Outra forma de auxiliar esses alunos é por meio das aulas de reforço, sendo um apoio para que possam ter maior rendimento nas atividades e conteúdos, proporcionando-lhes maior aproveitamento e segurança, uma vez que eles chegam à aula com muito temor às consequências, caso não consigam uma boa nota. A monitoria sustenta e auxilia o professor, pois é na monitoria que será resgatado o que foi passado em sala.
O primeiro momento que experienciei a monitoria foi quando participei de um reforço ministrado pela Professora Anésia, que atendia Pedro, Salvador e Carlos28. Ela trouxe trapézios lúdicos, de modo que os alunos podiam brincar e fazer uso desse material para compreensão da atividade da aula anterior, na qual tiveram dificuldade, fazendo assim a revisão do conteúdo com algumas atividades que realizavam. Salvador mostrava entender o que lhe era ensinado e até auxiliava os colegas, que conversavam e interagiam o tempo todo, sempre com o olhar atento de Anésia que, a todo momento, mesmo diante de dúvidas mínimas, se mostrava prestativa. No final do reforço, Anésia pede que os alunos escrevam atrás da folha o que mais gostaram de fazer enquanto estiveram no reforço e o que aprenderam. O resultado foi que todos saíram do reforço tendo domínio e compreensão do que foi passado. Anésia relatou seu temor em trabalhar com esses alunos, até porque, para
28Um aluno que perpassa essa pesquisa, é colega de sala de Pedro. Outra consideração é que Carlos não tem deficiência.
ela, era algo novo, e foi “esse novo” que a fez buscar outros meios e a sempre estar levando algo diferente em cada reforço.
Porém, nessa caminhada percebi que os alunos estavam necessitando de alguém para auxiliá-los na disciplina de Física, pois a estagiária Suely não estava podendo se fazer presente na escola, me sentindo, então, desafiada a auxiliar esses alunos. Tal disciplina representava um medo, terror, desespero e angústia, os quais tinha de vencer, pois, além de não ter domínio da disciplina, ainda tinha que lidar com os traumas da minha trajetória escolar, marcada por professores que mais pareciam querer reprovar do que auxiliar, como bem fez Anésia com os alunos. Uma simples pergunta para esclarecer uma dúvida significava receber uma resposta irônica e ofensiva. Assim, foi na minha caminhada. O desafio estava posto. E agora, o que fazer? Foi necessário fazer uma retomada de conhecimentos e uma superação para auxiliar os alunos, quando marcamos o reforço que ocorreu na biblioteca.
O que dizer depois desse reforço? O sentimento que me tomou era inexplicável. Além da alegria de ver que os alunos compreenderam o que foi passado, eu consegui vencer a mim mesma, consegui romper barreiras que eu mesma desconhecia.
As aulas tomaram outras proporções, pois os alunos que ali estavam – no caso, Pedro e Carlos – comentaram com algumas alunas que apresentaram a mesma dificuldade. Por estar acompanhando o aluno Pedro, pois a estagiária Suely não estava na escola, pude ter um contato maior com os alunos e, assim, a todo momento, aproveitava para ajudá-los.
Com isso, pontuamos o trabalho da estagiária, cujo auxílio ao aluno com deficiência cognitiva 29ou que possua alguma outra deficiência que precise de um suporte ou um acompanhante é assaz importante. Pedro não abre mão da estagiária:
29 Mesmo alguns documentos usando o termo Deficiência Mental, nesse estudo faremos uso da terminologia Deficiência Intelectual, pois essa expressão passou a ser mundialmente utilizada em 1995, quando a ONU realizou o simpósio “Deficiência Intelectual: Programas, Políticas e Planejamento para o Futuro”, sendo aprovada em 2004 pela Organização Pan-Americana da Saúde e a OMS por meio do documento “Declaração de Montreal sobre Deficiência Intelectual” (SASSAKI, 2005, p. 9-10). Assim, esse termo é o mais apropriado por se referir ao funcionamento do intelecto
Eu quero assim, eu tô aqui e quero sempre alguém acompanhando, tendeu? Porque eu tenho minhas dificuldades. Por exemplo, haaa eu não
vou poder ir hoje, aí, tem que ter uma pessoa assim acompanhando.
Porque eu tenho minhas dificuldades que eu tenho desde pequeno.
A Psicóloga Nara relatou que quando a escola tomou ciência do ingresso dos alunos Salvador30 e Pedro, logo pensaram “como a gente vai atender esse aluno? Bom, vai precisar de ter alguém com ele na sala de aula”, pois esses alunos se dispersam muito rápido, se desconcentram, precisando de alguém para acompanhá-los.
Mas qual o papel desse profissional? O estágio é um tempo de formação crítico- reflexivo e investigação necessário na formação acadêmica do sujeito que poderá se aproximar com sua área futura de trabalho, com o confronto entre teoria e prática. Estabelecido pela LDB, o estágio em sala de aula possui duas vertentes: a observação e a regência. A primeira é pré-requisito mínimo dos programas de estágio e simples; já na segunda, o acadêmico ministrará aulas supervisionadas por um professor, de acordo com o planejamento curricular. Assim deveria ocorrer, mas não é bem assim. No contexto do Ifes, o estagiário não é aquele que “sempre dá as respostas” (Aluna Cristiane), mas aquele que auxilia o aluno a compreender a questão do livro/ quadro num processo de ensino-aprendizagem em que é levado em conta a formação desse futuro profissional e o compromisso da instituição com a própria educação. Nessa linha, a forma como a instituição de ensino faz uso do estágio diz muito sobre ela e sobre o seu compromisso com a educação.