Merleau-Ponty não se limita a utilizar a ciência como fonte de dados para sua reflexão indireta acerca do ser. No curso “A filosofia hoje” (1958-1959), ministrado entre o segundo e o terceiro cursos sobre a natureza, o filósofo investiga outros empreendimentos culturais (arte, psicanálise) e mesmo fatos históricos, a fim de obter mais dados para a caracterização do ser primordial. Assim, não só os resultados científicos sugerem uma renovação da ontologia, mas também o movimento da história e da cultura em geral. No curso de 1958-1959, Merleau-Ponty almeja dar “existência oficial” (NC, 37) a um tipo de ser que escapa às categorias tradicionais da filosofia (tais como matéria, espírito, objeto e sujeito), mas com o qual manteríamos contato indireto, “por nossa ciência e nossa vida privada e pública” (Ibid.). Trata-se aqui de reafirmar a
8 “Essa razão física abunda em paradoxos, e se destrói, por exemplo, quando ela ensina que meu presente
é simultâneo com o futuro de um outro observador bastante afastado de mim, e assim arruína o próprio sentido de futuro” (S, 248).
perspectiva filosófica de renovação das categorias mais gerais pelas quais nos referimos à realidade, perspectiva já assumida desde A Estrutura do Comportamento (conforme apontamos na primeira seção deste capítulo). Porém, em sua fase madura, essa perspectiva não se realiza por um apelo ao campo fenomenal, tal como a
Fenomenologia da Percepção propunha, mas pela investigação de diversas áreas da
cultura.
Vejamos com mais detalhe o potencial de renovação ontológica contido em três temas históricos, conforme apresentado no curso “A filosofia hoje”:
1) Crise na avaliação marxista dos conflitos humanos: Merleau-Ponty busca avaliar criticamente a tese marxista de que a sociedade capitalista é entrecortada por contradições que só seriam superadas por uma revolução comunista. Para tanto, analisa diretamente a obra de Marx. Segundo Merleau-Ponty, Marx ainda se fiaria num princípio clássico de universalidade racional, exprimido na crença em uma sociedade
sem divisão de classes. Tal sociedade seria realizada por uma classe social com
potencial universalizante, “liberada em potência de todas as contradições” (NC, 40), a saber, o proletariado. Para Merleau-Ponty, essa idéia de uma sociedade sem contradições é abalada por alguns fatos históricos. Nos países em que ocorreu, a revolução comunista, que deveria justamente produzir tal sociedade universalista, instaurou sistemas sociais totalitários, em que a elite militar, repleta de privilégios, reproduzia os vícios sectaristas da sociedade burguesa. Por sua vez, nos países altamente industrializados (onde, conforme a teoria marxista, a revolução, com maior probabilidade, ocorreria), o proletariado passa a defender interesses particulares e se afasta do ideal universalista. Esses fatos impõem a seguinte questão: “saber se há mesmo de direito compossibilidade dos homens – possibilidade de uma sociedade orgânica” (Ibid.). A análise marxista do problema histórico-social humano apontava para uma civilização mundial comunista como solução para os conflitos capitalistas. No entanto, o movimento da história revela o caráter contingente de tal proposta, a qual não conseguiu se firmar. Decorre daí uma crise da compreensão marxista do convívio humano, crise que exige uma renovação conceitual sobre a história e as sociedades humanas.
A análise exposta no parágrafo anterior reflete os resultados da longa meditação
política de Merleau-Ponty, a qual, como vemos, também se torna estímulo para a
interrogação ontológica. De início, nos anos quarenta, o filósofo defendera um marxismo filtrado pela fenomenologia, o qual ofereceria um estudo concreto da história
126 (Cf. PhP, 200). Merleau-Ponty acreditava que o marxismo ampliava significativamente os estudos sobre as instituições sociais ao revelar as relações sobre as quais a coexistência social efetivamente se sustenta. Essas relações seriam de ordem econômica, a qual não deve ser compreendida como uma infra-estrutura separada das demais dimensões da existência humana, mas como um nível das relações humanas em que o caráter exploratório ou emancipador das sociedades se cristaliza de maneira visível. As relações econômicas revelam as estruturas de uma sociedade mais do que sua legislação formal, assim como “se conhece melhor um homem por sua conduta que por seus pensamentos” (SnS, 131). Mas o privilégio da ordem econômica no marxismo é interpretado por Merleau-Ponty apenas como um privilégio epistemológico. De modo algum os temas econômicos constituem, nessa interpretação, algum substrato
ontológico das sociedades humanas, do qual se poderia deduzir leis necessárias do
progresso histórico.
