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3. ANALYSE

3.3. Tarifs pour les obligations de service public

Entre outras possíveis demandas, percebe-se outro aspecto, já mencionado e que remete diretamente a esta pesquisa, que é a integração da colônia com a educação formal - tanto para aceitação dos cursos técnicos, oferecidos por entidades governamentais, para os pescadores (como beneficiamento do pescado, mecânica e manutenção de motor, navegação por GPS), quanto para crença e valorização da escola institucional, pois alegam que seus filhos não terão um futuro promissor fora da escola.

Assim, reproduzem um discurso ideológico que se pretende hegemonizar, de que a educação escolar é mais importante do que a aprendizagem e conhecimentos adquiridos na pesca de maneira habitual e informal. O ―ser pescador‖ é tido como uma inferioridade, uma negação ao seu próprio ofício, numa lógica determinista, já que não estudou, vai ser pescador. Observe a narrativa abaixo, quando indagada pelo pesquisador ―Porque ser pescador?‖.

―É.porque muitos aí... não tiveram a chance de estudar e pra conseguir hoje alguma coisa no mercado de trabalho aí tem que ter pelo menos um curso, um diploma, um estudo, pelo menos ensino médio, não é assim? E eles não têm, muitos deles a opção é o mar. Hoje mesmo... Do jeito que é a pesca do jeito que tá situação, eu estimularia ele a estudar... infelizmente a realidade mesmo é essa aí. Entendeu? Porque é muito difícil mesmo. A gente vê a situação... a luta, eu vejo a hora e digo: meu Deus do céu, até quando a gente

fica? A gente não tem certeza das coisas... até quando vai isso aí?‖ (Marisqueira, 50 anos – Colônia Z-9).

Este é o sentimento percebido nas entrevistas quanto às expectativas da pesca artesanal e a relação com a expectativa através da escola, os pescadores não querem deixar o trabalho da pesca como herança para seus filhos e netos. Entretanto, entendem e aceitam a escola como única possibilidade de uma vida mais digna e sem sacrifícios e riscos, como no trabalho da pesca artesanal.

Entretanto, faz-se necessário dizer que esta relação não é estanque, acabada, definitiva, pois existe um movimento que se tenciona de acordo com as articulações das demandas e suas narrativas. Esta é apenas uma de outras situações posto que, ao mesmo tempo em que a maioria se conforma, uma minoria também se rebela e causam potencialmente um antagonismo ao discurso dominante.

Na Colônia de Pescadores Z-9, a atual presidente possui uma liderança nata e foi indicada para eleição por vontade dos pescadores, conforme observado nas entrevistas, já que eles queriam uma mudança na antiga direção, que permanecia à frente da colônia há 23 anos, porém tal gestão não atendia às demandas dos pescadores. Os pescadores se articularam e formaram uma comissão eleitoral para destituir a antiga gestão. Com essa nova liderança, as relações entre os pescadores têm passado por modificações modernizantes dignas de nota.

Importante dizer que a liderança na colônia de pescadores não é uma prerrogativa do mestre pescador. Diferente do que se pensava, quando se trata de alguém com o reconhecimento de mestre. O mestre de barco, segundo a fala dos mais novos pescadores, nada mais é do que o pescador que assume a responsabilidade do comando da embarcação e que fica encarregado de prestar conta de tudo. Como vimos na seção anterior, este mestre possui uma riqueza de conhecimentos específicos da pesca artesanal, adquiridos pela experiência no mar. Entretanto, isso não faz dele um líder nem uma autoridade capaz de mobilizar a colônia em torno de um discurso de autoridade.

Mesmo não sendo, necessariamente, o mestre do barco uma liderança política da colônia, foi percebido, nas entrevistas realizadas, que este sujeito é o responsável pela transmissão dos saberes e das memórias da pesca artesanal. Portanto, deveria ser reconhecido pelos demais pescadores, principalmente entre os mais jovens com admiração e respeito. A perda do reconhecimento da autoridade dos mais velhos, pais e mestres é comum entre a nova geração de pescadores.

