No terceiro quartel do século XIX a demanda por animais crescia. Gado bovino e eqüino ainda era requisitado pelos mercados paulistas e mineiros, e mesmo com o fim do ouro nas minas, o café tornava-se um ávido consumidor dos animais produzidos no Rio Grande do Sul, e agora também nas fazendas dos Campos de Lages, Curitibanos e Campos Novos, em Santa Catarina e, de Palmas no Paraná. No registro (ponto de cobrança de impostos) de Rio Negro, entre 1851 e 1852 passaram 37.302 animais, e na segunda metade de 1853 mais 31.536 animais (KROETZ, 1985 apud SILVEIRA, 2003). Em 1860, somente a exportação de café aos portos necessitou 1,5 milhão de viagens de mula44.
42 As técnicas de criação propriamente ditas são devidas aos indígenas: o aquerenciamento do gado, o rodeio, a
invernada, a castração, o tratamento veterinário. Espanhóis, portugueses, sul-rio-grandenses e platinos, degradaram a técnica de criação das missões, igualadas somente em fins do século passado (FREITAS, 1981).
43 Na bacia platina, e também em Lages, a fertilidade natural e a produção predominantemente espontânea dos
meios de produção, o gado criava-se quase por si, desestimulavam a geração de produto excedente: “Ao tempo
em que o gado sem dono se reproduzia espontaneamente, o habitante da campanha precisava de pouco tempo de trabalho para obter os meios de subsistência... abatia uma rês no campo e (...) alimentava-se por vários dias”. (FREITAS, 1981).
44 Animais que viviam pouco devido aos caminhos difíceis, que não passavam de picadas, e baixa qualidade das
As fazendas adquiriram boa estrutura, seus proprietários tinham casas na cidade e podiam desfrutar de uma relativa qualidade. Eram consumidos alimentos e produtos industrializados, as casas tinham vidro e amadeiramento no assoalho e no forro; feitas de alvenaria e cobertas de telhas. Aos filhos era possível custear estudos em colégios internos em outras cidades, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, no Desterro, e até no Rio de Janeiro. Contudo, as fazendas teriam um ambiente isolado, inculto, desescolarizado, pobre, de pouco pendor para o trabalho, de ritmo lento e medíocre (LOCKS, 1998). As descrições de riqueza e cultura se misturam a retratos de uma situação econômica dos fazendeiros sempre razoável e nunca boa:
“(...) mesmo com o correr do tempo, a situação econômica, em geral, dos fazendeiros lageanos nunca chegou a ser brilhante. Melhor, nunca pôde vencer a barreira da mediocridade. Verdadeiramente, entre eles, os de maior patrimônio em campo e gado, poderiam ser considerados apenas “remediados”. E durante o século passado [XIX], a situação se manteve inalterada, tranqüila dentro da mediana”. (COSTA, 1982:1484).
Contudo, as informações documentais forem corretas, a produtividade era baixa. No caso da Fazenda Estrela, pertencente a Fidelis José de Oliveira Ramos, filho de Laureano Ramos, segundo Ramos Filho (1996), tinha ¾ de léguas por 3 léguas, com fundos no Rio Pelotas. Em 1894, tinha “um sobrado de pedra, uma outra cozinha coberta de telha, um galpão e mais benfeitorias, de 100 rezes de ano pra cima, 80 éguas mansas e cinco mulas mansas”. Considerando que uma légua quadrada tinha 1089 hectares, mas uma légua inteira tinha 4356 hectares45, a fazenda estrela tinha 2 léguas quadradas mais ¼, cerca de 10.602 ha. Mesmo que uma rês ocupasse 2 ha, e apenas 1/3 da área fosse campos, ou 3534 ha, seria possível criar até 1767 animais.
No final do século XIX e início do século XX, a divisão das terras por inúmeros herdeiros, além da falta de mão-de-obra e o aumento de seu custo, limitaria a expansão da pecuária capitalista (FREITAS, 1981)46 ou fez de propriedades prósperas entrarem em decadência mais rapidamente (CABRAL, 1987; COSTA, 1984). Mas pouco se sabe sobre a influência da degradação de sua base produtiva, devido a perda contínua de fertilidade nos campos por efeito das práticas adotadas na pecuária extensiva.
necessário muita reposição de animais que continuavam a ser produzidos no Sul do Brasil. Supondo que cada mula fazia até três viagens até o litoral Paulista, o café exigiu um rebanho de 500 mil animais (DEAN, 1996).
45 Mais de 43 quilômetros quadrados, o que levou a Coroa a limitar as sesmarias a um máximo de 3 léguas
quadradas, ao que “um morador pode cultivar” (Dean, 1996:89).
46 No início do século, o deslocamento de contingentes para a exploração da erva-mate no oeste e norte do estado
Na segunda metade do século XIX o Brasil inicia uma série crise econômica. Causada pelo esgotamento das minas e da competição que o açúcar nordestino encontrava nos competidores externos47 e pela pressão exercida pelos países que se industrializavam para que o Brasil extinguisse o trabalho escravo. O valor das terras baixava, iniciando a decadência da pecuária. No futuro, restaria a rica lembrança:
“A visão destas colinas verdejantes, batidas pelo vento, que guardam suas entranhas as vozes do passado, o tropel dos cavalos, o mugido das tropas que por aqui passaram ou que nelas se aquerenciaram, nos faz sentir a nostalgia dos nossos fantasmas, de sua lida rica e generosa, mas por vezes trágica.“48.
Quadro 2 - Fundação de Lages e Desenvolvimento da Pecuária.
47 Além disto, o comércio da carne também passou a sofrer concorrência com os países visinhos, mais
competitivos, pois o custo de transporte tornava-se tão caro por volta de 1910 que era mais barato transportar produtos animais do Uruguai ou Argentina que dos portos gaúchos (SILVEIRA, 2003).
48 Texto escrito e lido por Iponá Ribeiro Szpoganics, em cerimônia que erguia pela terceira vez uma cruz no
local de morte de Inhôlo, 150 anos antes (IPONÁ, 2000, apud RAMOS FILHO, 2002:102)
1 1665500 Povoamento Certão de Coritiba, Província de São Paulo 1 1772277 Caminho de tropas Entre o Pampa e Sorocaba Povoado de Nossa Senhora dos Prazeres dos Campos de Lagens 1 1777700 11885500 11991100 A vila de 1771 torna-se Catarinense
Lei das terras Redução da criação de muares Ascensão política de Lages Consolidação das Fazendas Formação de Sesmarias, Introdução de novas raças de bovinos e forrageiras Expansão de suínos em florestas da região 1 1993300 Esgota modelo político e econômico Crise comercial 1929. Divisão de grandes Fazendas (ex. Guarda Mor) Expansão de agricultura de subsistência. Degradação dos solos de pastagens. Criação Local de animais. Ampliação das Fazendas (campos novos, curitibanos..) Escravismo negro, Disputas com indígenas Expulsão de indígenas dos campos Campos ocupados por Índios Guaranis Produção de asininos e eqüinos, mas pouca produção de mulas, menos ainda de animais mansos. Industrialização da Carne: Charqueada de Tito Bianchini Realização de obras públicas e Jokey Club Privatização do melhoramento genético 1 1992200 Valorização da Carne Bovina durante I Grande Guerra Trânsito de animais