Ainda nos anos quarenta, em Humanismo e Terror, Merleau-Ponty avalia a
alternativa prática oferecida pelos marxistas contra os conflitos da sociedade
capitalista, a saber, o uso da violência revolucionária, cuja legitimidade seria dada por sua meta: a instauração de uma humanidade livre das contradições sociais (Cf. HT, 205). Merleau-Ponty reconhece o risco de essa violência tornar-se um recurso exageradamente habitual para os comunistas, os quais, em nome da nova humanidade, usariam dela para aniquilar divergências políticas, tal como o filósofo já vislumbrava na sociedade soviética. No entanto, nessa época, o possível fracasso do comunismo soviético não implicava, para Merleau-Ponty, nenhum abalo na doutrina marxista em geral. Afinal, tal comunismo teria sido realizado sem respeitar as condições enunciadas por tal doutrina10, de maneira que suas conseqüências não serviriam para refutá-la.
Já em textos posteriores de Merleau-Ponty, o fato de que o comunismo real, tal como configurado na Rússia ou China, tenha divergido consideravelmente daquele previsto pela teoria marxista não serve mais de pretexto para isentar essa última das distorções sociais encontradas nesses sistemas políticos empíricos. Na verdade, Merleau-Ponty censura a doutrina marxista por não prever aquele tipo de deturpação feita em seu próprio nome, a saber, a cristalização de um estado intermediário entre a sociedade capitalista e a comunista, em que alguns vícios da primeira persistiam sob a miragem da segunda (Cf. AD, 125, epílogo).
10 A revolução deveria ser organizada pelo proletariado de sociedades altamente industrializadas, cláusula
Essa negligência do marxismo, avalia Merleau-Ponty no curso “Filosofia e não
filosofia a partir de Hegel” (1960-1961), se explicaria por alguns dos pressupostos ontológicos vigentes já na obra de seu inventor, o próprio Marx.. A doutrina do jovem Marx não reduz os seres humanos a substâncias com atributos positivamente determináveis, mas reconhece neles múltiplas possibilidades de se desenvolverem conforme as diferentes relações estabelecidas com a natureza e conforme a instituição de uma história em princípio indeterminada (Cf. NC, 346). Não haveria, assim, uma natureza humana que pudesse ser positivamente descrita. Eis um dos princípios básicos da dialética de Marx: recusa de definições determinadas em favor da descrição de relações opositivas dinâmicas entre os temas estudados. Não seria possível, segundo a dialética, oferecer uma definição tal do ser humano da qual decorresse necessariamente o curso da história, por exemplo. A subjetividade humana e a história se determinam reciprocamente e cabe à reflexão dialética explicitar as cristalizações parciais de ambas e as passagens entre os diversos períodos históricos correlacionados a determinadas formas de subjetivação.
No entanto, Merleau-Ponty julga que as concepções tardias de Marx supõem uma idéia positiva de natureza humana, a qual se realizaria plenamente quando da instauração do comunismo (Cf, NC, 350). Desse modo, a caracterização negativa da subjetividade seria apenas um preâmbulo circunstancial (dada a ausência factual do comunismo) para a verdadeira exposição dos atributos constituintes da natureza humana. A proposta prática de Marx, a revolução, seria o meio para a completa explicitação dessa natureza humana positiva, que subjazeria à negatividade dialética (a qual seria somente efeito das condições materiais capitalistas). Dessa maneira, a concepção tardia de Marx associa a revolução à realização de um estado em que a natureza humana se afirmaria plenamente, e subestima, assim, a imprevisibilidade
histórica dos movimentos revolucionários, os quais factualmente tenderam a consolidar Estados totalitários, em que sob a roupagem comunista vigoram as contradições
capitalistas.
