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“Creio que o verbo aqui a aplicar é o verbo estar: a pessoa está escritor, não é escritor –

está escritor no sentido em que mantém uma relação com a vida que passa por essa necessidade imperiosa de escrever, de comunicar pela escrita; (...)”

Mia Couto1

Nascido, em 5 de Julho de 1955, António Emílio Leite Couto, filho de Maria de Jesus e de Fernando Couto, Mia Couto, nome que inventou para si próprio quando tinha dois para três anos2, contacta desde muito cedo, na sua cidade natal da Beira3, com as realidades que, anos mais tarde, constituirão temas recorrentes da sua escrita: o colonialismo, a relação entre culturas e o imaginário popular tradicional.

Com o pai, poeta, jornalista e divulgador cultural, Mia Couto, nas palavras de Fernanda Cavacas, “vai aprender a relatividade das coisas e o segredo escondido na aparência enganadora do real, o sonho e o sentimento de dúvida como forma de alicerçar certezas na vida e na crença no Homem”4, para além de estabelecer os primeiros laços com o mundo dos livros e da escrita5.

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LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1021.

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SEIXAS, Maria João. “Conversa com vista para... Mia Couto”. In Pública (02-01-2000). 3

Sobre as suas memórias da Beira, vide COUTO, Mia. “Águas do meu princípio”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, pp.145-154.

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CAVACAS, Fernanda Maria. Mia Couto: Um Moçambicano que Diz Moçambique em Português. Tese de Doutoramento em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2002, p.89.

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Mia Couto fala da influência do pai, Fernando Couto, sobre a sua formação enquanto homem e enquanto escritor em entrevista concedida a Nelson Saúte (SAÚTE, Nelson. Os Habitantes da Memória. Entrevistas com Escritores Moçambicanos. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.225.).

Já com a mãe, Mia parece ter aprendido, sobretudo, o poder da imaginação e dos saberes tradicionais, o que leva Fernanda Cavacas a apontá-la como “a força geradora da criatividade coutista”67.

A sua infância é passada num ambiente de grande liberdade, num contacto muito próximo com a rua, permitido pela pacatez de uma cidade provinciana como era a Beira de então8, o que lhe proporcionou um contacto privilegiado com contextos sociais e culturais muito distintos: na escola e em casa, um mundo marcadamente europeu; na rua e nos bairros de caniço, o contacto com negros, indianos, chineses9, e desta convivência com o diferente nasce uma “consciencialização sociopolítica que vai orientar o jovem Mia na participação activa da construção de uma sociedade livre e mais justa para Moçambique e na aceitação plena dos modos de ser e estar de cada um dos grupos étnicos que compõem o mosaico cultural moçambicano.”10

A Beira onde nasceu e viveu até 1971 era uma cidade profundamente segregacionista11, facto que cedo despertou Mia Couto para as problemáticas do colonialismo e das relações entre as raças e as culturas. Mia, apesar de branco filho de colonos, não deixa de contactar de forma muito próxima com a população negra que vivia, como ele afirma, “do outro lado da rua”12, nas casas de caniço que sobreviviam ao

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CAVACAS, Fernanda Maria. Mia Couto: Um Moçambicano que Diz Moçambique em Português. Tese de Doutoramento em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2002, p.90.

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Em entrevista a Fernanda Pratas, Mia Couto refere a importância dos pais na sua capacidade de cruzar com sucesso a escrita e a oralidade: “(...) eu acho que sou filho de um cruzamento feliz. O meu pai é poeta, um homem da escrita, profundamente urbano; a minha mãe, transmontana, é uma pessoa do universo da oralidade, com uma grande riqueza do ponto de vista da capacidade de contar histórias.” (PRATAS, Fernanda. “Entrevista: Mia Couto”. In Revista Ler. Livros e Leitores, nº55 (Verão 2002), p.53.)

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A propósito da Beira, recorda Mia Couto: “A minha terra natal era um lugar acanhado, onde o mundo chegava em segunda mão.” (COUTO, Mia. “Águas do meu princípio”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, p.146.)

