geral da Província, ordenou ao Comandante das Armas que fosse empregada a força armada como conviesse, deixando a disposição a frota marítima para conter o quanto antes os revoltosos. O medo, era que a rebelião se alastrasse pela cidade, e tornasse a repressão mais complexa. Em conformidade com o que havia determinado o referido Conselho, o Presidente da província se posicionou mediante ofício destinado aos rebeldes:

O Presidente da Província ordena que se faça saber aos Indivíduos Presos de Justiça da Fortaleza do Mar, e os demais envolvidos na Conspiração, que tendo sido deliberado pelo Conselho de Governo, mediante as requisições dos Juizes de Paz, que se empregasse a Força Armada de Terra e Mar contra eles – não só por terem sublevado na dita Fortaleza, como por fazerem fogo à cidade e levantarem Bandeira, diversa da Nacional – Imperial; deponhão imediatamente as Armas, descarregando as peças e voltando às suas antigas posições, abrindo o Portão da Fortaleza, e depositante as Armas na rampa. O que feito, se usará com eles da equidade, que a humanidade reclama; ao contrário será resolvido o ataque definitivo, e a Força praticará seu dever. (ARAS, 1995, pp. 127)

A partir de então, as forças imperiais começaram o ataque ao Forte. A Corveta Regeneração abriu fogo contra os rebeldes. Em resposta, os canhões foram apontados para a cidade, o que viria a causar pânico na população e desespero nas autoridades. O que chamou a atenção neste episódio, foi como as informações entre os grupos que estavam amotinados no Forte do Mar e aqueles que tentavam organizar outra rebelião em terra se deram. No dia 28, os rebeldes do Forte souberam da articulação em terra, e foram solicitados a permanecerem amotinados por mais dois dias, até que a rebelião em Salvador ganhasse força. Dessa forma, e apavoradas com as trocas de informações, o Presidente da Província mandou que cortassem toda e qualquer possibilidade de comunicação, barrando as embarcações que porventura viessem a se aproximar. Tomando conhecimento da troca de informações, as autoridades passaram a desconfiar das sociedades e clubes secretos que poderiam estar envolvidas, incluindo a Maçonaria. No dia seguinte, as tropas legalistas impuseram um brigue e uma canhoneira e

bombardearam o Forte. Logo após. Os rebeldes se renderam. (ARAS, 1995; ACCIOLY, 1852; OLIVEIRA, 2012)

O fim da revolta do Forte do Mar trouxera prejuízos aos cofres do Governo Provincial. Não apenas os danos causados às edificações com os tiros de canhões disparados pelos rebeldes, mas, sobretudo, o fato do comércio ter ficado fechado durante dois dias, os gêneros alimentícios de primeira necessidade subirem de preço e as repartições públicas que não funcionaram, foram mais prejudiciais à administração da província.

Este segundo capítulo visou demonstrar o contexto no qual a Bahia estava inserida nos primeiros anos da década de 30 do século XIX. As dinâmicas políticas das revoltas, seus atores históricos, com isso respondemos parcialmente à pergunta que guiou este trajeto: como o federalismo, e as ideias sobre um novo modelo de regime político se dilatou na Bahia? Como fora recepcionada o ideário federal pelas elites regionais baianas? E como se operou suas principais rebeliões? Ao buscar respostas nas análises feitas por Aras, na bibliografia-fonte de Ignácio Accioly, ressaltamos o silêncio acerca da participação popular nos episódios que ganharam destaque. Passamos a considerar a agência negra nesses processos a partir de agora. E direcionamo-nos à pergunta que guia essa dissertação, a saber, qual o lugar do negro nos movimentos políticos do federalismo? Para isso, usaremos o Processo Crime Guanaes mineiro como fonte indiciária, tentando entender primeiro: como os negros aparecem no processo? Qual a sua origem? E o grau de envolvimento? A partir da hipótese desenvolvida no primeiro capítulo, que se refere a existência de tempo plural na constituição dos episódios, indagamos: qual o lugar do tempo do negro livre e escravizado na correlação de forças das temporalidades distintas e hegemônicas?