A fim de sanar a incapacidade marxista de prever esse risco inerente às revoluções (incapacidade fundada em uma concepção ontológica, presente já no próprio Marx, a qual descreve a natureza humana como livre de contradições), Merleau-Ponty já sugeria em Os papéis de Yalta (texto de 1955), que, para ser coerente com seus princípios dialéticos, um marxismo rigoroso não favorece a crença no fim das contradições sociais. Afinal, tal crença supõe aceitar uma noção positiva de natureza
128 humana, a qual o próprio método dialético rejeita. No entanto, Merleau-Ponty admite que, com tal mudança, o marxismo “se transforma em outra filosofia” (S, 345), na qual não é óbvio nem mesmo se o próprio Marx se reconheceria. Em As Aventuras da
Dialética, Merleau-Ponty aponta para uma filosofia interrogativa da história, a qual, ao
recusar uma descrição direta da suposta natureza humana realizada, exprimiria esse marxismo renovado. Tal filosofia deveria reconhecer o caráter contingente das mudanças históricas e questionar, tal como o curso “A filosofia hoje” explicita, se a condição humana permite uma boa solução para os problemas advindos do convívio social. Esse questionamento contém ressonâncias ontológicas, uma vez que as categorias pelas quais tradicionalmente se compreende a intersubjetividade e as relações com o meio devem ser, por meio dele, renovadas (Cf. AD, 128, 132).
2) Crise nas relações dos seres humanos com a natureza (o micro-mundo): para Merleau-Ponty a distinção entre objeto natural e artefato é embaralhada na ciência contemporânea. No nível subatômico, os fenômenos não são simplesmente verificados, mas produzidos por complexos aparelhos. Revela-se assim uma ambigüidade entre forças naturais e culturais. Tome-se como exemplo a energia atômica transformada em artefato bélico. Essa energia, embora inobservável, compõe o mundo tal como o conhecemos, e poderia mesmo ser usada para destruí-lo (Cf. NC, 42). No entanto, deve- se considerar que a aniquilação da humanidade por essa energia natural só se torna possível pela domesticação técnica dos seus poderes. Dessa maneira, as forças naturais parecem condicionadas pelos recursos culturais. Para Merleau-Ponty, esse exemplo ilustra a situação geral da ciência física: muitos dos seus objetos não são simplesmente encontrados no mundo, mas derivados das teorias aplicadas. A natureza estudada pelas ciências e apresentada como objetiva é, assim, construída historicamente com a ajuda das técnicas de observação e manipulação disponíveis. Essa ambigüidade, julga Merleau-Ponty, abre a possibilidade de formular uma noção não objetivista de natureza.
3) Crise nas relações entre os seres humanos e a natureza (o macro-mundo): a exploração técnica do espaço sideral abre a possibilidade, ainda remota é verdade, de colonizar outros planetas. A Terra perderia, assim, o privilégio de solo da experiência humana (Cf. NC, 44), já que o desenvolvimento das civilizações humanas na Terra se mostraria um fato contingente, que poderia ser reproduzido em planetas com condições semelhantes. Em contraste com essa relativização da Terra como base necessária para a
vida humana, Merleau-Ponty considera que o possível acesso técnico a outros planetas e civilizações não abala o caráter central da Terra para a existência humana, mas somente
o estende a todos os outros planetas colonizáveis. Haveria assim algo como um estilo terreno de existência que seria levado aos demais planetas (Cf. NC, 45)11. No entanto, de maneira geral, Merleau-Ponty reconhece que a exploração técnica do espaço fomenta o questionamento ontológico acerca da pretensa singularidade da vida humana e das possibilidades disponíveis a ela no universo físico.
Análise da arte e da psicanálise
Não só o movimento histórico e o impacto factual das técnicas científicas sugerem a renovação dos parâmetros ontológicos clássicos. Além desses temas, Merleau-Ponty, em “A filosofia hoje”, explora quatro fenômenos culturais, que, por meio de seu caráter intrinsecamente renovador, permitem vislumbrar certos aspectos das relações gerais entre sujeitos e mundo que não são devidamente tratados pelas ontologias clássicas e que fomentam, assim, uma profunda renovação conceitual.
