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Technique d’analyse et de quantifications

Dans le document HARMONISATION OFFRE DE FORMATION MASTER (Page 26-34)

Grupos étnicos Região País Airo Pai

Alto Rio Negro Uaupés Brasil e Colômbia Tucano Desana Barasana Cubeo Makuna TABELA 1 Grupos indígenas consumidores da ayahuasca no Acre

Tronco Linguístico Grupos étnicos Região País Aruak Asheninka Acre Brasil Manchineri Apurinã Araua Madijá Huni Kuin Yaminawa Yawanawa Nukini Puyanawa

81 Pano Nawa Kuntanawa Shawadawa (Arara) Shanenawa Noke Koî Apolima Arara TABELA 2 Consumidores de ayahuasca dafamília lingüística Quéchua

Grupos étnicos Região País

Ingano Vale Sibundoy Colômbia Cofan Rio Putumayo

San Miguel Bolívia e Peru Equador Callawaya Cayapa Equador Colorado Cofane Canelo Secoya Jiona Teentete Auca

O uso indígena é bastante amplo e variado, mas há um tema comum na experiência com a ayahuasca nesse âmbito que é o tema da transformação em animal. Durante um ritual com a bebida a pessoa que a ingere pode experiênciar uma auto-transformação num animal, a onça e a jibóia são os mais comuns, e a partir do olhar desse animal perceber a realidade por um viés único. Entre os Huni Kuin no Acre o encontro com uma jibóia é repleto de significados, se uma pessoa que se encontra com a cobra e passa a sentir calafrios ou a visão turva, significa que o animal deseja compartilhar com ela algum conhecimento. A ingestão da ayahuasca facilita o encontro e o aprendizado com a cobra. Algo semelhante acontece entre os Yawanawa, para os quais é a sucuri que ensina o futuro pajé a rezar e falar corretamente as fórmulas de cura (MARTINI 2014a, 2014b).

A ayahuasca indígena é amplamente reconhecida como uma fonte de saber e de comunicação com os seres das diferentes dimensões, ou ainda com seres da dimensão terrena

82 que se encontram distantes fisicamente. A bebida é considerada um meio de comunicação independente em relação aos meios criados pelo homem branco, como a televisão, o telefone, o avião e etc... Por fim, é importante denotar que o uso da ayahuasca entre os indígenas raramente ocorre de forma isolada considerando a farmacopéia amazônica desenvolvida por essa população, entre os Huni Kuin, os Yawanawa e os Yaminawa, por exemplo, é comum o uso da ayahuasca associado a outras substâncias como o tabaco inalado (rapé), o caldo de tabaco, da pimenta e da“vacina do sapo” ou kampõ, em línguas Pano; quer dizer a aplicação subcutânea da secreção doPhilomedusa bicolor.

Outro aspecto que define a fisionomia do fenômeno do uso ritual da ayahuasca corresponde à intensa circulação de saberes e experiências envolvendo a bebida. Não há um sentido único nessa dinâmica e nem uma hierarquização estrita, assim o branco pode aprender com o índio e o índio pode aprender com o branco. Os Apurinã, por exemplo, teriam adotado o uso ritual da ayahuascaatravés das trocas realizadas com a comunidade do Santo Daime sediadano município de Pauini AM. Esta dinâmica estende-se às populações ribeirinhas, seringueiros e até visitantes estrangeiros que viajam à Amazônia hoje em dia com o intuito de passar por uma experiência com a ayahuasca ou para aprender a usar a bebida. Em todo caso, como frisou Martini (2014a e 2014b) entre todos os grupos que fazem uso ritual da ayahuasca existe um consenso sobre a necessidade de certa preparação para a participação e ainda mais para a direção de uma cerimônia com a bebida. Tal preparação diz respeito à restrições alimenatares, sexuais, abluções e administração de plantas complementares.

De acordo com a autora, o uso ritual e religioso, ou ainda cotidiano, da ayahuasca compreende uma ampla teia de saberes. O uso globalizado convive assim, com o uso terapêutico, o uso ritualístico e religioso e o uso pouco afeito à orientação doutrinária, que a autora chama de uso autônomo. Este é um tipo de uso feito em grupo dirigido por um especialista que não se guia por dogmas religiosos e que é freqüente entre os trabalhadores das áreas florestais do Acre.

Os seringueiros da Reserva Extrativista Alto Juruá, sobretudo, os homens e sempre de maneira bastante discreta, consomem ayahuasca em pequenas reuniões realizadas em ambientes separados dentro de suas próprias casas e num sistema de revezamento entre os membros do grupo. A decocção é preparada anteriormente por algum membro mais experiente ou alguém reconhecido por sua habilidade em escolher a matéria prima e conduzir a decocção ao fogo, sempre entoando canções de teor religioso ou considerado positivo e benéfico, o feitor também deverá ter concentração e bons pensamentos. Durante o encontro

83 em que se consome ayahuasca, a música é o elemento mais importante depois da bebida e é comum que um dos participantes toque violão enquanto a sessão ocorre, mas nos casos em que não há músico presente é usado um aparelho de som (FRANCO & CONCEIÇÃO 2009).