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É Mia Couto quem refere este contacto com culturas múltiplas, ao afirmar: “Na rua começava a África, em casa estava a Europa.” (CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p.276.)

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CAVACAS, Fernanda Maria. Mia Couto: Um Moçambicano que Diz Moçambique em Português. Tese de Doutoramento em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2002, p.92.

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Num depoimento registado por Patrick Chabal, Mia recorda: “Era um ambiente muito racista, ao mesmo tempo que sucedia este contacto, ou talvez até por causa disso mesmo. Os brancos da Beira eram profundamente racistas. Quando eu saí da Beira para Lourenço Marques, em 1971, parecia-me que estava noutro país, porque na Beira havia quase apartheid em certas coisas. Não podiam entrar negros nos autocarros, só no banco de trás... Enfim, era muito agressivo. No Carnaval os filhos dos brancos vinham com paus e correntes bater nos negros...” (CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p.276.)

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alargamento da cidade de cimento13. Desse contacto guarda, ainda hoje, a referência, nomeadamente das histórias que os velhos que moravam perto da sua residência lhe contavam, plenas de encantamento.

Em 197114, parte para Lourenço Marques para cursar Medicina na universidade local. Mas rapidamente os estudos são ultrapassados pelo fervilhar revolucionário que então se vivia e em que Mia Couto se envolve de alma e coração. Em 1974, adere à FRELIMO e troca definitivamente o curso de Medicina pela actividade de jornalista, que deveria durar um ano mas se prolongou por catorze, o que lhe proporcionou não só o contacto com uma nação que se ia construindo, mas também com a própria população, que aprende a observar e compreender. Passou, durante esse tempo, pela Tribuna, pela Agência de Informação Nacional, de que foi o director, pela revista Tempo e pelo jornal Notícias, de onde se demite em 1985, por não concordar com a linha editorial:

“Então pedi a demissão. Não gostava daquele jornalismo. Não era a militância, era a falta de lógica. Um dia as coisas eram assim, no outro dia já não eram assim... um dia devíamos fazer um editorial contra o apartheid, no outro dia era... «por que é que fizeram o artigo contra o apartheid? Agora há lá uma comissão nossa...» A gente nunca percebia... Durante o primeiro tempo havia uma integração, os directores dos jornais, dos órgãos de informação, participavam nas reuniões do comité central, conselho de ministros, e estavam dentro da situação.”15

Apesar de o seu trabalho como jornalista se inserir no movimento nacionalista que servia os interesses do poder, começam já a surgir, nas crónicas que escrevia no jornal

Notícias, as primeiras notas dissonantes de um unanimismo militante e as primeiras

manifestações de inovação linguística e temática:

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Mia recorda a tensão permanente entre estes dois mundos: “Os colonos bem desejavam empurrar os africanos para longe. Mas os negros ficavam sempre ali, do outro lado da rua. A minha cidade estava condenada a ser lugar de fronteira – entre o mar e o continente, entre a Europa e a África, entre o catolicismo e a religião dos antepassados.” (COUTO, Mia. “Águas do meu princípio”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, p.150.)

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No depoimento concedido a Patrick Chabal, Mia Couto diz que foi para Lourenço Marques em 1971 (CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p.276.), mas numa entrevista concedida a Michel Laban afirma que partiu para Lourenço Marques em 1972 (LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1008.).

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“A missão de jornalista foi-lhe permitindo conhecer o país, assim como as suas gentes, fora do reduto das grandes cidades em que crescera. Porém confessa- nos que, a partir de certo momento, deixa de aceitar o jornalismo convencional e precisa de se afastar oficialmente, para demonstrar que nem só a reportagem e a notícia são informação.

(...)

Segundo ele próprio nos confessa, o jornalista Mia Couto passa por um processo de repúdio afectivo pela informação obediente ao modelo clássico e objectivo da notícia, processo esse que dá lugar ao desejo de um outro tipo de comunicação jornalística.