Neste sentido, observa-se que o respeito e admiração ao mestre, por exemplo, se perde na medida em que se rompe a relação entre mestre e aprendiz, mudando o sentido do signo Mestre, que perde certa autoridade política com o passar do tempo. Pois, o ambiente metonímico hegemonizado pela autoridade da escola e de um saber chancelado por manuais escolares e articulado com os valores da pesca industrial e do mercado capitalista como um todo rompe com aquele "véu mágico" do trabalho artesanal a que se referia Fromm. Em nossa análise esta é uma das possíveis causas da não continuidade da pesca artesanal, vejamos o discurso do Mestre pescador:

É o Mestre... Tudo é ele, dizer quantos dias vai passar, o dia que vai simbora! A hora que vai trabalhar... bora menino vamos começar a trabalhar agora, olha hora menino, olha hora acorda! Vamos levantar oia o serviço! Por que se você não fizer isso, às vezes o pescador morde você se você não tiver aquela liderança e aquele controle da embarcação. É muita responsabilidade, você tá ali pra trabalhar, pra tirar seu sustento dali, viver daquilo ali, pagar suas contas... Não é brincadeira não! Pescaria é um negócio sério, tem que ser muito responsável, eu sempre digo aos meninos: você preste atenção ao que tá fazendo, pra não tá fazendo coisa errada, o serviço tem que ser bem feito... (Mestre pescador, 35 anos, Z-9).

Como observado, na parte sublinhada acima, trata-se do uso de uma metáfora, a qual o mestre emprega a palavra: morde, para demonstrar a insubordinação ou desrespeito a sua autoridade. Percebe-se, neste contexto, as mudanças nas relações entre mestre e aprendiz, quando em outro tempo este tipo de atitude não ocorria.

Faz-se útil explicar que ao analisar o último exemplo, presente na entrevista do mestre, foi ele, o mestre, quem cria em sua narrativa a metáfora "morde", como analogia à insubordinação, o que parece fazer sentido em um ambiente narrativo - metonímico - em que impera um incômodo com o trabalho: esse "ambiente" aparece na própria comunidade de pescadores, ou seja, no processo de integração da pescaria na economia e Estado capitalistas que revelaria certo processo de "alienação" do trabalho.

Ao analisar a colônia de pescadores, procurou-se observá-la como uma pluralidade de sujeitos sociais (os pescadores locais) que se encontram reunidos em um aparato institucional (a colônia Z-9 de São José da Coroa Grande – PE). Observou-se que as razões e motivos que os levaram a atividade da pesca são variados, alguns sendo filhos de pescadores e tiveram de trabalhar com o pai para ajudar na renda da família, outros por falta de oportunidade em outra profissão e alguns por preferir pescar. Em comum eles apresentam a rejeição de permitir que

seus filhos iniciem na pesca, o que de certa forma, pode a médio prazo acabar com a pesca artesanal na região.

Esta limitação presente na vida da Colônia, entre a tradição de pescar e o desejo de que os filhos tenham uma sorte melhor, busquem por uma educação formal para garantir uma ascensão profissional que proporcione mais renda, mais qualidade de vida e menos riscos, parece ser uma constante no discurso dos pescadores da colônia. Trata-se, portanto, de indivíduos concretos, de carne e osso, ao transitarem entre diferentes posições de sujeito, desafiam a noção de unidade identitária e o fazem pela absorção de valores pertencentes a lógicas não artesanais/comunitárias de trabalho. Foram identificados nos discursos coletados valores que estão atados ao mercado capitalista e outros - talvez - ainda à lógica de trabalho artesanal e comunidade, veja-se o que diz o mestre de barco:

―Aprendi com meu pai... mas não quero meu filho pescador....de jeito nenhum. Tenho três filhos, o mais velho com 21 anos... pescava, mais já saiu. Tá trabalhando no hotel, foi trabalhar de garçom... São três homens, tem um novinho de 4 anos e o outro de 19. Trabalha em hotel também. Esse nunca foi pro mar não! Nem quero que ele vá não... Ele trabalha de animador no Hotel Gran Oca. Eu fui pescar por opção de emprego. A primeira vez eu ia mais meu pai, mas por esporte. Estudava, aí quando eu tinha férias no colégio eu ia pescar. Ia só nas férias... Era um lazer. E hoje eu tô por profissão por conta do desemprego... comecei e não sai mais não. Tentei trabalhar como vigilante, trabalhei 6 anos como vigilante, em três firmas de vigilância. Trabalhei como porteiro de um hotel em Maragogi, com carteira assinada, trabalhei de almoxarife... em construção... trabalhei em um bocado de coisa já... servente de pedreiro... Pra mim é melhor tá na pesca, do que tá por aí sem fazer nada. E certos serviços que tem por aí a pesca é muito melhor.‖ (Mestre de Barco, 42 anos – Colônia Z-9).

Portanto, essa dualidade encontrada nas narrativas dos pescadores entre continuar a pescar e não querer o filho pescador, ao que parece, enfraquece as articulações discursivas, dos pescadores da colônia Z-9, na luta por seus objetivos contra os inimigos em comum, que seja o Estado, a pesca industrial, os grandes empreendimentos turísticos nas áreas de pesca, entre outros. Isso porque eles não acreditam, individualmente ou coletivamente, num futuro promissor da pesca artesanal como a principal e necessária atividade de sustento da colônia como um grupo, como uma unidade. Eles querem que seus filhos estudem e trabalhem em outras profissões e fiquem longe da pesca. Entretanto, se não tiver outro jeito, a pesca seria sua cruz.