Vejamos um pequeno trecho de um depoimento sobre essa forma de uso:

A partir de 1990, foi na época que a gente já estava com começo de criação da Reserva [...] funcionava também o Conselho Nacional dos Seringueiros, e fizeram uma proposta para o Milton Nascimento vir até aqui para conhecer os seringueiros, conhecer os pessoal Ashaninka do rio Amônia [...] e me parece que nesta viagem eu já ia guiado por Deus. Foi aonde eu fui me encontrar com o pajé Antonio Pianko [...] na época eu estava em outra vida: bebida muita bebida alcoólica, não tinha a mínima idéia do que eu queria ser [...] E à noite o Antonio Pianko convidou para tomar a bebida kamarãpi, como eles falam, e eu também tive a oportunidade de ser convidado. Foi aonde eu comecei a ver como é a vida espiritual. [...] Eles falaram que essa bebida a gente tinha que beber com quem já tivesse um bom conhecimento com ela, tivesse costume de beber. Então foi nesse sentido que eu também fiquei muito satisfeito, sabendo que essas coisas não eram a toa, que era uma coisa que tinha que ter respeito, segurança mesmo. [...] Dei uma mudança de vida muito grande, passei a ser mais obediente, passei a respeitar o ser Divino, todos os seres que habitam na terra e que precisam ser respeitados igualmente a mim [...] (FRANCO & CONCEIÇÃO 2009: 222-224).

O relato acima revela o intercambio entre o saber indígena sobre a ayahuasca e o seringueiro Osmildo S. da Conceição, que acaba desenvolvendo o uso autônomo da bebida, mas sem perder a conexão com o conhecimento que lhe foi transferido.

O Santo Daime de Mestre Irineu e de Padrinho Sebastião.

A religião criada pelo maranhense Raimundo Irineu Serra na década de 1930 no Acre,o Santo Daime, é uma religião essencialmente cristã e indígena. Sobre esta base, absorve influencias variadas, dentre as quais se destaca a do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento. O CECP é uma ordem esotérica portuguesa que chegou ao Brasil no inicio do séc. XX e que desenvolve estudos de astrologia, psiquismo humano, magnetismo, clarividência e psicometria. Conta o mito de fundação dessa religião, que após uma primeira experiência com a ingestão da ayahuasca por meio de índios da Amazônia peruana, Irineu recebeu instruções para fundar uma nova doutrina a partir de “mirações”, nome dado aos efeitos visuais provocados pela ingestão da ayahuasca.

Numa de suas primeiras mirações Irineu avistou uma águia pousada na lua e desse oráculo deduziu que o astro luminoso era sua guia, águia significa a guia. Decifrando esse enigma então, uma belíssima senhora lhe aparece saindo da lua e se apresenta como sua guia,

84 essa deusa é a Rainha da Floresta, depois sincretizada como Nossa Senhora da Conceição. Após a sua experiência iniciática Irineu passou a “receber” mediunicamente os hinos de louvorque formaram o seu hinário intituladoO cruzeiro, considerado a principal fonte de ensinamentos doutrinários da religião, e que seriam cantados durante os rituais após a ingestão do Daime.

O momento de ingestão do Daime é chamado de “despacho” e pode ocorrer mais de uma vez num mesmo ritual, os hinos são executados em instrumentos musicais e cantados pelos participantes que memorizaram as letras e melodias ou as acompanham através de pequenas encadernações. Os rituais são chamados de trabalhos,devido à ascese necessária para o seu cumprimento. Segundo MacRae (1992: 97), a ordem exigida no culto daimista pressupõe atividade psíquica e física, por vezes exaustiva.

Os participantes iniciados na religião, ou seja, os fardados, usam dois tipos de uniforme, a farda azul e a farda branca. Esta última é uma vestimenta mais fina e repleta de simbolismos, como o uso de um broche no formato de uma estrela de Salomão com o desenho de uma lua e uma águia no centro. Os trabalhos de cura e de concentração são realizados com a farda azul e geralmente os participantes ficam sentados. Nos trabalhos de bailado, realizados em homenagem aos santos católicos e demais datas importantes como a do nascimento de Mestre Irineu, os participantes divididos entre os batalhões feminino e masculino se movimentam compassadamente segundo três tipos de ritmos, a valsa, a mazurca e a marcha.

A consagração da ayahuasca nos rituais promove a comunhão divina a partir da qual se absorve o conteúdo moral presente nos hinos. A aprendizagem pela via divina e revelatória que a ayahuasca engendra, segundo os fiéis, leva à cura do espírito e do corpo. Seguindo a idéia do “principio da técnica corporal” elaborado por Marcel Mauss, Cemim (2009: 353) apresenta uma interessante interpretação sobre a mobilização da técnica no bojo da religião do Santo Daime. Segundo a autora, a técnica corporal daimista é aplicada ao “corpo vegetal”, decocção, e ao “corpo do adepto”, a fim de transformá-los em corpos divinais. As orientações para a execução do bailado e concentração no conteúdo dos hinos informam “técnicas do movimento”, as orientações para a limpeza dos vegetais que compõe a bebida, para a abstinência sexual e a limpeza corporal informam “técnicas de cuidados corporais”, comer comidas leves, não beber bebidas alcoólicas informam “técnicas do consumo”, e assim por diante. Trata-se de uma educação dos movimentos que torna possível o convívio mais ou menos harmônico entre os fiéis e entre a comunidade religiosa e a sociedade.

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FIGURA

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