• Aucun résultat trouvé

LA TECHNIQUE PHOTOGRAPHIQUE AU SERVICE DES CHERCHEURS

Dans le document Producteurs d'images (Page 53-63)

Lopes (1990) descreve o tipo de predicados que normalmente surgem em constru- ções (des)conformativas como “predicados criadores de mundos possíveis”, provavel- mente recuperando um termo, cunhado por Morgan (1969), bastante usado na literatura gramatical sobre mundos possíveis ou sobre semântica modal. Acerca de uma frase como “conforme (ou como) sabes (ou previas), cheguei cedo”, afirma o autor que

(…) a oração da segunda frase (cheguei cedo) assere um estado de coisas que é assumido pelo enun- ciador como real, mas se conforma precisamente com o estado de coisas abstracto, não asserido ou não verbalizado na oração à esquerda, nela serve de objecto num predicado de injunção, de cognição ou de volição (…). A conformidade entre as duas orações constituintes é, por assim dizer, uma con- formidade de dois constituintes através de dois mundos: o mundo assumido como real pelo enuncia- dor e o mundo determinado por um predicado que o modaliza. (Lopes 1990: 12 – sublinhado do autor)

O tipo de verbos que ocorrem na adjunta (des)conformativa tem influência na natureza semântica da proposição completiva implícita. Como observei anteriormente, são necessariamente verbos que admitem complementos frásicos e que denotam uma atitude proposicional. Os dados de corpora (cf. anexos 1 e 2) mostram que é possível encontrar estruturas (des)conformativas com predicados semanticamente distintos: declarativos ou denotadores de estados ou processos psicológicos – um conjunto que reúne predicados factivos e não factivos, e com especificidades semânticas que justifi- cam considerar-se que as duas proposições relacionadas têm propriedades semânticas e ontológicas distintas.

Assumo, seguindo Kiparsky e Kiparsky (1970) ou Kartunnen (1971), a definição de predicado factivo como um predicado cuja proposição complemento é sempre dada como verdadeira, independentemente de ser ou não negada, ou da força ilocutória da frase em que surge (assertiva, interrogativa, exclamativa, etc.), num esquema lógico e inferencial como V(p) → p ˄ ¬V(p) → p, estando V para o verbo matriz e p para a sua

48

proposição complemento. Ou seja, são verbos factivos aqueles cuja proposição com- plemento denota, mais do que um evento, um facto. Isto significa que, quando se usam verbos deste tipo em estruturas (des)conformativas, a sua proposição complemento denota um conjunto de mundos ou situações possíveis do qual faz necessariamente parte o mundo real. Trata-se de verbos como apurar, compreender, descobrir, esquecer, lamentar, mostrar, reconhecer, saber, testemunhar, ver, verificar entre muitos outros. Vejam-se alguns exemplos de corpora com este tipo de verbos:

(153) «Ao lado da condutora viajava, conforme Manuel descobriu logo a seguir, um delegado do Ministério Público (…).» (CETEMPúblico, par=ext1212361-

soc-96a-1)

(154) «John Lennon, como se sabe, cultivou com especial talento, além da música, o jeito para irritar largos sectores.» (CETEMPúblico, par=ext604298-soc-95b-1)

(155) «Segundo testemunhou ao Público uma pessoa, as estruturas de todo o restaurante ficaram também bastante danificadas.» (CETEMPúblico,

par=ext244498-soc-98b-3)

A pressuposição da verdade do complemento de um verbo factivo exige que o mundo real esteja contido no conjunto de mundos possíveis acessíveis ao sujeito da ati- tude proposicional de descobrir, saber, testemunhar e afins, o que implica, numa análi- se possível, que haja uma interseção entre a denotação do complemento do verbo e a da proposição matriz. Isto parece estar na origem da anomalia semântica de construções desconformativas com este tipo de verbos, já que, como afirmei anteriormente, as duas proposições relacionadas numa desconformativa não podem denotar a mesma situação. Com efeito, construções como as de (156) – com saber ou apurar – são muito estra- nhas, ou mesmo agramaticais:

(156) a. *Ao contrário do que sei, o Pedro chegou tarde.

b. *Contrariamente ao que apurei, o presidente demitiu-se.

Já os verbos declarativos, do tipo de dizer, ou os denotadores de estados psicoló- gicos, como prever ou esperar, não são verbos indutores de pressuposição, não impli- cando que seja assumida como verdadeira a proposição complemento. Trata-se de ver- bos não factivos ou de verbos “criadores de mundos possíveis” (Lopes 1990), plena- mente aceites em desconformativas (cf. o Pedro chegou tarde, ao contrário do que eu disse; ao contrário do que esperava, o Pedro chegou tarde), em oposição ao que acon- tece com os verbos de (156). Vejamo-los em mais pormenor.

