A pesquisa foi realizada em duas etapas: uma bibliográfica e outra empírica. Iniciou-se o trabalho fazendo um levantamento bibliográfico em bases de dados (Scielo, Thesauros, Portal de Periódicos CAPES, Fundação Carlos Chagas), utilizando os seguintes descritores, como parâmetro de busca: cultura visual, visualidade (visuality), leitura de imagem, visual. Foram encontrados 11 artigos, 3 dissertações e 4 teses com o descritor
cultura visual; 2 artigos e 2 dissertações com o descritor visualidade (visuality); 11 artigos, 2 dissertações e 3 teses com o descritor leitura de imagem. A busca pelo descritor visual resultou em 694 artigos só na base de dados da Scielo, devido à abrangência do termo, que pode também ser tema nas áreas de oftalmologia e de educação especial. Esses artigos tiveram que ser inicialmente selecionados pelo título, e alguns também pelo resumo; após essa triagem, elegeram-se 35 artigos que foram lidos na íntegra e utilizados ou descartados, conforme a sua pertinência. Foram pesquisados, também, artigos, dissertações e teses disponíveis nas bibliotecas digitais do Instituto de Arte da Universidade Estadual de Campinas (IA/UNICAMP), da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE/UNICAMP), do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade Estadual de São Paulo (PPGAV/ECA/USP), do Programa de Pós-Graduação em Artes e Cultura Visual da Faculdade de Artes Visuais da
Universidade Federal de Goiás (PPGACV/FAV/UFG), do Laboratório de Artes Visuais do Departamento de Metodologia e Ensino da Universidade Federal de Santa Maria (LAV/MEN/UFSM), além de artigos de revistas eletrônicas especializadas em Educação, Cultura Visual e Artes Visuais. O material encontrado foi avaliado criticamente, rejeitando-se aqueles que não continham informações relevantes para este trabalho.
A parte empírica iniciou-se com um curso de extensão destinado aos(às) professores(as) e gestores(as) das escolas públicas estaduais, denominado: Leitura de Imagens
nos Ensinos Fundamental e Médio. O curso se deu na forma de parceria estabelecida entre a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Diretoria de Ensino de São Carlos. Ao oferecer essa formação, a pesquisadora teve oportunidade de conhecer um grupo de educadores(as) que, de forma geral, manifestou interesse pelo tema “imagens” e sua utilização em práticas pedagógicas. Desse grupo, foram selecionados(as) os(as) educadores(as) entrevistados(as) – participantes da pesquisa.
Segundo Bogdan e Biklen (1994), “em educação, a investigação qualitativa é frequentemente designada por naturalista, porque o investigador frequenta os locais em que naturalmente se verificam os fenômenos nos quais está interessado” (p. 17, grifo do autor e da autora); nesse sentido, embora o fenômeno estudado não fosse a formação em si, a partir dela foram atingidos os seguintes objetivos: a) compreender o contexto em que esses(as) professores(as) e gestores(as) atuavam, para que suas ações em suas salas de aula fossem mais bem entendidas, e b) formar um vínculo de confiança com os sujeitos participantes da pesquisa.
Não se pode deixar de mencionar que os conteúdos trabalhados e os conhecimentos adquiridos no decorrer da formação influenciaram as respostas dadas pelos(as) educadores(as). O curso contribuiu para a construção de sentidos na medida em que esses(as) educadores(as) analisaram aspectos e implicações diversos das suas próprias práticas, o que os(as) levou a refletir sobre seus conceitos, noções e suas próprias visões a respeito das imagens e possibilidades de utilizá-las como estratégia pedagógica.
Eu vinha utilizando as imagens com frequência na sala de aula, porém não sabia ao certo como explorar o seu conteúdo. Acho que o curso mudou sim minha maneira de trabalhar as imagens, o que enriquece a aprendizagem dos alunos. [...] (Educador(a) 2 – Entrevista).
[...] a partir do momento que eu fiz o curso, eu acredito que houve uma influência muito grande no que diz respeito a conseguir [...] olhar as coisas com mais perspicácia, digamos assim, n/é? Observar com mais detalhes coisas que eu não conseguia observar antes. Eu olhava, mas olhava [...] sem noção daquilo que eu tinha olhado. Olhava e acabou (Educador(a) 5 – Entrevista).
[...] antes do curso [...] eu realmente não achava que a imagem [...] me influenciava, assim como ela está me influenciando hoje. (Educador(a) 3 – Entrevista).
Ao serem questionados(as) sobre as aprendizagens oportunizadas pela formação, alguns(algumas) educadores(as) responderam que as atividades e reflexões propostas modificaram e/ou ampliaram as suas considerações e perspectivas a respeito do desenvolvimento do trabalho com imagens; isso se deu à medida que foram executando as atividades e, principalmente, compartilhando as experiências com os(as) colegas, ao longo do curso, o que ocupou uma boa parte das reflexões e discurso dos professores e das professoras.
Gostei dos momentos de socialização, pois tive a oportunidade de ouvir diferentes pontos de vista, o que me fez refletir sobre meu próprio modo de ver as obras (Educador(a) 2 – Questionário).