Lança-se, então, num jornalismo em que comunica, realmente, com o leitor moçambicano, na sua verdade psicológica que as andanças jornalísticas lhe tinham permitido observar nas suas mais profundas manifestações.”1617

Em 1983, publica o seu primeiro livro, a colectânea de poemas Raiz de Orvalho, que, com o seu lirismo intimista, recusavam já a “concepção funcionária da arte”18, isto é, o carácter empenhado e panfletário da literatura que se fazia em Moçambique19.

Mil novecentos e oitenta e cinco é o ano do regresso à universidade, desta feita para cursar Biologia20. Um ano mais tarde publica Vozes Anoitecidas (VA), colectânea de oito

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ANGIUS, Fernanda e ANGIUS, Matteo. O Desanoitecer da Palavra. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, pp.26-27.

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A atitude de Mia Couto em relação ao jornalismo é algo ambígua, pois, se, por um lado, ele lhe permite estar “próximo da vida, dos lugares onde ela acontece”, por outro lado, não promove uma análise aprofundada desses acontecimentos, nem se apercebe que é precisamente nos lugares que não são notícia, “onde ocorrem vagarosos silêncios”, que a vida, de facto, acontece. (Vide SAÚTE, Nelson. Os Habitantes da Memória. Entrevistas com Escritores Moçambicanos. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.227.)

18

SAÚTE, Nelson. Os Habitantes da Memória. Entrevistas com Escritores Moçambicanos. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.226.

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Sobre Raiz de Orvalho, Mia Couto afirma: “ Depois, em 83, publiquei o meu primeiro livro. Como uma espécie de contestação contra o domínio absoluto da poesia militante, panfletária. Para se ser revolucionário era preciso falar de marxismo, nos operários, e eu resolvi fazer um livro de poesia íntima, intimista, lírico.” (CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, pp.286-287.) O escritor reafirma esta ideia em entrevista concedida a Michel Laban e inserta na obra Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1000.

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Fernanda Cavacas estabelece uma relação íntima entre as actividades desenvolvidas por Mia Couto como biólogo e a sua produção literária: “Aliás, é como biólogo que ele contacta populações e (re)aprende a genuinidade de comunidades não urbanas que ainda vivem segundo as tradições dos antepassados e delas lhe vão dando conta. É um movimento circular este: o escritor «alimenta-se» das vivências do biólogo e o biólogo prepara-se para novas vivências através da imaginação do escritor.” (CAVACAS, Fernanda Maria. Mia Couto: Um Moçambicano que Diz Moçambique em Português. Tese de Doutoramento em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2002, p.107.)

contos21 que marcou em absoluto um momento de mudança na literatura moçambicana, apesar de ter gerado grande polémica, nomeadamente pela inventividade linguística.

“Depois, em 85, comecei a ouvir umas histórias que vinham ligadas à guerra, como aquela história da baleia no «As baleias de Quissico»... e pensei que havia de haver uma maneira de contar aquelas histórias, mantendo a graça e a agilidade das pessoas que mas contavam e publiquei numa revista esses primeiros contos. As pessoas encorajaram-me bastante, dizendo que eu afinal era mais um contista do que um poeta22. E então continuei assim a fazer algumas histórias.”2324

Abre-se, então, a literatura a essas vozes anoitecidas, vozes de sangue numa nação dilacerada pela guerra que mata o sonho mas que não eliminou a ancestral prática de

O próprio Mia referira já, numa entrevista concedida a Michel Laban, que uma das razões que o haviam levado a escolher o curso de Biologia fora precisamente a possibilidade que ele lhe oferecia de trabalhar nas zonas rurais onde poderia recolher inspiração e elementos para as suas histórias. (LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1032.)

Em Setembro de 2004, numa comunicação apresentada no I Encontro de Biólogos da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, Mia Couto volta a referir a importância que a Biologia tem assumido no seu percurso como escritor: “Esta nossa ciência me ajudou a entender outras linguagens, a fala das árvores, a fala dos que não falam. A Biologia me serviu de ponte para outros saberes. Com ela entendi a Vida como uma história, uma narrativa perpétua que se escreve não em letras mas em vidas.

