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CHAPITRE I : Analyse des HAP dans les huiles

3. Analyse des HAP dans les huiles

3.2 Techniques chromatographiques et systèmes de détection

A não representatividade do sujeito no texto inconsciente é o que aparece dissimulada na proposição segundo a qual

um efeito de sentido não preexiste à formação discursiva na qual ele se constitui. A produção de sentido é parte integrante da interpelação do indivíduo em sujeito, na medida em que, entre outras determinações, o sujeito é “produzido como causa de si” na forma-sujeito do discurso, sob efeito do interdiscurso (SD: 261).

Como vimos, de acordo com a tese principal de Semântica e discurso, a interpelação do indivíduo em sujeito de seu discurso se realiza pela identificação do sujeito com a formação discursiva que o domina, “identificação na qual o sentido é produzido como evidência pelo sujeito e, simultaneamente, o ‘sujeito é produzido como causa de si’” (SD: 261).

Em que consiste essa simultaneidade? Precisamente, que a produção do sujeito “é acompanhada de uma imposição de sentido às representações” (SD: 262) e que esse processo é concomitante ao apagamento dessa determinação. Pêcheux se apóia em Freud e em Lacan para mostrar que essa imposição é ocultada por uma divisão no próprio elemento do

significante segundo a fórmula lacaniana: “o significante representa o sujeito para um outro

significante” (SD: 262). Observaremos, de passagem, que a tradução, “o significante representa o sujeito por um outro significante”, que consta na edição brasileira de 1988, distorce, obseda e inverte o seu sentido, pois não se trata, definitivamente, de um significante

processo ideológico pelos significantes presentificados pelo interdiscurso, como faz supor a tradução, mas de uma remissão de um significante a outro na qual o sujeito se faz representar na cadeia sem se contar nela. Ponto sintomático em que se revela a dificuldade de assimilação do sujeito do inconsciente à teoria do discurso.

Pêcheux extrai dessa formulação duas conseqüências, que apresentamos a seguir juntamente com nosso comentário:

1- O primado do significante (SD: 262), de cujas propriedades derivamos a constituição do signo e do sentido. Chamemos essas propriedades, metáfora e metonímia. De suma importância, a nosso ver, uma vez que, se o sentido é o resultado de operações metafóricas por efeito da substituição de um significante por outro (“uma palavra por outra palavra”, conforme a reprodução pêchetiana da definição lacaniana), não sendo dedutível de encadeamentos lógico-lingüísticos no nível do raciocínio, retorna-se sempre ao non-sens. Afirmar a supremacia do significante, desprendendo, dessa forma, o significante do significado, equivale a postular que o sentido resulta de superposições, confrontos e transferências que se estabelecem na relação de um significante com outro significante na estrutura sincrônica do material da linguagem, perdendo assim a evidência que poderíamos postular a partir de procedimentos centrados sobre um sujeito supostamente intencional.

Por um lado, seguindo mais de perto o pensamento de Pêcheux, o sentido se impõe a partir de uma formação discursiva que, por sua vez, está na dependência de uma região do interdiscurso. Uma formação discursiva é o lugar provisório onde as relações metafóricas tendem a se estabilizar em um determinado momento histórico. Por outro lado, essa região do interdiscurso não forma um lugar homogêneo, mas está marcada pela não-conexidade do pensamento. Nessa medida, pode-se dizer que o que torna possível a metáfora é o caráter local e determinado do que cai sob o domínio do inconsciente enquanto lugar do Outro (Autre), “onde, diz Lacan, ‘se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder se presentificar do sujeito’ ... e do sentido”, agrega Pêcheux (SD: 263). O

sentido se produz no non-sens. É o modelo do Witz que esclarecerá essa passagem do non- sens ao sentido, ou melhor, nele se revela o escárnio (dérision, como se expressa Lacan)

do significante, a perda e a recomposição do sentido como uma operação que se dá à revelia do sujeito, comandada pelo que Freud denomina a “técnica do Witz”. A língua

trabalha o sujeito, poderíamos dizer, para expressar a dependência do Witz com relação às propriedades da língua e, ao mesmo tempo, seu caráter inconsciente para o sujeito e para a formação de sentido que ele engendra. Uma formação discursiva é apenas o lugar de transferência, de paráfrase e de jogos de substituições determinados pelo interdiscurso. Em termos freudianos, poderíamos aproximar a formação discursiva da tradução verbal que caracteriza os processos pré-conscientes nos quais a representação de coisa, à qual ligamos o non-sens inconsciente, acede à representação de palavra.

