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Les tactiques évoluent, mais les violations restent les mêmes

Dans le document Amnesty International (Page 9-13)

Baseado no modelo de Grotevant, desenvolvi um modelo que se adequa ao processo de desenvolvimento da identidade sonora, acrescentando apenas três detalhes. No quadro das características individuais incluí o corpo e o instrumento pois, tal como citado anteriormente, a identidade também se manifesta nos nossos aspectos físicos (Oyserman, Elmore e Smith, 2012; James, 1890; Giddens, 2002). Isto ocorre tanto nesses aspectos em si (mãos, dedos, rosto, boca, dentes, etc.) quanto a partir deles – potencializando e ao mesmo tempo limitando as nossas expressões identitárias. Para o músico instrumentista essa realidade é ainda mais relevante, uma vez que o corpo é um elemento imprescindível de expressão e caracterização identitária. No caso específico da flauta, corpo e instrumento interagem de forma tão intrínseca, que a unidade formada entre essas duas partes no momento da execução, pode em alguns momentos tornar difícil a visualização de uma separação. O instrumento se torna parte do corpo e o corpo se torna parte do instrumento. É preciso considerar ainda que as flautas transversais não são totalmente padronizadas. Há inúmeras diferenças entre as variadas marcas e modelos existentes ao redor do mundo. Essas diferenças podem estar relacionadas à espessura da parede do tubo, ao corte do bocal, ao sistema de afinação, ao

14 Tradução minha. Segue o texto original: Besides the family of origin, contexts of identity development during

adolescence and transition to adulthood in any particular culture include various educational and work settings, as well as friends and romantic partners.

15 Idem: Theoretically, environmental contexts of development and individual

modelo das chaves, ao tipo de material (níquel, madeira, prata, ouro, platina etc.) e a outros fatores diversos. Essas variedades de flauta interferem diretamente na identidade sonora de cada flautista.

No quadro do processo de identidade, acrescentei ainda o processo de reposição da identidade sonora. Tal como explicitado nas teorias de Ciampa (1984), uma vez consolidada uma determinada identidade, é necessário um processo de reposição constante que garanta a sua manutenção de acordo com determinadas características. Para o flautista, manter a filiação a determinadas características sonoras significa se engajar em um processo cotidiano de reposição. Em meio a possibilidades diferentes que se apresentam a cada dia, o flautista se decide pela manutenção de um tipo específico de resultado sonoro com o qual vem se identificando a partir de algum momento no passado. O modelo que proponho procura evidenciar uma parte importante dessa realidade, mas de maneira alguma pretende abarcar a realidade total do fenômeno:

Gráfico 2 - O meu modelo do processo de formação no domínio da identidade sonora

Desta forma, estabeleço nas características pessoais cinco elementos principais que o indivíduo trás consigo para o processo de formação da identidade sonora: personalidade, habilidade cognitiva, identidade atual, corpo e instrumento. Com relação ao domínio da identidade sonora, coloquei os resultados sonoros no centro de todos os processos, ou seja, a sua construção, consolidação e transformação se dá principalmente a partir do resultado na prática. Desta maneira, os resultados afetivos influenciam nos resultados sonoros, assim como os resultados sonoros influenciam nos resultados afetivos, em um processo

complexo que se dá de múltiplas formas. Por exemplo, eu procuro produzir na minha flauta um tipo de som que me agrada, um tipo de som com o qual, em algum momento, desenvolvi uma relação afetiva positiva. Se em um determinado momento o som que estou produzindo não está me agradando, vou tentar transforma-lo até que ele desperte em mim um sentimento de apreço, de prazer. Do mesmo modo que procuro construir no meu instrumento um timbre que gosto, o timbre que consigo produzir no meu instrumento – considerando aqui até mesmo elementos que eu gostaria de mudar e que por algum motivo eu não consigo – acaba por influenciar o meu gosto. É a minha própria realidade que, em alguns momentos, me impõe limites inexoráveis com os quais tenho que não somente me acostumar, me conformar, mas aprender a lidar com os melhores sentimentos possíveis. Desta maneira, busco produzir o tipo de som com o qual tenho uma relação afetiva positiva, e ao mesmo tempo busco ter uma relação afetiva positiva com o tipo de som que, efetivamente, consigo produzir.