A Biologia me alimentou a escrita literária como se fosse um desses velhos contadores não de histórias mas de sabedorias. E reconheci lições que já nos tinham sido passadas quando ainda não tínhamos sido dados à luz.” (COUTO, Mia. “Os sete pecados de uma ciência pura”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, pp.123-124.)

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Da edição moçambicana constam oito contos. A edição portuguesa, no entanto, inclui mais quatro contos. 22

Mia Couto recusa esta distinção e classificação do seu trabalho: “Eu não gosto de me classificar como escritor porque qualquer dessas classificações cortam as outras ligações.” (CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p.287.); “Não aceito muito bem a fronteira de géneros. Eu sou da poesia.”(GOMES, Kathleen. “Eu sou da poesia.”. In Público (20-11-1999), Leituras, p.5.); “(...) nem sequer acredito na fronteira entre poesia e prosa.” (SAÚTE, Nelson. Os Habitantes da Memória. Entrevistas com Escritores Moçambicanos. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.228.); “Provavelmente eu poderei regressar à poesia, ou me manter na prosa – embora não goste desta divisão, muito arbitrária, entre prosa e poesia; há poesia em verso e poesia em prosa. Da mesma maneira que me atrai estar a trabalhar na desobediência da norma, também, eventualmente, me atrai trabalhar na desobediência dos géneros literários.” (LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1021.)

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CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas. Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Vega, 1994, p.287. 24

De certa forma, Mia Couto justifica a sua viragem para a prosa pela necessidade de “procurar o país real, esgravatar no chão do quotidiano e talvez a prosa seja instrumento mais apropriado para essa procura.” (SAÚTE, Nelson. Os Habitantes da Memória. Entrevistas com Escritores Moçambicanos. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.228.) No entanto, não vira as costas à poesia que emerge a todo o momento nas suas narrativas, até porque, como ele afirma, “a escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo.” (COUTO, Mia. “A impotência da grande potência”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, pp.45-46.)

contar estórias intemporais em que se cruzam um imaginário povoado de maravilhoso e magia e um quotidiano feito de sabedorias outras que não as impostas pela ciência e pela tecnologia. Os doze contos que a edição portuguesa traz a lume expõem à luz do dia essas vozes que permanecem “num estado de vigília latente”, de espera nocturna por uma “madrugada que as faça despertar”25. E essa madrugada é, nas palavras de Mia Couto, constituída pelos diversos mundos que fazem a nação moçambicana, que convivem por vezes harmoniosamente, por vezes conflituosamente, “numa comunhão de diferentes tempos, de diferentes séculos”. Desse convívio vai nascer o “desanoitecer”26 destas vozes que vivem uma letargia temporária, ditada pelas circunstâncias, de que só podem despertar pela “via da poesia, da recriação literária.”27

E esse convívio, essa comunhão vai nascer da fusão entre a oralidade e a escrita, entre a tradição africana e os valores ocidentais que se configuram, em Vozes Anoitecidas, no próprio discurso narrativo pelo cruzamento de várias vozes: a do narrador e as das personagens, que partilham a autoria do que é narrado, pois, como afirma Mia Couto, no “Texto de abertura”, o seu processo de criação literária nasce das vozes que se escutam e que se trabalham na ficção:

“Estas histórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever. A umas e a outras dedico este desejo de contar e de inventar.” (VA, p.19)

Não admira, por isso, que o discurso do narrador e as falas das personagens se fundam, formando, como afirma Maria Lúcia Lepecki, uma “superfície contínua” e “uma amálgama” em que “todas as vozes se juntam numa só e partilham a experiência do contar

25

LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1017.

26

Fernanda e Matteo Angius apontam como principal objectivo da obra de Mia Couto, “o desanoitecer da palavra que, trazida à luz do dia, passe a colocar em cena os protagonistas de uma História – a de Moçambique.” (ANGIUS, Fernanda e ANGIUS, Matteo. O Desanoitecer da Palavra. Praia – Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998, p.29.)

