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Thomas Poitelon et Vincent Geronimi

Encadré 2 Taux d’actualisation

proposto por madrinha Libânia em memória de sua irmã, denunciando-se assim e aparentemente a ausência de alguma intencionalidade que diga respeito à sua etimologia, Maria Clara conota, na sua natureza genuína, directa, sem artifícios — à semelhança da pureza e celebridade da personagem que estivera na origem do seu designador (a tia Clarinha) —, o que o étimo do prenome “Clara”1001 anuncia.

No que concerne a Angelina, esta representa um Ser eminentemente espiritual e benévolo: feições auguradas no étimo do prenome que a referencializa. Na verdade, atinge mesmo o puro misticismo quer quando lê o diário de tia Clarinha e procura pôr em prática os preceitos religioso-beatos aí expostos e, até, julga ver e conviver com o espírito da falecida tia; quer quando pratica especificamente a bondade, o carinho e afecto incondicionais para com a irmã viúva atormentada e inconsolável e para com o Pedro (Sarapintado) convalescente.

Esta personagem é várias vezes, principalmente no início da diegese, referencializada com o diminutivo do seu prenome, o truncamento do mesmo ou redobro silábico do truncamento — designadamente “Angelininha”1002, “Lina”1003 ou “Nini”1004 — de modo a

marcar o afecto que, na sua infância e pela sua pureza e bondade, por ela nutriam os seus familiares. Todavia, são os designadores “o meu Anjinho da Guarda”1005, “a minha

santinha”1006 e “a minha estrelinha do Norte”1007 que intensificam e substantificam a

significação do étimo do designador/prenome, embora alternado mas sempre vigente, “Angelina”1008: um mensageiro de Deus, um emissário da espiritualidade, do amor, da

fraternidade e da bondade que Ele representa.

Por fim, importa destacar a personagem predominantemente referencializada na diegese com um designador que denuncia inequivocamente a vertente colectiva e social artificiosa, mundana, frívola e irresponsável da personagem: o redobro silábico do truncamento do prenome “Lá-Lá”1009. Acresce que, a denunciar primeiramente estes traços,

esta personagem é referencializada, logo na sua juventude, devido à sua conduta socialmente tida como devassa e leviana, com a alcunha grafada em itálico «a maluca»1010:

1001 “Clara” deriva etimologicamente do adjectivo latino clarus, ae (Cf. José Pedro Machado, Op. Cit.,

vol. I, p. 422) e significa ‘claro, sonoro, brilhante, nítido, manifesto, ilustre, célebre, famoso, glorioso’, entre outros (Cf. F. Gaffiot, Op. Cit., p. 324 e AAVV, Dicionário de Latim Português, p. 237).

1002 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, pp. 21 e 178-179.

1003 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, pp. 29, 30 e 112; José Régio,

Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, pp. 179 e 242; José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III – Os Avisos do Destino, pp. 60 e 274-275 e José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, pp. 66 e 421.

1004 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, pp. 29 e 30 e José Régio, Obras

Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, pp. 31 e 178.

1005 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, p. 31. 1006 Cf. José Régio, Ibidem.

1007 Cf. José Régio, Ibidem.

1008 “Angelina” deriva de Ângelo que, por sua vez, procede etimologicamente do substantivo grego

γγελος, ου (Cf. “Ângelo”, em José Pedro Machado, Op. Cit., vol. I, p. 136) que significa ‘mensageiro,

legado, mensageiro de Deus e anjo’ (Cf. A. Bailly, Op. Cit., p. 8 e Isidro Pereira, Op. Cit., p.3).

1009 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 149, etc.

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“(…) Eulália tomava banho de maillot, um maillot tão sucinto quanto possível; passeava com rapazes, às vezes fora de horas; e muita gente a vira nos cafés, diante de um cálice de cor esquisita, o cigarro pendente do lábio pintado.”1011

Também algumas vezes referencializada pelo prenome composto “Maria Eulália”, representa, assim, na sua essência, uma personagem social e sociável que se movimenta com à-vontade em meios e estratos sociais de destaque. Todavia, neste à-vontade com que frequenta determinados locais e grupos aristocráticos, além de subjazer inequivocamente o facto de ser loquazmente agradável (conforme etimologicamente o sugere “Eulália”1012), está

também o facto de tal personagem ser amparada por uma madrinha socieconomicamente abastada e de ter origens sociais distintas que se evidenciam no uso dos apelidos (misteriosos) de solteira de sua mãe:

“Quando veraneava em casa de sua mãe, sobretudo no tempo de praia, Eulália frequentava o Casino de Vila do Conde. Era um Casino de alta gente bem! gente de sangue. Ora os apelidos que a mãe subsumira debaixo do banal Graça,  Eulália os propalara discretamente: o suficiente, porém, a poder frequentar sem favor nem humilhação tão aristocrático meio. Nesse meio acabara, até, por descobrir primos e primas com quem nunca sonhara. Aí chegara a fazer figura de princesa, nalgumas dessas festas a que pressurosamente concorriam, em grande

toillete, não só as melhores gentes da Póvoa de Varzim e todo o Norte, como de Espinho, da

Granja, das duas Fozes (do Douro e da Figueira) e até da capital e suas praias.”1013

Na verdade, indicia-se etimologicamente um Ser ficcional que tinha uma linguagem/uma atitude agradável pois que com ela não só granjeara um reconhecimento social na juventude, como a amizade das irmãs de Lèlito na sua infância. E, assim, apenas uma única vez se destaca o truncamento “Lali”1014, curiosamente desvelado pela própria

personagem, no sentido de aludir, deste modo, de forma terna à recordação de uma genuinidade individual que, no presente, se revelava camuflada pelo artifício do Ser social que Lá-Lá representava: “Convença-se, Lèlito, é um favor que me faz: nada tenho já com a Eulália de outrora… a Lali.”1015

3.1. A Singularidade de Duas “Rosas” em Duas Narrativas

Existem duas narrativas que apresentam respectivamente duas protagonistas cujo designador original e dominante — “Rosa” — manifesta uma vertente etimológica reflectora de alguma similaridade, em termos de caracteres e conduta nestas duas personagens

1011 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 40.

1012 “Eulália” deriva da junção do advérbio grego E ao substantivo grego λαλιά, ς (Cf. José Pedro

Machado, Op. Cit., vol. II, p. 604) que significa ‘que fala bem, loquaz, de linguagem agradável’ (Cf. A. Bailly, Op. Cit., pp. 1166-1167 e Isidro Pereira, Op. Cit., pp. 234 e 341). No Dicionário Etimológico Nova Fronteira, p. 338, estabelece-se o significado de ‘boa maneira de falar, boa dicção’.

1013 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 40.

1014 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, p. 133. 1015 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 140.

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