Hoje já é percebido por eles a falta de pescadores dispostos para ir ao mar, pois a pouca renda obtida com a pesca, além dos riscos e os poucos, insuficientes ou nenhum apoio

dos governos, desestimula aqueles pescadores que ainda resistem ao tempo. Tendo muitas vezes que pescadores aposentados pela idade, acima dos 60 anos, serem convidados para compor a tripulação, eis o que diz o mestre de barco:

―Se passar um mês da maré em terra vai ganhar quanto? Nada! Só na época do defeso, a gente recebe um salário por mês, durante cinco meses da pesca da lagosta parada, antes eram seis meses, agora apenas cinco pagos pelo governo federal. O chapéu de Palha é apenas para quem não pesca lagosta, aí recebe meio salário... Hoje tem até aposentado pescando comigo... tá faltando pescador na praia! Aí temos que chamar quem ainda topa... Meu pai mesmo ainda tá pescando... tem outro que tá aposentado lá que tá pescando, outro que já vai se aposentar‖. (Mestre de Barco, 42 anos – Colônia Z-9).

Percebe-se que essa quebra na tradição inter-geracional se dá como um processo de integração, exatamente pelas vias da ocupação de outras posições de sujeito e incorporação de valores de mercado e sistêmicos. A integração ao discurso do mercado se faz presente entre as gerações, que vão criando lacunas entre as narrativas, perdendo os saberes das técnicas essenciais da pesca artesanal.

Essa perda é notória no campo empírico, por exemplo, quando se observa que os pescadores mais novos não sabem mais se orientar no mar sem o uso do equipamento de GPS, ou não conseguem mais pescar algumas espécies sem o uso do espinhel. Pois as práticas ―antigas/tradicionais‖, aos poucos foram perdendo espaço para a frequente sistematização do uso de equipamentos impostos pelo mercado do capital. Isto desloca os sujeitos dentro desta nova estrutura, de uma pesca mais instrumentalizada, seguindo uma lógica da pesca industrial, de forma a não articular os mesmos interesses entre as gerações de pescadores e desta forma promove uma perda na memória da pesca artesanal.

Deve-se considerar que cada pescador (particular), possui sua subjetividade, que cria narrativas para além da objetividade discursiva em seu ambiente metonímico, a própria colônia.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa objetivou compreender como se dá a educação informal na Colônia de pescadores Z-9 de São José da Coroa Grande e qual a relação desta com a manutenção da pesca artesanal, considerando sua importância para a reprodução do modo de vida dessa comunidade pesqueira.

Nosso trabalho utilizou a história oral, presente nas narrativas, para aproximar-se da comunidade na tentativa de resgatar nas lembranças a marca de uma história, do sentido de pertença e de construção da memória da Colônia. Neste sentido, alguns fatores tornam-se importantes chaves de compreensão da vida comunitária pesqueira tais como: trabalho artesanal, economia solidária, economia popular, educação informal.

Neste contexto, ressaltamos a economia popular formada por um determinado público, composto por desempregados, com ou sem qualificação técnica, bem como, por outros grupos de excluídos dos processos de desenvolvimento de tecnologias, dos programas sociais (assistenciais) do governo, da distribuição de renda e do sistema econômico formal.

Quanto à educação informal, distinguiu-se esta das demais por não se constituir num sistema organizado ou estruturado, sendo frequentemente acidental ou não intencional e que identificamos como essencial modo de aprendizagem na pesca artesanal.

Considerando os aspectos teóricos, adotamos um método de análise das narrativas dos pescadores, utilizando como referencial teórico para nossa metodologia a teoria do Discurso de Ernesto Laclau articulada a Tríplice Mímesis de Paul Ricouer. Neles se observam questões que envolvem identidade, discurso, metáfora, bem como os significados, significantes (vazios) possíveis, existentes. Também identificamos os pontos de tensão (temas que lhes são caros); resistências em suas vidas cotidianas; disputas de sentido (nas quais se analisou os sujeitos pesquisados e como se enquadram ou mesmo teimam em não se enquadrar em ―determinadas racionalidades‖). Analisamos como os sujeitos estão construindo seus discursos apontando os elementos que estão mobilizando/articulando valores, emoções, objetivos nos seus discursos. Ou seja, como se dá seu esforço "expressivo" em termos discursivos. Em outros termos, quais as aproximações metafóricas (lógica equivalencial) e quais articulações metonímicas (lógica diferencial) estão sendo postas em ação e/ou desafiadas. Deste modo, os discursos são constituídos de dimensão linguística e extralinguística, de maneira que o posicionar-se na topografia do social tem um efeito no horizonte de enunciação.

