sentiu quando recebeu o diagnóstico?
R – Não, até assim... não foi tão assustador porque o amigo do meu esposo conversou muito com a gente, sabe? Aí na hora que ele falou assim – “ele vai ter que tomar um remédio”... Meu Deus do céu, mas o Vinícius é tão novinho pra tomar um antidepressivo, eu fiquei tão agoniada daquilo, de ta vendo ele ter que tomar um remédio...sabe, o mais
velho eu não tive nada disso...então pra mim foi tudo novo... eu entrei em tanto desespero que eu falei: “- filho, vamos sentar ali?” Peguei caderninho, fui tentando ensinar, eu mesmo, lá em casa...porque ele me ouve muito, então comigo ele aprende até um pouquinho...tem hora que a Lírio do Vale passa eu chego lá e “Vinícius, sabe essa letrinha aqui é a letrinha do nome do papai, vamo fazer?...” Então lá em casa eu tenho mais tempo pra conversar com ele, a Lírio do Vale aqui não tem tanto tempo, né? É tanto menino, né? Ele entrando de férias, eu vou dibuiar esses livros com ele brincando aqui em casa... pra mim tentar...eu preciso fazer alguma coisa...eu, independente de tratamento, eu sou mãe dele. Como mãe a pessoa que ele mais confia sou eu, se eu conseguir ao menos um grãozinho pra ajudar ele... mas assim, minha vida tá muito corrida, as meninas aqui tudo sabem... eu to com 6 meses de cirurgia bariátrica, e nem consegui fazer meus exames. Aí tem correria com o outro, correria com o Vinícius, ainda junta que meu marido esses dias bateu o carro... então é muita coisinha... mas deixa ele entrar de férias que eu vou brincar com ele...ontem mesmo a gente comprou uma bolacha e ele perguntou se podia ler...- “deve! Vamos lá, senta aqui, vamos ler, pensa mais um pouquinho que você da conta”...ele conseguiu ler 3 palavrinhas do pacote... mas ele emburra muito... naquele negócio de ele não acompanhar os coleguinhas de sala ele emburra, se isola, chora... barulho, ele não gosta...irrita ele...-“mãe, hoje fiquei muito irritado, os meninos grita demais”.
P – Como é o comportamento dele com relação a barulho fora da escola?
R – O Vinícius é muito comunicativo... ele é assim, como eu falo, ele brinca muito...ele coreta o irmão dele, brinca com o pai dele...ele gosta muito de carro, hoje mesmo a gente tava saindo e ele disse que queria tirar carteira, queria dirigir, pegar no volante...mas o Vinícius é muito tranquilo...lá em casa, a gente é muito tranquilo, não tem muito barulho, muita agitação.
P – E quando ele está com outras crianças, de outros contextos?
R – Tranquilo... ele comunica, brinca, conversa...quer contar a vida dele...conta o que tá acontecendo lá em casa (risos), ele conta da música...chega em casa e ele quer tocar a flauta pro pai dele ver...barulho de música não incomoda ele, mas gritar irrita ele ...não sei se é do problema dele ou se é dele mesmo, sabe?
P – Então o Dr. Alessandro foi o primeiro médico que fez uma avaliação diagnóstica
nele?
P – E você se sentiu confortável, confiante, como mãe, como quem participou desse
processo?
R – Eu conversei, ele conversou com ele batendo papo... ele vai conversando comigo e com ele e fica observando ele, o tempo inteiro. Aí ele conversa, fica observando as histórias do Vinícius, e diz: - “ele ta viajando ainda, né?”, é, ele dá umas viajada... mas ele melhorou bastante a comunicação dele...ele não tinha muito assim...igual se brincasse com uma priminha e ela falasse alguma coisa que ele não gosta, ele corria e já escondia embaixo das cobertas, nervos, sabe... hoje ele não tem isso mais...ela brinca, ela coreta ele e ele coreta ela... (risos).
P– E qual foi a justificativa do Dr. Alessandro pra não entrar com a Ritalina, que é
o remédio mais usado quando os médicos querem tratar o TDAH, e sim com o Tofranil?
R – Ele perguntou, né? Como ele tava, eu falei como ele tava, do desenvolvimento dele, aí ele falou pra eu voltar daqui 3 meses de novo. Então ele tá indo por etapas pra ver, ele falou que ainda não tem necessidade, como ele já ta desenvolvendo bem, ele ainda não vai entrar. Ele tinha falado, numa consulta antes dessa, que provavelmente ele já taria entrando com a Ritalina... aí como ele viu ele, conversou com ele, ele disse que ia ficar só com o Tofranil, e que ia tomar ele até os 9 anos.
P – Ele está com 8 completos?
R – É, e daqui 3 meses ele tem outro retorno. Aí como ele me perguntou se eu já tava fazendo os acompanhamentos, eu falei que não... que não tinha dado pra ir.