III. Apresentando o Recôncavo Rebelde

As discussões acerca das revoltas que aconteceram na década de trinta do ano de 1832 constitui um dos marcos da historiografia brasileira. Muitos historiadores e historiadoras se debruçaram sobre as rebeliões, sedições e insurgências de escravos e negros livres de cor91. Para o caminho a ser traçado nesse terceiro capítulo, buscaremos

na literatura acerca do tema, formas de pensar a agência dos negros que participaram dos movimentos federalistas no Recôncavo. Não pretendemos esgotar, obviamente, a complexidade de dinâmicas que envolveram os negros em suas experiências individuais e coletivas no período. Nos concentraremos, a partir da análise que empenhamos na leitura do processo crime Guanaes Mineiro – fonte principal dos episódios, sobretudo, por conter a devassa elaborada pelo juiz de Paz de Maragogipe –, tentando perceber e responder a pergunta que orientou a escrita desta dissertação: como a agência negra, no período de formação do estado-nacional, vinculou-se aos movimentos políticos e jurídicos gestados na conflitualidade das elites? Como a experiência temporal, considerando sua pluralidade, pode ser apontada como uma hipótese nas aproximações entre as expectativas federalistas e as expectativas dos negros? É possível falar numa

91 Ver João José Reis sobre a radicalização da insurgência negra, In: SILVA, Eduardo e REIS, João José

Reis. Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil. – São Paulo: Companhia da Letras, 1989; REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do Levante dos Malês em 1835. – Edição revista e ampliada, 3ª ed. São Paulo Companhia das Letras, 2012; REIS, João José. Há duzentos anos: a revolta escrava de 1814 na Bahia. Topoi (Rio de J. ) vol. 15, nº 28 Rio de Janeiro, Jan./June. 2014; REIS, João José, Quilombos e revoltas escravas no Brasil: “nos achamos em campo a tratar da liberdade”. Revista USP, São Paulo (28): 14-39. Dez./Fev. 1995/1996; FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos. 4. Ed. Rio de Janeiro, Graal, 1982; MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. – 5d. São Paulo: Anita Garibaldi coedição com a Fundação Maurício Grabois, 2014. Com uma proposta de perceber os “mundos dos negros” fora da África, Flávio dos Santos Gomes inaugura um olhar distinto até então acerca do agenciamento negro durante o escravismo, identificando as conexões entre as formas de insurgência negra e a correlação dessas com mundo dos brancos. Gomes, demonstra como o quilombo que, durante muito tempo foi visto de maneira marginal na história, por se tratar de um agenciamento de negros fugitivos, que se instalavam em lugares distantes das cidades, Gomes, demonstra como essa forma de resistência estava conectada com a cotidiano das vilas, refutando a ideia da distância entre os quilombos e as cidades. REIS, João José e GOMES, Flávio dos Santos. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 1996. GOMES, Flávio dos Santos, A Hidra e os Pântanos: Quilombos e Mocambos no Brasil (sécs. XVII-XIX). (Tese de doutorado). Unicamp, março. 1997. Somando-se a esses historiadores, e na construção da nova História Social no Brasil, outro buscaram o protagonismo negro, e elegeram como objeto de pesquisa a agência negra. LARA, Silvia Hunold. Campos da violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. São Paulo, SP: Paz e Terra, 1988; CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. – São Paulo: Companhia das Letras, 2011. CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Companhia das Letras. 2012. CHALHOUB, Sidney. Precariedade estrutural: o problema da liberdade no Brasil escravista (século XIX). História Social, n. 19, segundo semestre de 2010; MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. São Paulo: Edusp- Ed. UFRJ, 1995 [1958]; COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. 4.ed. – São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998.