No caso dos verbos denotadores de estados psicológicos e criadores de mun- dos possíveis, tais como acreditar, calcular, esperar, imaginar, pensar, prever, sonhar, supor, suspeitar, pressentir, ou outros, assume-se que a proposição completiva (implíci- ta) denota um conjunto de situações (ou mundos) doxasticamente acessíveis ao sujeito da atitude em causa, ou seja, que denotam previsões, sonhos, promessas, etc., e não necessariamente factos. De facto, não parece possível ou razoável que alguém preveja um facto, dado já como verdadeiro, mas apenas um evento enquanto possibilidade.

49 Assim, a (des)conformidade relaciona duas proposições com propriedades semântico- ontológicas distintas: a matriz denota um facto do mundo real26 e a adjunta entidades mais abstratas como previsões, crenças ou sonhos. Vejam-se alguns exemplos de corpo- ra com este tipo de verbos:

(157) «Os EUA foram o melhor país, como se esperava.» (CETEMPúblico,

par=ext26666-des-93b-1)

(158) «Se, como pensava Schopenhauer, todas as artes aspiram à condição da música, então a sétima estava, desde logo, em óptima posição para o fazer.» (CETEMPúblico, par=ext1547621-clt-91a-2)

(159) «Numa divisão paralela, separada desta originalmente por um postigo, congregavam-se, segundo se presume, os membros do sexo feminino (…).» (CETEMPúblico, par=ext957959-soc-94a-2)

Quanto aos verbos declarativos – e.g. afirmar, anunciar, avisar, concluir, des- crever, dizer, explicar, pregar, perguntar, propor, referir, responder, sugerir –, estes, como já afirmei, também não são factivos, não implicando a verdade da proposição complemento. Assumindo que se verificam corretamente as condições de sinceridade necessárias para que uma conversação se desenrole sem anomalias pragmáticas e/ou semânticas, dizer p implica que o sujeito da afirmação assume como verdadeira a pro- posição p, mas ele pode, por exemplo, estar enganado, pelo que as afirmações não são entendidas como factos do mundo real. Os complementos destes verbos não têm exata- mente o mesmo valor dos anteriores, já que envolvem uma atitude proposicional dife- rente, que neste caso se traduz num processo enunciativo.

(160) «Para a presidência, conforme anunciou o Público, sobe Amaro de Matos (…).» (CETEMPúblico, par=ext73650-eco-92a-3)

(161) «Contrariamente ao que pregam os apóstolos da catástrofe, duas décadas de experiência democrática serviram para robustecer a capacida- de de atracção da instituição parlamentar (…).» (CETEMPúblico,

par=ext1241179-pol-95b-2)

(162) «As medidas, que o ministro não pretende divulgar antes de conseguir um acordo com a Comissão, destinam-se, segundo o que afirmou, a “salvaguardar o interesse dos consumidores (…)”.» (CETEMPúblico, par=ext15469-soc-98b-1)

Importa ainda ter em conta ocorrências, que já anteriormente observei, de predi- cadores nominais em adjuntas (des)conformativas. Sintomaticamente, os nomes uti- lizados também remetem para atitudes proposicionais (comparáveis com as dos verbos que ocorrem nestas estruturas) e também aceitam complementos frásicos. Exemplos são

26

Como já afirmei, excetuam-se os casos de frases modalizadas por expressões como oxalá ou talvez – e.g. {oxalá/talvez} o Pedro chegue tarde, como se previa – em que a matriz denota também uma situação possível e não factual.

50

decisão, resolução, intenção, previsão, estimativa, tentativa, opinião, plano ou rumor, entre muitos outros.

(163) «A British Airways anunciou já que operará para Orly, em consonância com uma decisão da Comissão Europeia, que deu razão às suas preten- sões.» (CETEMPúblico, par=ext1274769-eco-94a-3)

(164) «Contrariamente às anteriores estimativas, o número de pessoas infec- tadas pelo vírus HIV nos países industrializados parece estar a decres- cer.» (CETEMPúblico, par=ext1354141-soc-91a-3)

A proximidade destes predicadores com os verbos correspondentes resulta em estruturas argumentais semelhantes: a proposição complemento de nomes como previ- são ou expectativa (não factivos) denotará um conjunto de mundos possíveis acessíveis à entidade relevante (cf. em conformidade com as expectativas da rainha, o rei organi- zou um baile sumptuoso),e a de nomes factivos como descoberta será assumida como verdadeira, identificando uma situação do mundo real (cf. de acordo com uma desco- berta científica recente, existe um novo planeta no sistema solar).

Esta análise dos tipos de predicados e respetivas proposições completivas é inte- ressante porque corrobora a ideia de Lopes (1990) de que a (des)conformidade se esta- belece entre proposições de naturezas diferentes, já que o predicado da adjunta remete sempre para uma proposição resultado de um processo cognitivo de um sujeito, e não para um facto do mundo. Justifica-se, assim, a ideia de que a informação dada por uma frase conformativa é a confirmação de que a situação possível denotada por uma previ- são ou por uma afirmação se concretiza nos factos do mundo real, ou de que uma des- conformativa informa que essa concretização não se verifica.

3.3.2.3. A (des)conformidade como uma relação retórica ou uma conexão inter-

Dans le document Producteurs d'images (Page 53-63)

Documents relatifs