méthode d’étude
B) TRAITEMENT A VISEE CURATIVE :
3) Technique de la gastrectomie totale élargie :
A marca do escritor não é mais do que a singularidade de sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto da escrita.
Michel Foucault
A letra que mata também faz nascer. Eis um conforto aos que lamentam o golpe da escrita contemporânea contra a inventividade do indivíduo, tão cara a certos positivismos.
Ao postular que “a literatura é uma perpétua ausência” (FOUCAULT, 2001b, p.143) e que “o paradoxo da obra reside no fato de só ser literatura no exato momento de seu começo, na página em branco que permanece em branco, quando nada ainda foi escrito na superfície” (idem, p.142), Foucault sinaliza para a relação indissociável entre a experiência moderna da literatura e a morte. Da mesma forma, reconhece no apagamento do autor o princípio mais fundamental da escrita contemporânea. Isso porque, segundo Foucault (op. cit.,
p. 52), “a partir do século XIX, deixa-se de prestar atenção à palavra primeira e, em seu lugar, se ouve o infinito do murmúrio, o amontoamento das palavras já ditas”. Nesse movimento, Foucault rompe com a noção de autor estabelecida em princípios de inventividade subjetiva e originalidade. Propõe que, em detrimento desta noção de autoria, as análises das diversas manifestações discursivas que se inscrevem no campo literário passem a focalizar a função no interior da qual algo como um “autor” poderia existir. Em suma, “convida a uma investigação retrospectiva na qual a história das condições de produção, de disseminação e de apropriação dos textos tem uma pertinência particular” (CHARTIER, 1994, p. 38).
Se é certa a morte do autor34 e se “a escritura é a destruição de toda voz, de toda origem” (BARTHES, 1988, p. 57), também é fato que o jogo da linguagem dá lugar a um sujeito da escrita, imune ao poder mortal da letra. Esse sujeito da escrita literária, que, segundo Foucault (2001b, p. 279), se institui no espaço de cisão entre o escritor real e o locutor fictício, não só resiste à ação letal da escrita, como se constitui a partir dela. Concebida como uma construção do próprio discurso, essa função-sujeito35 afasta-se da noção de autor – estabelecido como fundamento originário e individualidade que fundamenta a autenticidade da obra. Surge sob o signo da dispersão e pela reafirmação de que:
na escrita, não se trata da manifestação ou da exaltação do gesto de escrever; não se trata da amarração de um sujeito em uma linguagem: trata-se da abertura de um espaço onde o sujeito que escreve não pára de desaparecer. (Foucault, 2001b, p.268)
34 “A escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo pelo qual foge o nosso sujeito, o branco-e-preto em
que vem se perder toda identidade, a começar pela do corpo que escreve. (...) desde que um fato é contado para fins intransitivos, e não para agir diretamente sobre o real, isto é, finalmente, fora de qualquer função que não seja o exercício do símbolo, produz-se esse desligamento, a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escritura começa”. (BARTHES, 1988, p. 57-58)
35 Na conferência O que é um autor?(In: Ditos e Escritos, vol. III, p. 287), Foucault propõe uma análise que
retire do sujeito seu papel de fundamento originário em relação à obra e que o considere uma função variável e complexa do discurso. Nesse sentido, Foucault desenvolve a noção de função-autor, que seria apenas uma das especificações possíveis da função-sujeito.
No texto O que é um autor? [1969 (2001b)], Michel Foucault discute esta temática recorrente na crítica e na produção literária contemporâneas: o desaparecimento do autor em proveito das formas próprias ao discurso. Reiterando a tese de que o desaparecimento do sujeito-indivíduo é uma regra imanente à escrita, Foucault (2001b) desestabiliza a concepção de autoria como “expressão de uma individualidade que permite a identificação da obra como invenção individual, criação original”. Nesse sentido, postula uma análise do que o desaparecimento do autor permite descobrir. Ou seja, Foucault busca refletir sobre a maneira pela qual se exerce o jogo de uma função-autor, constituída, historicamente, a partir da cultura européia do século XVII, como um dispositivo de controle da circulação dos textos. Segundo Foucault (2001b, p. 271):
o que seria preciso fazer é localizar o espaço deixado vago pela desaparição do autor, seguir atentamente a repartição das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz aparecer.