Com relação aos resultados cognitivos existe a mesma via de mão dupla. A minha cognição influencia nos resultados sonoros assim como os resultados sonoros influenciam na minha cognição. Os processos cognitivos se dão através da nossa percepção, da nossa memória, do nosso raciocínio e até mesmo da nossa linguagem verbal. Mesmo antes de soprarmos no instrumento e produzirmos som, nós realizamos uma série de processos mentais, relacionados principalmente à criação de imagens sonoras, uma espécie de categorização de tipos sonoros em potencial, carregados de aspectos estéticos e musicais. Esse processo cognitivo é construído tanto no espaço de tempo mais imediato, quanto no espaço de tempo mais distante, a depender da história de vida de cada instrumentista. Essas imagens sonoras mentais que construímos interferem diretamente no som que produzimos fisicamente através do ar que faz vibrar o instrumento. No entanto nem tudo o que imaginamos, nem tudo o que construímos mentalmente, nos é possível concretizar efetivamente em som. Nós possuímos determinadas características físicas do instrumento, do nosso corpo e do ambiente, que nos impõe determinados limites. O som que produzimos efetivamente no instrumento é o coeficiente de processos mentais e físicos. Ou seja, às vezes imaginamos determinados tipo de som que não conseguiremos efetivamente reproduzir no instrumento, e aquele som produzido efetivamente – através de um corpo e ambientes singulares e limitados, contento aspectos diferentes do que foi anteriormente imaginado – acaba por afetar a nossa imaginação. Há uma imagem sonora mental que interfere no som que será posteriormente produzido através da vibração do ar no instrumento, e há uma outra imagem sonora mental que começa a ser construída a partir do momento em que o instrumento começa a vibrar e produzir som. Desta

maneira, tento produzir no instrumento o tipo de som que imagino, e ao mesmo tempo passo a imaginar o tipo de som que efetivamente consigo produzir.

Outro aspecto importante é que, tal como no modelo de Grotevant, o modelo que proponho prevê uma interdependência entre os mais diversos domínios de identidade. Desta maneira o processo de formação da identidade sonora está ligado a outros domínios identitários de nossas vidas como músicos e como pessoas, nos mais diversos contextos. Referindo-se ainda à influência dos aspectos individuais no processo de construção da identidade, Grotevant (1987, p.208-209) afirma que “os fatores da personalidade interagem com as pressões ambientais que emanam dos contextos de desenvolvimento do indivíduo para determinar a maneira como um indivíduo vai se engajar na ‘construção identitária’ em qualquer ocasião específica”.16 Ele identifica então (1987, p.205) quatro dimensões da personalidade que precisam ser consideradas tanto individualmente quanto em suas relações: autoestima, automonitoração, resiliência do ego e abertura para a experiência.

Para ele a autoestima influencia na nossa avaliação do nosso próprio valor e contribui diretamente na disposição para explorar novas possibilidades identitárias, nos fazendo correr riscos e considerar opções disponíveis.

A automonitoração é a propensão de cada indivíduo para mudar o seu comportamento em função do contexto onde atua. Para Grotevant (1987) aquelas pessoas que possuem um nível elevado de automonitoração tendem a “monitorar e controlar as imagens de si mesmo que elas projetam nas interações sociais, ao passo que os indivíduos com nível baixo de automonitoração tendem a se comportar de forma resistente entre uma e outra situação”. Por conta disso espera-se que as pessoas com nível elevado de automonitoração sejam muito sensíveis e que respondam aos sinais sociais, que “possam elucidar e usar as informações do ambiente de forma diferente daquelas pessoas com nível baixo de automonitoração” e que estejam menos abertas a responder àquele ambiente. Grotevant (1987, p.206) chega a afirmar que alguns estudos chegaram à conclusão de que as pessoas com nível elevado de automonitoração consideram as características identitárias externas – como a inserção em determinados grupos – como sendo mais importantes no seu senso de identidade do que aquelas características identitárias mais internas – tais como o sentimento.

16 Idem: Personality factors interact with environmental presses emanating from within the individual’s

developmental contexts to determine the likelihood that an individual will engage in “identity work” at any particular time.