27

LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1017.

e do reflectir sobre o contado.”28 O narrador confere, assim, às vozes anoitecidas a visibilidade que lhes tem sido negada29 e que vai ser recuperada pela escrita. Oralidade e escrita confundem-se nestas narrativas onde, no entanto, as diferentes vozes mantêm a sua identidade, como se encontra bem patente nos comentários que o narrador vai fazendo:

“O Patanhoca foi ele que matou a china Mississe, dona da cantina de Muchatazina. Agora, a razão que lhe fez matar, não sei. Falam muita coisa, cada qual conforme. Perguntei, fui respondido. Vou contar a estória. Nem isso, pedaços de estória. Pedaços rasgados como as nossas vidas. Juntamos os bocados mas nunca completa.

Uns dizem foi ninguém que matou. Assim mesmo, morreu dentro do seu corpo, razões de sangue. Outros chegaram de ver as feridas onde o veneno deu entrada na falecida.” (“Patanhoca, o cobreiro apaixonado”, VA, p.155)

Aliás, Vozes Anoitecidas nasce da recuperação da ligação de Mia às histórias que, na sua Beira natal, lhe eram contadas “pelos velhos e pelas pessoas que pertenciam a esse mundo, que transportavam esse outro imaginário”30 que tanto o marcou31. E são essas personagens, caracterizadas pela complexidade e pela diversidade, que vão povoar os contos de Vozes Anoitecidas, marcando-os com as suas idiossincrasias, as suas concepções da vida e da morte (“A fogueira” e “Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar?”), a sua relação visceral com a terra (“De como o velho Jossias foi salvo das águas”), com a sua capacidade de, apesar de tudo, olhar para o mundo com os olhos do sonho e do sagrado (“O dia em que explodiu Mabata-bata”, “os pássaros de Deus”, “As baleias de Quissico”).

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LEPECKI, Maria Lúcia. “Mia Couto. Vozes Anoitecidas, o acordar”. In Sobreimpressões. Estudos de Literatura Portuguesa e Africana. Lisboa: Caminho, 1988, p.178.

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A propósito da condição periférica e de esquecimento a que está votada grande parte da população moçambicana, afirma Mia Couto, em comunicação de 2003: “O que se passa, e isso parece inevitável, é que estamos criando cidadanias diversas dentro de Moçambique. E existem várias categorias: há os urbanos, moradores da cidade alta, esses que foram mais vezes a Nelspruit que aos arredores da sua própria cidade. Depois, há uns que moram na periferia, os da chamada cidade baixa. E há ainda os rurais, os que são uma espécie de imagem desfocada do retrato nacional. Essa gente parece condenada a não ter rosto e a falar pela voz de outros.” ( COUTO, Mia.”A fronteira da cultura”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, p.10.) 30 LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com Escritores, Vol. III. Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 1998, p.1011.

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A propósito desses velhos contadores de histórias, diz Mia Couto: “Eles me traziam o encantamento de um momento sagrado. Filho de um poeta ateu, aquela era a minha missa, aquele era o recado do divino.” (COUTO, Mia. “Águas do meu princípio”. In Pensatempos. Lisboa: Caminho, 2005, p.150.)

O conto vai ser uma constante na obra coutista32, retomada em Cada Homem É

uma Raça (CHR) (1990), Estórias Abensonhadas (EA) (1994), Contos do Nascer da Terra

(CNT) (1997), Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos (BNE) (2001) e O Fio das

Missangas (2004), a que se acrescenta uma colectânea de crónicas – Cronicando (C)

(1991) – em que, como afirma Fernanda Cavacas, “o escritor ultrapassa largamente a crónica jornalística33 utilizando recursos literários na recriação do real de que parte na busca da estória poeticamente sentida e contada à maneira do griot africano.”34

As suas colectâneas de contos são compostas por verdadeiros frescos da realidade e do ser moçambicano, flagrantes de um quotidiano que se faz de miséria, sofrimento e

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