2- “O significante toma parte na interpelação-identificação do indivíduo em sujeito” (SD: 264). Um significante representa o sujeito para um outro significante, o que acarreta que o significante não representa nada para o sujeito, “mas opera sobre o sujeito fora de toda compreensão” (saisie, no original) (ibid). Observamos, nessa passagem, o mesmo problema de tradução da edição brasileira ― “um significante representa o sujeito por um outro significante” ― no qual a remissão de um significante a outro, que caracteriza a irrepresentabilidade do sujeito, torna-se, por seu efeito, uma substituição que o fixa no lugar de sua interpelação ideológica. A discussão que se segue, no texto de Pêcheux, evocando o lugar destinado ao sujeito na linguagem pelo nome próprio, bem poderia dar razão a esse defeito de tradução pelo fato de que o nome próprio designa sem representar. Mas o significante não se reduz ao nome-próprio e aos efeitos de nomeação. O nome próprio é, nesse sentido, pura exterioridade e non-sens. Por isso, “constitui a forma em edição príncipe do efeito de pré-construído” (SD: 264). Isso esclarece, ademais, a posição do sujeito no campo das identificações. Por um lado, o sujeito se encontra “identificado à formação discursiva que o domina, onde ele se encontra ‘encravado’ (épinglé, no original)” (SD: 265), derivando-se daí a série de identificações imaginárias que dizem respeito à gênese do Eu (moi) que caracteriza “os efeitos do intradiscurso”.

Reservaríamos então o termo “ideologia” para essa interpelação do Eu (moi), deixando ao simbólico os efeitos sobre o sujeito? Aqui se introduz uma diferenciação entre ideologia e simbólico, por um lado (“a ideologia não é idêntica ao simbólico”), e entre identificação imaginária e identificação simbólica, por outro, uma vez que a interpelação do indivíduo em sujeito pressupõe a sua identificação primeira ao Ideal do Eu como matriz simbólica à qual o sujeito se destina por antecipação. Pois, na medida em que o sujeito pré-existe no discurso do Outro, fato demonstrado primeiramente pelo nome próprio, é como sempre-já

simultaneamente ideológica e jurídica, lembra Pêcheux, e se efetua na imbricação dos Aparelhos Ideológicos e dos Aparelhos Repressivos (jurídico-políticos) de Estado. Pêcheux afasta, dessa forma, a idéia de um sujeito que não seja determinado pela ideologia.

A referência ao Ideal do Eu e aos efeitos de identificação imaginária poderia ser esclarecida a partir do texto freudiano Psicologia de massas e análise do Eu (FREUD 1921/1969). Sobre a existência jurídica do indivíduo se estabelece um laço imaginário que Freud liga ao amor ao Pai, pelo fato de que cada sujeito, tomado individualmente, se identifica com o objeto colocado em lugar do Ideal do Eu e, consequentemente, se identifica com os outros indivíduos em seu Eu. É o modelo da hipnose que Freud evoca aqui para pensar o fenômeno de formação da Masse e, ao evocá-lo, demonstra que o seu efeito sobre o sujeito deriva da força de invocação pela qual o hipnotizador interpela o hipnotizado, dizendo-se ou fazendo acreditar que está na posse de um poder absoluto e irrefutável. Ora, aqui se observa uma diferença fundamental entre as concepções de Freud e de Pêcheux sobre o processo de identificação, na medida em que, para Freud, a identificação tem por fundamento esse objeto que fascina e não a ideologia veiculada pelo líder que dele se apodera.

A conclusão de Semântica e discurso aponta que “o Sujeito universal da Ideologia

representa para os sujeitos ‘a causa que os determina’ e lhes representa essa causa na esfera sem margens da forma-sujeito”. Portanto, “o Sujeito universal da Ideologia representa na

forma-sujeito o processo sem sujeito (na medida em que esse último é a causa do sujeito)” (SD: 273). Pêcheux evoca, então, o que lhe parece uma simples e profunda nuance: a tênue separação entre a tendência idealista, que visa a identificar o processo sem sujeito a um sujeito, [...] “tendo como ‘fim’ a unificação do real sob a forma de unificação do pensamento”, e a tendência materialista, que visa a “desfazer essa identificação [...], colocando o real como um processo não unificado, atravessado por desigualdades e contradições” (SD: 275). Ora, como veremos a seguir, é justamente essa concepção da causa, identificada aqui à ideologia, a partir da qual se produz como efeito a forma-sujeito do discurso, o que terá que ser retificado por Pêcheux em 1978, convocando, no intervalo entre a causa e o que ela afeta, a hiância do inconsciente.

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