O paciente nesta consulta está a um ano e oito meses da perda e traz uma compreensão sobre como se sente em relação ao vínculo com Clara e ao mundo onde ela está agora;
Somos daqui mais do que de lá, quando não perdemos alguém que amamos. Quando perdemos somos mais de lá do que daqui. Vivemos com a cabeça lá. O que pode fazer perder o aqui. Então parece que o único jeito de a gente ficar próximos de lá é trazendo o de lá pra cá. Alguns trazem os espíritos, eu penso mais nas ações, penso em fazer coisas que combinem
215 MOLTMANN, J. No fim, o início: breve tratado sobre a esperança. São Paulo: Loyola, 2007. p. 151. 216
MOLTMANN, J. No fim, o início: breve tratado sobre a esperança. São Paulo: Loyola, 2007. p. 153. 217 Ibidem, p. 151.
com isso entende... Me sinto mais próximo quanto mais parecido puder ser. È muito difícil ser daqui hoje. Eu acho que sou de lá, mas fiquei por aqui, é meio assim que a gente se sente.
Através das lentes da fé, agora no mundo invisível a que Clara pertence, o paciente relaciona-se na força do vínculo que não foi rompido pela morte, de tal modo que isso se torna uma dinâmica, o faz pensar numa aproximação proativa que, portanto, infere em suas condutas, escolhas e comportamentos no aqui e agora, já no presente.
Bruno, diante da ideia de pertencimento vincular, pondera ações e uma forma de ser no intuito de se manter pertencente ao mundo de Clara e, paralelamente, já, aqui, enquanto neste mundo. Desse modo, o paciente parece sinalizar que sente e deseja pertencer aos dois mundos.
Nessa perspectiva, entende-se que crer é, para Bruno, ser parte de algo que no seu inteiro pertence a um mundo onde o amor o compreende, não abandona e lhe permite um recomeçar reavivado, revitalizado, preservando-se e se mantendo conectado ao que ama.
Aqui é possível considerar, a partir da riqueza de sentido latente nas palavras de Bruno, então, o valor que, inclusive do ponto de vista psicológico para a elaboração do luto, possa ter o Batismo, como representante externo concreto e simbólico, garantia desse pertencimento ao enlutado. Sacramento que representa a consolidação e a entrada no mundo que será o endereço de todos.
Nesse aspecto, a Comunhão dos Santos, no Catecismo da Igreja Católica (957-962), é a máxima expressão de conexão entre o Céu e a Terra:
“A comunhão com os falecidos”. Reconhecendo cabalmente esta comunhão de todo corpo místico de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os tempos primevos da religião cristã, venerou com grande piedade a memória dos falecidos [...] e já que é um pensamento santo e salutar rezar pelos falecidos [...] nossa oração por eles pode não somente ajudá-los, mas também tornar eficaz a sua intercessão por nós. [...] A Igreja é “comunhão dos santos”: esta expressão designa primeiro as “coisas santas” e antes de tudo a Eucaristia, pela qual “é representada e realizada a unidade dos fiéis que, em Cristo, formam um só corpo”. Esse termo designa também a comunhão das “pessoas santas em Cristo, que morreu por todos”, de sorte que aquilo que cada um faz ou sofre em Cristo e por ele produz fruto para todos. “Cremos na comunhão de todos os fiéis de Cristo, dos que são peregrinos na terra, dos falecidos que estão terminando a sua purificação, dos bem-aventurados do céu, formando, todos juntos, uma só Igreja, e
cremos que nesta comunhão o amor misericordioso de Deus e de seus santos está sempre à escuta de nossas orações.218
No luto em Bruno, percebeu-se a premência de manter essa ligação, comunicação, pertencimento e endereço, de modo saudável, fluente para a pulsão vital, o que faz pensar no Batismo e na Comunhão dos Santos como recursos facilitadores para o processo de elaboração do luto que advêm do seu universo teológico.
Disso decorre um caminho no cuidado no enlutamento: psicoterapeutas e orientadores em geral devem considerar e conhecer os recursos que podem ser utilizados, ou que venham a emergir ao longo do processo de luto, nas e das mobilizações no universo teológico dos enlutados.
Para Moltmann a comunhão é o resultado de uma fé viva que nasce de uma esperança relacionada à eternidade e que se torna ação transformadora dentro do mundo atual a serviço do ser humano no amor e em Deus. Cita: “Eu próprio sou eternidade quando deixo o tempo, e quando reúno a mim em Deus e Deus em mim.” (Angelus Silesius).219
Assim, segue o paciente seu percurso na caminhada em elaboração. Com o tempo, as reações mostram-se cada vez mais mescladas a sentimentos positivos na direção de sua recuperação e restituição integradas. O recorte de número 59 exemplifica bem a direção:
Hoje depois de tudo, Deus é mais Cristo, como te dizia há um tempo atrás, mais vivo, mais pessoa, converso com ele, as orações já não são mais pedir e agradecer, é um relacionamento, não é mais um papinho doce, ingênuo como antes, acho que é mais realista. Clara queria nossa felicidade, a dela era a minha também, então a minha é a dela. Penso que eu, Deus, Clara, estamos de algum modo conectados, todos nós, a Luiza também. As vezes quando penso se estou sendo bom o suficiente, é também porque tenho medo de não conseguir ficar tão próximo dessa frequência. É aí que entra meu amor por Luiza, quero ser bom com ela também, quero que ela tenha o que é justo de mim. Quando a Clara estava aqui vivíamos com segurança, alegria e amor. Pensávamos a vida, ela sabia de mim, eu dela, por isso tenho a certeza de que ela está bem, me autorizando a ir adiante. Eu faria isso por ela. O amor de verdade é isso. Acho que quando penso em não me distanciar dela é porque uma parte de mim ainda quer a gente juntos, enquanto a outra já a ama de uma outra maneira. Eu a amo, eu fui amado, então eu a autorizaria a ser feliz do jeito que ela pudesse mesmo sem mim. É um ir adiante que parece te levar pra longe, mas também é um longe que te traz pra perto, se você puder entender como é... É um Deus mais
218 CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição revisada de acordo com o texto oficial em Latim. São Paulo: Loyola; Vozes; Paulinas; Ave‐Maria; Paulus, 2011. p. 270‐271.
humano, um amor que não morre e que sustenta a vida, é um jeito de cuidar das coisas que sempre vão ser importante pra mim, porque foram importante pra gente. Minha antiga organização ruiu, mas não é por isso que estou fazendo essas escolhas, estou fazendo por quem eu sou hoje, que não é a mesma coisa de dizer, o que me restou, eu não vou viver um resto de vida e não vou oferecer restos a ninguém. Eu quero uma reconstrução e espero sair disso tudo, bem mais forte, senão puder ser melhor do que era. Tô tentando não pelas convenções ou pelo que aprendi, mas pela verdade daquilo que sinto.
4.4 CONCLUSÕES DA ANÁLISE DO CONTEÚDO TEOLÓGICO DO CASO A E