a) Literatura: Merleau-Ponty inicia sua exposição pela poesia contemporânea. Por meio de recursos expressivos aparentados, Mallarmé e Rimbaud ultrapassam a distinção clara entre aspecto subjetivo (a significação) e objetivo (o significado visado) da enunciação. Mallarmé, por exemplo, concebe o significado como circunscrito pelos sons da significação que o enuncia. Assim, as palavras não são mero veículo para se dirigir a objetos autônomos, mas condicionantes do modo como os próprios referentes são determinados. E a poesia, ao jogar com as possibilidades sonoras do idioma em que é produzida, funda uma nova maneira de discriminar os componentes do mundo (Cf. NC, 47). Rimbaud, por sua vez, também teria reconhecido uma unidade primordial entre som e sentido e, dessa maneira, desvelado pela poesia uma camada de experiências que não pode ser adequadamente reconhecida de maneira prévia à sua denominação poética. Desse modo, a compreensão tradicional do sentido (referência a um mundo pré- ordenado) entra em crise ante a experiência poética contemporânea. Porém, alerta Merleau-Ponty, os poetas contemporâneos correm o risco de, em vez de fomentar uma nova compreensão da expressividade lingüística, aprofundarem a crise gerada pelo abalo da concepção clássica de sentido. Buscando romper com o modo tradicional de
11 Merleau-Ponty retoma, assim, a posição defendida por Husserl em Umsturz der kopernikanischen
Lehre: die Erde als Urarche bewegt sich nicht. In: M. Farber (org.), Philosophical Essays in Memory of Edmund Husserl, Cambridge: Harvard U.P., 1940.
130 conceber a referência ao mundo, os poetas podem se limitar à obsessão por invenções léxico-gramaticais, as quais os tornam incapazes de comunicar para além de um restrito círculo de escritores vanguardistas (Cf. NC, 47). Assim, se é verdade que Merleau- Ponty toma a crise da noção tradicional de sentido como ocasião para uma renovação das categorias ontológicas, o filósofo também avalia lucidamente os riscos que a decomposição das categorias clássicas gera.
Em relação à prosa, Merleau-Ponty nota que os autores contemporâneos romperam com a distinção clássica entre ponto de vista objetivo e subjetivo. Assim, muitos romances do século vinte exprimem uma implicação mútua entre o eu, os outros e o mundo, e, dessa forma, põem em questão a concepção de sujeito como ente separado do meio em que existe (Cf. NC, 48-50).
b) Pintura: segundo Merleau-Ponty, a pintura moderna12, assim como a literatura, abala a concepção tradicional de expressividade artística. Os quadros clássicos (século XVI-XVII) eram considerados, por autores e teóricos daquela época, uma representação da realidade, uma imitação daquilo que a percepção normal ofereceria (Cf. NC, 50). Por meio de recursos expressivos tais como a perspectiva planimétrica, muitos artistas clássicos pensavam reconstituir os elementos sensíveis de maneira reconhecível por todo aparelho perceptivo, e, assim, comunicar universalmente o conteúdo representado pelos quadros.
Já os artistas modernos reconhecem que a natureza só pode ser figurada como “produto sedimentado [pela] cultura” (NC, 51), e rejeitam o projeto de uma representação objetiva do mundo. Os recursos expressivos, tais como a perspectiva planimétrica, não são mais concebidos como procedimentos para ordenar os elementos sensíveis como signos universalmente reconhecíveis de uma realidade plenamente determinada. Tais recursos são tomados como técnicas culturalmente desenvolvidas que extraem diferentes aspectos de uma espacialidade polimorfa, cujas possibilidades internas não se esgotam segundo sua representação por uma ou outra técnica em particular. A compreensão moderna da relação entre as linhas pelas quais se desenha e a
tela, suporte das linhas, exemplifica a nova concepção de pintura a que Merleau-Ponty
se refere. De modo geral, os pintores modernos partem de linhas coloridas como
12 Entendemos por pintura moderna aquela praticada pelo último Cézanne, por Matisse, por Klee e por
outros que, como esses, valorizaram os elementos básicos da pintura (linhas, cores, etc), e não apenas seu caráter representativo.
princípio gerador do tema a ser pintado. Essas linhas iniciais funcionam como uma
deformação em um campo homogêneo, a qual gera tensões perceptivas, que, para serem solucionadas, exigem que se avance coerentemente na pintura até que se encontre o equilíbrio. Por sua vez, esse equilíbrio final não exprime necessariamente a representação fiel de um referente, mas, antes, a relação das possibilidades perceptivo- motoras do pintor com a tela. Não se trata, assim, na pintura contemporânea, de apresentar uma cópia do mundo, mas de compor um mundo-para-si (Cf. NC, 52), ou seja, de tornar as tensões pelas quais a pintura ocorre o tema das próprias pinturas. Por conseguinte, na arte moderna, a explicitação dos referentes escolhidos como temas das pinturas é indireta, já que mediada pela tematização do campo de possibilidades motoras e perceptivas do pintor.