P – E depois desse susto, da agonia de pensar “meu filho tão novinho ter que tomar
remédio”, como você tá hoje com relação a isso?
R – Agora eu tô tranquila... como eu vi que não tem jeito mesmo, ele tem que fazer o tratamento, ele tem que ter o incentivo...eu começo a ler o que é...apesar que meu tempo não ta dando muito...eu fiz minha cirurgia numa hora que achava que ia ter sossego pra recuperar, aí vem Vinícius, vem mãe, vem pai, vem cunhada, vem reforma, vem tudo de uma vez...ah, e uma outra pessoa que me ajudou muito, que até falou pra eu procurar o neuro, foi a psicóloga da bariátrica...teve um dia que o Vinícius tava muito agitado, muito nervoso, não queria vir pra escola...e eu pareço que pego as dor deles...cheguei na segunda consulta com a psicóloga da bariátrica, eu já tava com o olho vermelho de tanto chorar, aí eu fui conversando com ela, e ela falou que a primeira coisa que eu deveria fazer era levar ele num neuro. E eu como mãe quero ver meu filho bem, quero que ele
estuda, quero que ela faça uma faculdade...e ele não foge disso não...ele fala que quer ser bombeiro e professor de educação física, desde pequenininho.
P – E ele justifica o porquê?
R – As brincadeiras dele é bombeiro, ele gosta de carro, e professora de educação física eu acho que puxou um pouco da mãe, né? Eu quase formei... eu tranquei a faculdade porque eu engravidei do meu mais velho, aí eu parei minha vida pra cuidar deles... não arrependo disso em hora nenhuma na vida...
P – Quando a gente vai num médico, recebe alguma notícia de uma coisa ou outra,
muitas vezes a gente pensa em buscar uma segunda opinião. Você pensou em buscar uma segunda opinião nesse caso com o Vinícius?
R – Não... não pensei, eu nem pensava nem nesse...que dirá numa segunda...
P – Pois é, não pensava nem nessa, e como é que... você conhece seu filho melhor que
qualquer outra pessoa... quando você me disse que percebeu que ele sempre foi diferente, o que é esse “diferente”?
R – Ele é um menino ... assim, igual o André... o André é um menino muito comunicativo, conversa pelos cotovelos, é mais fácil de mexer com ele...o Vinícius não, é mais fechado, mais caladão, mais quietão...dependendo do jeito que eu chegasse nele ele já brigava...daquele tamanho e já me enfrentava. Ai a gente tava em reunião de família... ele fica quietinho...ele nunca deu trabalho, mexendo nas coisas...ele é sempre quietão...e todo mundo falava que ele era igual o pai... aí sabe quando você pensa que isso é a personalidade dele, é o jeito dele...então eu nunca preocupei que fosse uma coisa... ele vai crescendo, desenvolvendo...ele vai mudando...nunca pensei que fosse uma coisa assim, que tivesse atrapalhando ele. Eu preocupei porque ele ficava no tablete muito tempo... pensei que esse tablete tava estragando ele, tirando a atenção dele, mas aí pensei – “isso aí acelera o pensamento, então ele tem que raciocinar, até porque esses joguinhos são muito rápidos, como que ele consegue? Fazer tudo isso com um tablete, e não conseguir aprender na escola?”, aí eu resolvi tirar um pouco isso dele, aí eu comecei a dar hora pra mexer... ele reclamava que não dava conta de estudar, eu disse que ia ajudar...ele – “ah tia não gosta de mim”, Gosta ....antes de mudar de turma... “ah, mas os meninos grita”, aí eu fui ficando preocupada mesmo... mas o pior era o aprendizado mesmo na escola...não reconhecia as letra, não formava as letra...minha sobrinha é dois meses mais nova que o Vinícius e ela lê tudo. Mas aí cê pensa que cada um tem um tempo, o André foi diferente... e você fica sem achar que é alguma coisa mesmo, grave, até você chegar num...então eu to fazendo assim, vou fazendo o que o Dr. tá falando, se eu chegar
num determinado ponto e eu ver que não é assim, eu procurou outro rumo, eu to prestando atenção no Vinícius 24h...
P – Você percebeu algum efeito colateral do uso do remédio?
R – Que eu percebi não... assim, perceptível não...teve uma vez que ele ficou uns 4, 5 dias sem o remédio, e ele foi ficando assim, mais agitado, nervoso...porque não tá achando esse remédio pra comprar... tanto que o Dr. A. pediu pra comprar o de adulto e cortar ao meio. Então como ele vai tomar até os nove anos... essas coisas me preocupam um pouco...ficar tomando esse tipo de remédio tanto tempo...eu não concordo muito com isso não...mas ele mesmo fala: “mãe, tem que tomar meu remédio, né?”