Tratando-se do percurso metodológico, o mesmo envolveu fontes orais (através de entrevista com pescadores de idade mais antiga, intermediária e mais nova) através das quais se obteve relatos de como era trabalhada a temática ―saberes e experiências do mar‖. Os dados coletados foram transcritos e analisados de forma cautelosa, a partir de categorias previamente estabelecidas nas teorias de Paul Ricoeur e Ernesto Laclau, conforme já descrito acima no intuito de verificar nas narrativas das entrevistas o processo pedagógico a partir dos ―saberes e experiências do mar‖.

Analisando as narrativas dos pescadores na Colônia Z-9, percebemos, portanto, que eles não formam uma unidade discursiva como classe; mas sim, uma equivalência entre si, sobretudo, quanto as suas demandas contra as políticas públicas e órgãos governamentais que interferem de forma prejudicial na sua atividade de pesca. Contudo, as dimensões linguísticas e extralinguísticas do discurso, apreendidas e compreendidas durante o estudo e na aplicação destas teorias sobre as narrativas dos entrevistados, nos apontaram para outras três questões, que se fizeram pertinentes e se apresentaram como imprescindíveis para que chegássemos ao nosso objetivo geral, são elas:

1- Quais tipos de demandas existem entre os pescadores da Colônia Z-9? 2- São demandas populares ou demandas democráticas?

3- Quais as implicações e desdobramentos das narrativas para a permanência da atividade da pesca artesanal?

Portanto, respondendo a nossa primeira pergunta, podemos, então, diante das narrativas apresentadas e analisadas, afirmar que temos tipos diversos de demandas, com vertentes políticas, educacionais, econômicas e sociais, tais como: a falta de apoio governamental e excesso de regulamentação; o alto custo para pescar e pouco rendimento com a produção pela pouca capacidade de carga dos barcos, no uso de covas para pesca da lagosta; a busca de uma nova profissão através do acesso à educação formal, vislumbrando uma melhoria de classe social, diferente da atual realidade dos pais pescadores, etc.

Quanto a segunda questão, as demandas dos pescadores aqui apresentadas possuem o caráter democrático. Tais demandas democráticas se encontram isoladas apenas em relação ao processo de equivalência e não se articulam a ponto de serem absorvidas pelo sistema, pois, uma vez atendidas, elas não permanecem isoladas.

Quanto a terceira questão, são várias implicações, pois no decorrer das análises das narrativas e das leituras para a presente pesquisa, evidenciou-se que é através das narrativas que se estabelece uma estrutura discursiva, na qual são construídos e fixados: os sentidos (a

pesca), os conhecimentos (as técnicas) e as memórias (as subjetividades) de um indivíduo (o pescador) e/ou de um grupo social (colônia de pescadores).

Portanto, os pescadores da Colônia Z-9 de São José da Coroa Grande se encontram em meio a uma estrutura discursiva que apresentam demandas democráticas que poderá criar novas relações: de equivalências e/ou diferenças, desde que, eles consigam articular tais demandas em torno de algo negativo que aproxime os discursos. Daí seria capaz de gerar demandas populares, não mais solicitações, mais em algo maior, como reivindicações capazes romper com a negação, não entre os pares, mas sim, contra o sistema hegemônico dominante (inimigo comum – o Estado) e assim modificar as relações atuais da pesca e construindo outro social.

Diante das afirmações acima, e por tudo que foi dito até aqui, podemos então responder a nossa questão central, como se dá a educação informal na colônia de pescadores, inferindo que ela acontece em sua maioria, entre pais pescadores e seus filhos, entre os mais velhos e os mais jovens, no seio da família de descendentes de pescadores, na comunidade praieira e ribeirinha da colônia, em tempo integral, de maneira não intencional, com dedicação, esforço e orgulho, por dentro do trabalho da pesca, ora coletiva, ora solitária, mas que articula a comunidade, a vivência, a prática, a experiência e a observação da natureza, promovendo a transmissão de saberes e valores da pesca artesanal, que podem ser reproduzidos nas narrativas dos pescadores e/ou apreendidos no silêncio, em alto mar, na espera do peixe para pescar.

Portanto, a educação informal se relaciona intrinsecamente com a pesca artesanal, sendo essencial a sua manutenção. Ainda se conclui que a intervenção negativa ocorrida gradativamente através do discurso da escolarização voltada para o mercado, as restrições impostas por leis ambientais e a industrialização da atividade pesqueira tende a ameaçar o ensino-aprendizagem (e toda herança) gerada pelos saberes e experiências conectados com a educação informal.

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