Merleau-Ponty julga que a arte moderna não pretende retratar fielmente uma pretensa realidade objetiva, mas interrogar os elementos pelos quais a própria pintura se faz. Um problema decorrente de sua interpretação é explicar como as pinturas, elaboradas conforme deformações coerentes pelas quais cada artista se relaciona com seu meio, podem comunicar um conteúdo válido para outros sujeitos e almejar um valor universal no sistema da cultura. A interpretação clássica da pintura respondia facilmente ao problema do valor intersubjetivo das obras: cada pintura pretende reproduzir o mundo objetivo, o qual seria percebido de maneira homogênea por todos os sujeitos de constituição psicofísica semelhante. Assim, a pintura bem sucedida apenas reproduziria os signos sensíveis que ativam a capacidade universal de perceber a natureza verdadeira. Porém, no caso da pintura moderna, tal como interpretada por Merleau- Ponty, as obras não são mais concebidas como reprodução de situações reconhecíveis de imediato por todos os sujeitos, mas como expressão do contato particular do pintor com o mundo. Como o sentido exprimido por tal contato pode ser efetivamente comunicado?
No decorrer de sua obra, Merleau-Ponty oferece respostas diferentes a esse problema. Em “A dúvida de Cézanne”, texto de 1945, o artista é apresentado como alguém que retoma todos os acidentes constitutivos de sua existência empírica e se serve deles como instrumentos para produzir uma obra que exprima o caráter único de sua situação no mundo. A obra de arte é formada, assim, pelos gestos livres de uma subjetividade que tenta ordenar e direcionar os atributos contingentes da sua vida. Não há nenhuma garantia de que o produto de tais esforços, que busca transcender os acidentes da história individual, exceda tal base e seja reconhecido como obra de
132 intrínseco valor histórico-cultural. Todas as pinturas portam igualmente a possibilidade de comunicar seu sentido para outros sujeitos. Porém, aquelas que o conseguem dependem da apreciação do público para tanto13.
Já no início dos anos cinqüenta, Merleau-Ponty concebe uma nova resposta ao problema da comunicabilidade do sentido artístico14. A obra artística não seria mais fruto de gestos motivados somente pela esfera privada da liberdade, pelos quais cada artista, isoladamente, exprimiria sua situação mundana. Em “A linguagem indireta e as vozes do silêncio”, texto publicado em 1952, Merleau-Ponty considera que a criação artística, pela qual o sujeito exprime as singularidades da sua existência, encontra-se enraizada em uma universalidade prévia. Ao pintar, o artista parte de sua situação contingente, mas ele o faz segundo as técnicas e os procedimentos sedimentados pelo contexto cultural. Há, assim, um estado geral da cultura que delimita as possibilidades expressivas e mesmo direciona as inovações que podem ser realizadas. Desse modo, a experiência subjetiva da criação revela um vir-a-ser do próprio sentido pictórico e se insere em uma história que em muito a excede15.
As obras artísticas, considera Merleau-Ponty em 1952, não são criações contingentes que podem ou não se sedimentar como bens culturais segundo as veleidades dos apreciadores, mas manifestações de possibilidades inseridas no campo cultural previamente partilhado por artistas e espectadores. Assim concebidas, as obras não dependem mais da “complacência do público” (S, 92) para comunicar seu sentido. O artista explicita e resolve tensões internas ao campo geral da cultura; ao realizar sua obra, ele retoma e faz avançar uma história que forra o seu próprio ato criador. Desse modo, as obras de arte não são resultados contingentes de liberdades isoladas, mas expressão e modificação do estado geral da própria arte, e, dessa maneira comunicam seu sentido e se instauram como patrimônio humano. Ainda que não compreendidas de imediato, as obras se inserem de tal modo no movimento histórico da arte que suscitam