Essa tendência de monitoração com relação ao comportamento social existente em cada indivíduo é também evidenciada por Giddens (2002, p.39):

As convenções sociais produzidas e reproduzidas em nossas atividades diárias são reflexivamente monitoradas pelo agente como parte do “seguir em frente” nas diversas situações da nossa vida. [...] Todos os homens monitoram continuamente as circunstâncias de suas atividades como parte do fazer o que fazem, e esse monitoramento sempre tem características discursivas. Em outras palavras, se questionados, os agentes são normalmente capazes de fazer interpretações discursivas da natureza e das razões do seu comportamento.

Já a resiliência do ego significa para Grotevant (1987, p.207) “o grau de flexibilidade mostrado no confronto de situações novas e potencialmente desafiadoras”.17 Desta maneira aquelas pessoas com baixa resiliência do ego seriam “inflexíveis ou inseguras e por conta disso menos aptas a responder de forma adaptativa a novas situações”.18 Por outro lado, as pessoas com alta resiliência do ego seriam capazes de se adaptar habilidosamente caso haja uma mudança de circunstâncias, além disso seriam capazes “de analisar o seu ajustamento entre as demandas e possibilidades, e colocar em ação estratégias para a solução de problemas” (1987, p.207).19 Do mesmo modo que Grotevant, Burke (1998, p.5) também reconhece a importância da autoestima e da automonitoração no processo individual de construção identitária e acrescenta ainda, como fator determinante, o sentimento de autoeficácia. Outro aspecto congruente entre Grotevant e Burke é a constatação de que a construção performática que o indivíduo faz de determinados papéis é uma forma de controlar o ambiente externo e obter uma avaliação pessoal positiva. É nesse sentido que Burke (1998, p.5) afirma que:

A teoria da identidade social incorporou fortemente a autoestima como um motivador de resultados. Ao mesmo tempo em que não tem sido empiricamente claro que a autoestima é importante, tem sido demonstrado que a participação em grupos é geralmente uma fonte de autoestima. Isto é particularmente verdade para aqueles que não somente classificam a si mesmos como membros, mas também para aqueles que são aceitos pelos outros como membros (Brown and Lohr 1987; Ellison 1993). A teoria da identidade possui implicações não somente para a autoestima mas também para a autoeficácia. [...] A avaliação que [alguém] faz de sua performance [auto-monitoração] em um determinado papel vai influenciar os sentimentos de autoestima (Stryker 1980). Se uma pessoa avalia seu papel positivamente, sua autoestima vai ser mais alta, e se ela desempenha bem um papel, ela vai se sentir bem, dada a aprovação e apreciação dos outros (Franks and Marolla 1976). No entanto, existe também implicações de eficiência no desempenho de um papel. Quando nós temos um bom desempenho em um papel, isto nos provê um senso de controle sobre o nosso ambiente (Franks and Marolla 1976; Gecas and Schwalbe 1983). Pesquisas recentes na teoria de identidade mostram que a autoavaliação que

17 Idem: The degree of flexibility shown in confronting new and potentially challenging situations. 18 Idem: Inflexible or brittle and thus are less able to respond adaptively to new situations.

19Idem: Analyze the goodness-of-fit between demands and possibilities, and mobilize problem-solving

ocorre durante a boa performance de um papel faz com que o indivíduo se sinta eficiente.20

De acordo com os modelos acima é possível notar também que a orientação para o engajamento no processo exploratório está diretamente relacionada com as características individuais de cada pessoa. Referindo-se especificamente aos diversos fatores de personalidade, Grotevant (1987, p.208-209) afirma que:

Os fatores de personalidade interagem com as pressões ambientais que emanam dos contextos de desenvolvimento do indivíduo para determinar o modo como um indivíduo vai se engajar em um ‘trabalho de identidade’ em qualquer tempo específico. [...] Alguns indivíduos são mais propensos do que outros a estarem abertos à experiência.21

Além dessa relação com as características individuais, a orientação para o engajamento no processo exploratório é influenciada pelos resultados afetivos e pela nossa avaliação da identidade sonora. O fato de revestirmos determinados processos exploratórios de uma afetividade positiva ou negativa poderá determinar o nosso grau de investimento, de engajamento e de permanência nesses processos.

Dans le document Amnesty International (Page 9-13)

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