Foi analisado o resultado físico da produção vegetal, excetuando-se pastagens, em relação à superfície utilizada pelas famílias para essa produção. Para tanto, foi realizado a soma da produção de cada uma das culturas produzidas na unidade, em seguida este total de produção vegetal foi dividido pela superfície agrícola útil vegetal. O principal objetivo é tornar visível a quantidade de alimentos produzidos no ano em uma unidade de superfície determinada.
Assim determinamos quantos quilos por hectare de determinado alimento é produzido em média pelas unidades de produção em cada uma das matrizes tecnológicas. Também consideramos os resultados das entrevistas para extrair a média da produtividade dos principais cultivos vegetais, em cada uma das matrizes tecnológicas de produção adotadas nas unidades agrícolas participantes do estudo, demonstrado na Tabela 2.
Tabela 2 Média da produtividade dos principais cultivos vegetais e a produção vegetal total por unidade de superfície agrícola útil, de acordo com a Matriz Tecnológica adotada na unidade de produção – kg/ha
Matriz Cultivos PVT /
SAUVeg Hortaliças Morango Pepino Feijão Soja
Convencional 0 55.845 5.455 1.902 3.453 19.888 Conversão Convencional 0 35.612 19.919 1.242 2.057 12.141 Conversão Orgânico 35.975 0 0 3.542 0 29.271 Agroecológico 32.949 55.467 0 860 0 11.097 TOTAL Convencional 0 45.728 15.098 1.572 3.174 20.035 TOTAL Orgânico 34.265 55.467 0 1.610 0 19.358 Fonte: o autor
Consideramos as médias de produtividade das principais culturas nas três matrizes de produção. As informações apresentadas foram elaboradas baseadas nos dados da produção total de cada cultura, de acordo com a matriz tecnológica e a superfície agrícola realmente utilizadas para a produção de cada um desses vegetais. Assim, esses dados resultam da simples divisão da produção total de cada lavoura pela respectiva área. Os números expostos na tabela referem-se às médias respectivas de
cada matriz. Separamos nas unidades de produção em conversão, quais são os cultivos orgânicos e quais os convencionais.
A coluna “PVT/SAUVeg” contém informações das médias da produtividade de todas as culturas vegetais da respectiva matriz, sem levar em conta as unidades que não realizaram nenhum cultivo agrícola vegetal neste ano agrícola. As linhas “TOTAL” apresentam as produtividades médias de cada uma das culturas nas respectivas matrizes tecnológicas de produção.
Optamos por não considerar as produtividades da cultura do milho. Isso porque a forma do uso e fases da colheita são muito diferenciadas nas unidades. Nas unidades agroecológicas são colhidos especialmente milho verde para os programas institucionais. Uma única unidade convencional produz para grãos com destino a alimentação animal. Em outra unidade convencional essa lavoura destina-se exclusivamente para silagem. Desconsideramos assim essa cultura, para efeitos de cálculo de produtividade, não sendo compatível organizar efeitos comparativos. Outra consideração é de que somente uma unidade em conversão realiza plantio de soja convencional; e na matriz agroecológica uma única unidade faz o cultivo do morango.
Na média geral de toda produção vegetal das unidades agrícolas investigadas os resultados da produtividade entre as matrizes tecnológicas de produção não apresentam disparidades expressivas. Ocorre em cada uma dessas formas de cultivo, tanto na convencional, passando pela conversão e na agroecológica, uma oscilação entre os extremos máximos e mínimos a depender da cultura e da unidade de produção. Entretanto, o objetivo do presente trabalho não é analisar individualmente cada unidade, mas procurar compreender as tendências do conjunto das matrizes de produção. E, devemos perceber também, que as principais espécies cultivadas de forma orgânica, não são as mesmas cultivadas na matriz convencional. Assim o principal comparativo está nas informações da média geral de toda a produtividade vegetal de todos os cultivos.
Culturas como hortaliças e morango apresentam um rendimento por área maior pelo fato de, na mesma superfície, ser possível obter várias colheitas ao longo do mesmo ano agrícola. E
no caso específico das hortaliças, as associações de diversas espécies, prática comum nas unidades agroecológicas, contribuem para aumentar esse proveito no manejo, no uso dos insumos e da própria área utilizada. Além do que, nessas unidades agroecológicas há uma constante e contínua sucessão, reconfiguração e criação de novas combinações dos recursos disponíveis, possibilitando obter níveis mais elevados de produtividade, dispensando o uso de adubos químicos solúveis e agrotóxicos, inclusive diminuindo a necessidade dos próprios adubos orgânicos externos ao agroecossistema.
Ponderamos ainda, a íntima relação entre produtividade e taxas de reciclagem dos nutrientes, visto que a energia segue numa única direção no sistema, os nutrientes estão (ou podem estar) em constante movimento cíclico, no agroecossistema. Por isso, a soma das propriedades dos diversos componentes bióticos e abióticos nessa comunidade, com o produto de suas interações, concede aos agroecossistemas sob matriz agroecológica, qualidades que o fazem maiores do que a soma de partes.
Analisando-se os limites proporcionados pelo meio físico e biológico, e as particularidades socioeconômicas, além da essencial eficiência de fixação energética, as estratégias de manejo adotadas pelo agricultor contribuem indelevelmente, na produtividade. Entretanto, embora alguns agricultores tendam a incorporar as tecnologias das empresas capitalistas, a ciclagem intencional é um dos resultados da decisão do agricultor. De qualquer forma, não se pode atribuir a um único cultivo agrícola, a produtividade daquele agroecossistema.
Chamamos também atenção para a relevância do objetivo da produção num agroecossistema agroecológico. Nestas unidades de produção e nos espaços destinados para essa matriz nas unidades em conversão, os cultivos são realizados especialmente para produzir alimentos (ainda que não exclusivamente, como é o caso das agroflorestas). E ainda, seja pela venda direta ou para programas governamentais, serão consumidos num raio de 60 km do local de produção.
Embora numericamente a média geral da produtividade dos cultivos agroecológicos não seja maior do que a dos
convencionais, aparentemente assemelham-se. À exceção da commoditie soja que possivelmente será exportada, os demais cultivos convencionais tendem a ser consumidos como alimentos no país. Talvez, por ser perecível, o morango não faça grandes deslocamentos até chegar ao consumidor final. Mas, é importante frisar que, além da produção agroecológica suprir a alimentação das pessoas na própria região produzida, ela faz parte de uma organização econômica e também política das próprias famílias agricultoras. Permitindo assim uma certa autonomia, procurando formas e brechas para proporcionar algum rompimento das teias da subalternidade.
Não é simplesmente afirmar que a agroecologia dará conta de alimentar a humanidade. É necessário pedagogicamente construir ações que busquem fender paradigmas, como o tecnológico e o mercadológico, construindo e reconstruindo as concepções de mundo e de vida em sociedade, ampliando paradigmas que coexistem e podem harmonizar-se nas relações produtivas. Portanto, podemos asseverar que a experiência em curso desenvolvida pelas famílias agroecológicas e em conversão, participantes deste estudo, demonstram um caminho sulcado no rumo dessa afirmação.
5. ECONOMIA, ESTRATÉGIAS, SUSTENTABILIDADE