Como se vê, o olhar de Foucault sobre o apagamento do autor não se contenta com a mera reafirmação deste princípio. Em busca de uma análise das relações entre a linguagem e a morte36, Foucault (2001b, p. 286) acrescenta à constatação do desaparecimento do autor a identificação de um estatuto de fala em que “os modos de circulação, de valorização, de disseminação, de atribuição dos discursos variam de acordo com cada cultura e se modificam
36 De acordo com Revel (2005), ao longo dos anos 1960, Foucault foi levado, sob uma influência blanchotiana
particular, e à margem dos grandes livros, a se deter sobre um certo número de casos literários que possuem todos um parentesco com a loucura ou com a morte. Nesse momento, “Foucault comentará, então, Hölderlin e Nerval, Roussel e Artaud, Flaubert e Klossowski, e até mesmo alguns escritores próximos do grupo Tel Quel, sublinhando-lhes o valor exemplar: ‘A linguagem, então, tomou sua estatura soberana: ela surge como vinda de alhures, de lá onde ninguém fala; mas só existe obra se, remontando seu próprio discurso, ela fala na direção dessa ausência’“ (REVEL, 2005, p.25).
no interior de cada uma”. Considerando, pois, que a função-autor atua de tal forma que dá lugar a uma dispersão de “egos” simultâneos e a diferentes posições-sujeito que classes diferentes de indivíduos podem vir a ocupar no discurso, Foucault propõe que as análises discursivas coloquem as seguintes questões: “Como, segundo que condições e sob que formas alguma coisa como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar ele pode ocupar em cada tipo de discurso, que funções exercer, e obedecendo a que regras?”.
A partir de tais questões, e da postulação foucaultiana de que “a função-autor é característica do modo de existência, circulação e de funcionamento dos discursos no interior de uma sociedade” (2001b, p. 274), este estudo pretende analisar o jogo de dispersões dado a saber pela função-autor na obra37 literária Vintém de Cobre: Meias confissões de Aninha, de Cora Coralina. Busca, no espaço desta função-sujeito, e na relação dos discursos com outros textos, com suas condições de produção e com sua exterioridade constitutiva (memória discursiva e interdiscurso), refletir sobre as condições e as formas sob as quais um efeito de subjetividade pode se constituir na ordem do discurso.
3.4 Considerações finais
A análise do discurso literário exige que se considere a articulação de dois aspectos, aparentemente incompatíveis, que nortearam as reflexões deste capítulo, a saber: a passagem do plano da obra ao plano do discurso e as implicações do literário para a análise discursiva de objetos esteticamente constituídos.
37 A exemplo de De Certeau (2002, p. 51), que desliza da análise da tradição e do vestígio para o exame do
recorte e do limite nos estudos históricos, a AD ressignifica a obra como unidade de análise. Sobre isso, Foucault (2000a, p. 90) afirma: “a obra não pode ser considerada como uma unidade de análise imediata, como uma unidade certa, nem como uma unidade homogênea”.
À primeira vista, a inscrição desta pesquisa na ordem do discurso sugere um conseqüente desinteresse pelas propriedades estéticas do objeto em questão. Todavia, embora as propriedades estéticas do objeto não constituam, em si mesmas, o fim derradeiro de uma análise de natureza discursiva, como a que aqui se desenvolve, há que se considerar a sua participação na construção dos efeitos de sentido do discurso. Dessa forma, o movimento de interpretação dos efeitos de sentido que constroem o sujeito na materialidade discursiva problematizada neste estudo passa pela consideração – via gênero de discurso – de certas particularidades estéticas constitutivas dessa materialidade. Entretanto, como já se enunciou, nesse movimento de análise discursiva de um objeto literário, tais particularidades integram- se ao propósito central desta investigação, que busca compreender a construção discursiva do sujeito na imbricação da materialidade lingüística com as condições de produção da enunciação memorialista em Vintém de Cobre.
No encalço das condições de produção do sujeito e da enunciação memorialista de Vintém de Cobre, este trabalho passa, então, ao seu quarto capítulo, que trata das diferentes dimensões da exterioridade constitutiva do dizer e do sujeito neste corpus, a saber: o plano estético, o interdiscurso e a cenografia goiana do século XX.