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3. Taille de la tumeur

Nesta dissertação, apoiamo-nos na abordagem complementar da Teoria do Núcleo Central apresentada por Abric, para quem a representação possui uma dimensão cognitivo-estrutural que responde a uma visão funcional do mundo, permitindo ao indivíduo ou ao grupo dar um sentido às suas condutas e compreender a realidade através do seu próprio sistema de referências (ABRIC, 2000).

Partimos do pressuposto de que investigar a docência no Ensino Superior contribui para um redimensionamento da desvalorização profissional e da concepção de professor como técnico eficiente, compreendendo-a como uma atividade especializada, que requer formação científica e pedagógica fundada no princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Considerando as transformações sociais constantes e suas implicações à educação que, como prática social, também se transforma acompanhando as mudanças da sociedade, inferimos que as investigações que adotam as representações sociais como fundamento teórico-metodológico são pertinentes, uma vez que essas representações desempenham um papel fundamental na dinâmica das relações e práticas sociais.

Ademais, conforme Moscovici (2009, p. 91) “seu caráter é revelado principalmente em tempos de crise e insurreição, quando um grupo ou suas imagens, está passando por mudanças”. Reconhecemos, a partir de referências teóricas que discutem a docência no Ensino Superior e de situações observadas em nossa trajetória profissional, que o fenômeno vivencia constantes transformações, frente à nova conjuntura tecnológica e globalizada.

Com relação a essa questão apoiamo-nos em Veiga (2006, p. 89) que discute o Plano Nacional de Graduação (PNG) e suas exigências por um novo perfil docente para o ensino superior. Segundo a autora, o Plano prevê metas de qualificação docente voltadas para a formação científica na área de conhecimento, para qual requer pós- graduação stricto sensu, preferencialmente, no nível de doutorado. Ainda prevê a permanente formação docente; o domínio do complexo processo histórico de constituição de sua área; a ampla e crítica compreensão dos métodos que produziram o conhecimento acumulado. O plano também destaca a competência pedagógica, adquirida na formação desenvolvida por programas de pós-graduação e posteriormente aprimorada no âmbito das formações continuadas realizadas coletivamente e no desenvolvimento e avaliação de projetos pedagógicos de cursos, de modo a possibilitar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

Reconhecemos uma tendência à constituição de um novo perfil docente, que independente do nível de ensino no qual atua, precisa estar em formação permanente e cada vez mais qualificar-se para lidar com a rapidez das mudanças sociais e com a complexidade do exercício docente. Essa questão nos provoca a compreender as representações sociais da docência no Ensino Superior.

Em síntese, o aporte teórico aqui apresentado contribui para o entendimento dos referentes pessoais e sociais que produzem as representações sociais construídas pelos estudantes acerca da docência, uma vez que nos ajuda a compreender os fenômenos sociais de forma articulada e dinâmica, considerando a irredutibilidade da ciência e do senso comum e o modo de relacionar-se com ele. Segundo Moscovici (2009, p.183) “é, pois, a representação que une as ideias e o comportamento de um coletivo, representações que são formadas no decurso do tempo e as quais as pessoas aderem de maneira pública”.

Nesse sentido reforçamos a pertinência do estudo tomando o referencial de Gilly (2001, p. 322) que afirma:

[...] a área educacional aparece como um campo privilegiado para observar como as representações sociais se constroem, evoluem e se transformam no interior de grupos sociais, e para elucidar o papel dessas construções nas relações desses grupos com o objeto de sua representação.

O estudo da Docência no Ensino Superior à luz da Teoria das Representações Sociais, por sua relação com o pensamento simbólico e toda forma de construções mentais que pressupõem linguagem e comunicação, confere significativo valor ao senso comum, por se tratar de um conhecimento que parte de perspectivas individuais e coletivas que se tornam públicas. Destarte, acreditamos que o estudo da docência à luz dessa teoria nos ajuda a identificar as representações dos estudantes depreendendo se essas representações são, ou não são modificadas no percurso de formação.

