Diante do apontamento das similaridades entre essas duas tendências, imediatamente saltam os defensores do “capitalismo humano” para agitar suas diferenças com a “esquerda”, como se ela fosse um bloco monolítico e como se os reformistas pudes- sem ser caracterizados – no sentido marxista do termo – como tal: “Rejeitamos o fetiche estatal, de que o Estado deve ser responsável por tudo. Queremos fortalecer a ‘sociedade civil’ e organizar todos os ‘cidadãos honestos’ para, juntos, promovermos o bem comum e minimizarmos as mazelas que o Estado não pode resolver”. Do outro lado, a “esquerda” possibilista e reformista que pretende substituir o impulso à luta de classes pelos acordos de toda espécie com o mer- cado e a grande burguesia, protesta contra as tentativas de unifor- mizá-la com a “direita”: “Esta é uma postura ‘tática’, e não estratégica. É um processo de ‘acumulação de forças’. Não queremos o retorno da ‘direita reacionária’. Estas são alianças indesejáveis, mas que são necessárias para minimamente salvar os que têm fome e evitar que a classe trabalhadora sofra ainda mais com os governos dessa gente”.
É evidente que há diferenças entre ambas. Uma pretende atuar de costas para o Estado, envolvendo a “sociedade civil” em arti- culação com “empresas cidadãs”, ONGs, sindicatos patronais e até mesmo grandes organismos multilaterais, mas fazendo-o sempre “em defesa do bem comum” e visando reduzir a pobreza. A outra, não se fecha para a questão do poder e nem para os conflitos de inte- resses na sociedade, mas reduz tudo ao campo da democracia repre- sentativa e está sempre à procura de aliados burgueses supostamente táticos para, não por acaso, incorporar as demandas estratégicas do capital em troca de algumas microconcessões que igualmente “mini- mizem as mazelas sociais”.
Ocorre que ambas, cada qual em sua perspectiva, encontram- -se perfeitamente unidas naquilo que há de mais nocivo em qualquer tendência teórico-política que se postule alternativa ao fim da misé- ria, da exploração e demais expressões da questão social no capita- lismo: na proclamação da morte da luta de classes e na dissolução de estratégias que tenham como norte a conquista do poder político
para a classe trabalhadora.
A direita “altruísta” (ou mesmo a “esquerda” do “Terceiro Setor”) difunde claramente a Ideologia de que a saída para os proble- mas da sociedade é uma “união de todos” em prol do “bem comum” e contra a “ineficácia” do Estado. Desse modo, opera uma desca- racterização de classe – diluindo os explorados num espaço amorfo onde supostamente os interesses seriam gerais – e um bloqueio ao processo de transformação social, uma vez que sataniza o Estado e não organiza (ao contrário, fragmenta) os explorados para lutar pelo poder político.
A “esquerda” reformista, por sua vez, concebe o Estado no capitalismo como um espaço autônomo e susceptível à mudança de natureza a depender de quem esteja no governo de plantão. Disso decorre a estratégia de alcançar o poder político sem lutas – através de eleições e substituindo a classe operária por representantes subor- dinados ao regime da democracia representativa burguesa –, e de estabelecer pactos permanentes com a burguesia. Uma estratégia que desmobiliza a classe trabalhadora, vendendo a ideia que tal coalizão é um governo seu; que fomenta a Ideologia de que para conquistar seus objetivos os trabalhadores não precisam da luta de classes, mas fundamentalmente de acordos e ardis políticos pela superestrutura, e que, em razão de tudo isso, mantém o conjunto dos explorados total- mente circunscritos ao capitalismo, como se sua meta estratégica fosse buscar uma melhor forma de sobreviver dentro de um sistema dito insuperável.
Logo, não é por acaso que essas duas Ideologias gozem, jun- tas, de uma farta hegemonia no ideário político contemporâneo. A recusa em caracterizar os sujeitos sociais com marcas de classe, e a defesa da democracia de valor universal e suas consequências práti- cas, varreram o mundo a partir da década de 1970, intensificaram- -se nos anos 1990 e perduram até hoje como um consenso quase unânime, sem que em momento algum haja enfrentamentos entre as duas concepções.
Ao contrário, no caso brasileiro, as deformações da obra de Gramsci incorporadas integralmente pelo PT – que aplicou à risca as teses eurocomunistas – produziram “uma transmutação em uma esquerda nova ou uma esquerda para o capital” (NEVES, 2010, p. 84), que hoje inclusive difunde uma Ideologia idêntica à do “Terceiro Setor” quando reproduz a noção de que é necessário envolver a “sociedade civil” (amorfa, sem interesses antagônicos) na resolução dos problemas nacionais, contra a luta de classes e a perspectiva de revolução social.
Percebe-se, portanto, que as diferenças entre essas duas ten- dências, mesmo rigorosamente claras e visíveis – sobretudo pelo fato de as duas procurarem a todo tempo exaltar tais distinções – estão sempre encurraladas por um limite estratégico, em torno do qual ambas não apresentam desacordo, conscientemente ou não. “A esquerda para o capital e a direita para o social funcionam de modo complementar e compartilham de um horizonte de longa duração comum: operam a ideologia de que a ordem do capital é imutável” (LEHER, 2003, p. 12-13).
São, independentemente das distinções, irmãs siamesas de um mesmo projeto burguês de sociedade, de uma política de admi- nistração do capital, persistindo apenas “divergências sobre o tama- nho e a irradiação das gotas que atenuam a exploração da massa trabalhadora, sobre a intensidade da coerção em determinadas
situações e, também, na forma de interação com os sindicatos e movimentos sociais” (Idem, ibidem, p. 13) – enquanto uma rejeita a ação dos movimentos, outra os coopta.
Toda essa superfície de contato entre os ideólogos do “Terceiro Setor” e o “gramscismo reformista” não tem, portanto, nada de excêntrico. Na medida em que “no plano estratégico as refe- ridas perspectivas convergem no fundamental: a reprodução dos fundamentos do capitalismo dependente” (Idem, ibidem), este deve ser o ponto do qual é necessário se partir para entender as especifici- dades comuns entre ambas e, desse modo, melhor combater – dentro de qualquer movimento que aponte na perspectiva de transformação social – essas duas tendências que, de modo semelhante aos persona- gens machadianos Guiomar e Luís Alves, ajustam-se “como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão” (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 270).
Referências
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