A troca de experiências com professores[as] de outras disciplinas foi muito enriquecedora (Educador(a) 4 – Questionário).
Gostei de tudo. Principalmente da questão da socialização entre professores[as]. E os debates que nós fizemos entre nós (professores[as]) de várias disciplinas, cada qual com suas interpretações ou olhar, com detalhes diferenciados (Educador(a) 5 – Questionário).
Entre tantas citações, dou maior destaque à interação que houve entre as diversas áreas do conhecimento. A princípio, tive a impressão [de] que o curso era voltado para professores[as] de arte, mas com o caminhar percebi que estavam reunidos professores[as] de Letras, Ciências, Matemática. Foi ótimo perceber como esses diferentes olhares sobre obras de artes enriquecem nosso conhecimento. Senti como uma atividade interdisciplinar (Educador(a) 7 – Questionário).
Optou-se por realizar uma investigação qualitativa de natureza exploratória. Bogdan e Biklen (1994) consideram
[...] a expressão investigação qualitativa como um termo genérico que agrupa diversas estratégias de investigação que partilham determinadas características. Os dados recolhidos são designados qualitativos, o que significa ricos em pormenores descritivos relativamente a pessoas, locais e conversas, e de complexo tratamento estatístico (p. 16).
Bogdan e Biklen (1994) apontam cinco características que são pontos comuns às investigações qualitativas em educação:
1) “Na investigação qualitativa a fonte directa de dados é o ambiente natural,
constituindo o investigador o instrumento principal” (p. 47, grifo do autor e da autora). Conforme relatado, embora não se pretendesse estudar a formação continuada em sua essência, foi a partir dela que a pesquisadora pôde compreender o contexto em que atuam esses(as) educadores(as) – quais as necessidades de se utilizar e como utilizam as imagens em suas práticas.
2) “A investigação qualitativa é descritiva. Os dados recolhidos são em forma de palavras ou imagens e não de números” (p. 47, grifo do autor e da autora). Após a obtenção da autorização do Comitê de Ética, foram utilizados os seguintes instrumentos para a obtenção de dados: relatos de observações dos encontros formativos – em que se realizaram estudos e reflexões compartilhados entre todos(as) –, questionários respondidos por todos(as) os(as) 31 participantes e algumas entrevistas individuais, com base em um roteiro semiestruturado, cedidas por sete dos(as) participantes. Como sugerem o autor e a autora, nada foi considerado trivial, pois cada informação poderia contribuir para a compreensão do objetivo proposto para o estudo.
3) “Os investigadores qualitativos interessam-se mais pelo processo do que
simplesmente pelos resultados ou produtos” (p. 49, grifo do autor e da autora). Essa ênfase
qualitativa permitiu focar as definições que os(as) educadores(as) participantes da pesquisa tinham a respeito da importância da cultura visual em espaços escolares, das possibilidades de reflexões críticas a partir das imagens da cultura visual e de uso dessas imagens em diferentes tempos e espaços pedagógicos. As questões estavam pautadas na compreensão dos processos, em como esses(as) educadores(as) negociavam os significados dessas possibilidades.
4) “Os investigadores qualitativos tendem a analisar os seus dados de forma
indutiva” (p. 50, grifo do autor e da autora). Procurou-se desenvolver a teoria, como o autor e a autora apontam, de “baixo para cima” (p. 50), inter-relacionando as várias informações individuais que foram recolhidas de forma que se fosse construindo um quadro a partir delas.
5) “O significado é de importância vital na abordagem qualitativa” (p. 50, grifo do autor e da autora). Procurou-se estabelecer estratégias e procedimentos que permitissem considerar o modo como o(a) informante interpreta as experiências e os seus pontos de vista. Por isso, optou-se por realizar também as entrevistas individuais, que foram utilizadas com o intuito de “recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 134).
Ao mesmo tempo em que a formação propiciou um vínculo de confiança com os sujeitos participantes da pesquisa, houve uma preocupação inicial com relação ao envolvimento da pesquisadora. A esse respeito Bogdan e Biklen (1994) classificam como ideal a participação do(a) observador(a) que se situaria entre o(a) observador(a) completo(a), aquele(a) que “não participa em nenhuma das atividades do local onde decorre o estudo” (p. 125), e o seu extremo oposto “o(a) observador(a) que tem um envolvimento completo com a instituição, existindo apenas uma pequena diferença discernível entre os seus comportamentos e os do sujeito” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 125).
Durante as aulas dialogadas e nas rodas de conversa, a pesquisadora incentivou os(as) educadores(as) a refletirem sobre o sentido das imagens e fomentou discussões sobre a utilização das imagens em práticas escolares. Ao longo do curso, a sua participação se deu de forma variada: no início, foi um pouco mais comedida, com vistas a ganhar a confiabilidade de todos(as); posteriormente, foi mais intensa, ao passo que as relações se desenvolveram e os laços se estreitaram.
2.2 Curso de formação continuada: “Leitura de Imagens nos Ensinos Fundamental e