Na literatura encontramos indicadores de que os estudantes já possuem uma concepção prévia do magistério, oriunda das suas experiências como alunos e que essa representação da profissão serve de orientação para guiar seus comportamentos (GUALTHIER, 1998; TARDIF, 2002). Identificamos ainda na literatura as contribuições de Freire (1996, p. 90) que a esse respeito afirma: “é interessante observar que a minha experiência como discente é fundamental para a prática docente que terei amanhã ou que estou tendo agora simultaneamente com aquela”. O autor nos provoca a pensar sobre a docência como um sistema de referência, no qual os estudantes - futuros docentes, buscam um suporte para o desempenho de sua própria prática. Estes indicadores nos incitam a pensar que os estudantes representam a docência e que essa representação implica e incide em suas condutas e práticas sociais, o que concorre para validar a pertinência da nossa pesquisa.

Nesse sentido Abric (2000, p. 28) nos diz que

A representação funciona como um sistema de interpretação da realidade que rege as relações dos indivíduos com o seu meio físico e social, ela vai determinar seus comportamentos e suas práticas. A representação é um guia para a ação, ela orienta as ações e as relações sociais. Ela é um sistema de pré-codificação da realidade porque ela determina um conjunto de antecipações e expectativas.

Assim, representar é significar, dar sentido às condutas de um grupo e compreender a realidade na qual está inserido. Reiteramos a pertinência de estudar a

docência no Ensino Superior sob o enfoque da Teoria do Núcleo Central, pois admitimos assim como Abric (2000), que as representações de docência dos estudantes determinam a forma deles se relacionarem e interagirem com seus professores, além do que orientam suas práticas quando de sua atuação profissional futura. Ademais, temos claro que para além da constatação, essa abordagem dá conta da significação e dos sentidos de uma representação partilhada por um grupo essencialmente social, determinando ao mesmo tempo sua organização interna e seu funcionamento enquanto prática social.

Destacamos a relevância teórica, histórica, social e política dos estudos em Representações Sociais no campo da educação. Para isso, tomamos como referencial a pesquisa de Melo e Batista (2010) ao realizar um trabalho de revisão de pesquisas brasileiras publicadas no período de 1988 a 2008 que abordaram a interlocução entre o campo das representações sociais e o campo da educação, inferindo sobre a pertinência da teoria para a compreensão dos fenômenos educacionais. Para Melo e Batista (2010, p.61) “as representações sociais na área educacional fundamentam desde a compreensão de fenômenos macroscópicos como identidade cultural, até práticas concretas travadas no microcosmo da sala de aula na interação pedagógica e no trabalho docente”. Diante do exposto, podemos afirmar que o campo das representações sociais é um campo promissor para os estudos que buscam desvelar as práticas institucionais e educativas que se realizam no espaço educacional.

Ressaltamos a importância dos estudos em representações sociais no campo da educação por seu olhar psicossocial que nos ajuda a compreender os processos simbólicos que ocorrem na interação educativa e que definem e determinam comportamentos e atitudes no grupo. E esta representação compartilhada por todos e reforçada pela tradição, constitui por sua vez uma realidade sui generis, ou seja, em diferentes grupos podemos encontrar diferentes representações sobre o mesmo objeto, ainda que estes grupos possuam uma mesma identidade que os aproxima e que lhes configura como grupo taxonômico, contudo, pode eventualmente os diferenciar pela cultura e experiências de vida e formação.

Nesse sentido, Alves-Mazzotti (1994, p. 77) afirma que “cada segmento sociocultural, tem seu sistema de representações sobre os diferentes aspectos de sua vida, aos quais nós, educadores e pesquisadores, teimamos em não ouvir”. Esta

afirmação nos inquieta e reforça a importância da nossa pesquisa, como contribuição para o campo da educação, especialmente no Ensino Superior.

No próximo capítulo, descrevemos os caminhos percorridos durante o processo de pesquisa. Os caminhos metodológicos trilhados nesta investigação revelam a possibilidade de diálogo entre a Teoria das Representações Sociais e o estudo sobre a docência no Ensino Superior.

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