4. Analyse des résultats et conséquences pour la pratique
4.3. Tâche de lecture : « La boîte à souvenir de Margaret Forster »
Tratamos aqui do universo da pintura como fonte iconográfica para história cultural e social da Amazônia no limiar do século XX. Minha trajetória pessoal esteve ligada à leitura de imagens, melhor dizendo, de uma coleção guardada no Museu de Arte de Belém. Esse conjunto de obras de Antonio Parreiras tem uma singular importância para a cidade, tanto como um conjunto interpretativo da memória visual da capital paraense, como por se tratar de uma coleção de paisagens encomendada por aquele que implementou uma série de reformas urbanas à cidade de Belém no período da chamada Belle Époque amazônica, o intendente Antônio Lemos.
O pintor, não custa enfatizar, era então renomado paisagista, consagrado por vários críticos da arte brasileira. As telas que pintou sobre Belém são leituras que revelaram comportamentos e um habitus, na medida transita no campo das representações das variadas maneiras de ver a cidade. Ao analisar as obras de Parreiras acabei por percorrer também as formas como a cidade de Belém era vista e representada pelos pintores-viajantes e por seus clientes, potencialmente moradores da cidade. A interpretação dessas telas implicou a leitura e força visual da obra de arte como elemento importante na conceituação de uma época e de sua cosmovisão. Foi assim que a natureza brasileira, sua luz e suas cores, ganharam mais do que uma moldura, uma vasta fortuna crítica alicerçada por paraenses do passado.
O culto da paisagem e seus efeitos visuais, a ambição onírica de transitar por jardins e passeios públicos que mimetizassem a estética européia estão por todos os cantos. A simetria urbana em comum acordo com a valorização da natureza domesticada, com exemplares recolhidos da “mata virgem”, revelam a projeção de uma Amazônia que Parreiras soube tão bem esquadrinhar. Observando tanto as imagens que já eram ícones da cidade transformada por Lemos e reproduzidas nos álbuns de Belém, como outras imagens que capturou conforme seu olhar viajante, apresentando retratos da cidade, com cores e ângulos bem definidos.
O pintor fluminense utilizou ícones conhecidos da população e os interpretou utilizando a sua experiência de paisagista. Dessa forma, suas obras foram registros documentais do estilo e da época que ele as realizou, o final do século XIX. Através das leituras foi possível conhecer um pouco mais da história social da arte na Amazônia, demonstrando a possibilidade de trabalhar com as representações como fontes de interpretação do mundo capazes de nos fornecer indícios sobre as diferentes maneiras de pensar e agir.
As narrativas visuais que Parreiras revela sobre Belém estão longe de constituírem retratos verdadeiros da realidade amazônica. A história e seus registros são sempre uma escolha,
seleção e olhar, por isso vislumbram produtores e demais agentes que influenciaram essa criação. As Paisagens que Parreiras pintou sobre Belém, são interpretações de um pintor de paisagem que tinha em seu currículo as mais diversas paisagens, tendo chegado a Belém já consagrado pela crítica como um dos melhores pintores brasileiros. Mesmo assim, a cidade pintada pelo artista representava o pensamento de seu tempo sobre a consciência humana da natureza, na medida em que está ali um produto imaginativo e criador, uma contemplação visual de significados e novas imagens.
Ao pintar a capital paraense, Parreiras enquadrou a paisagem cultivada pela população dando-lhe uma dimensão mítica, provocou emoções que evocou sentimentos, valorizando os recantos representados que, segundo afirmavam pessoas da época, só chamavam a atenção dos viajantes. Até mesmo Antonio Lemos chegou a revelar-se incomodado por causa desprezo da população pelos jardins, parques e bosques construídos em sua administração, os quais, mais tarde, tanto agradaram nas telas do pintor fluminense. Como pode ser percebido, o olhar forasteiro reflete a diferença e a confluência de diferentes estímulos, provocando julgamentos capazes de desvelar tipos de simbolismo e pragmatismo não partilhados pelo povo nativo. Trata-se de uma visibilidade do exótico própria do olhar de quem é de fora, estranho ao meio, pessoas que possuem uma vivência ausente da natureza, como é ocaso da floresta amazônica.
A relação entre arte e natureza foi sempre, ao longo da história da arte, um estímulo para a criação artística e para a expressão de uma relação idiossincrática dos artistas com o mundo em que vivem. Essa relação será muitas vezes de confronto, outras vezes toma o lugar da representação, do diálogo e da busca de correspondências. A exposição de Parreiras foi das mais visitadas pelos cidadãos de Belém e agradou muito, pois todas as telas foram adquiridas. Isso me fez refletir sobre a relação entre os homens e mulheres que viveram em cidades amazônicas como a capital paraense nos primeiros anos do século XX e a natureza. Diante desse questionamento fui levada a constatar a presença de um número restrito de pinturas, além de algumas fotografias, nas quais a natureza aprecia de forma organizada. Alguns viajantes chegaram a descrever a natureza amazônica, mas não foram além dos relatos e alguns panoramas. Somente décadas mais tarde, principalmente a partir de 1920 e 1940, é que as paisagens da urbe começaram aparecer com maior incidência entre o tema das pinturas. O que nos leva a crer que a pintura de paisagens de Parreiras foi precursora na região.
Nessa perspectiva, apesar das recentes discussões historiográficas sobre a Amazônia apontarem para as transformações sofridas pela cidade, sua urbanização, as modernidades
expostas, os equipamentos importados das várias cidades da Europa como Paris, além de descreverem o comportamento social dos habitantes da urbe, principalmente das classes mais abastadas; a relação entre esses sujeitos e a natureza não foi explorado satisfatoriamente. A recepção positiva das obras de Parreiras em suas exposições em Belém, com destaque àquela das obras encomendadas por Antônio Lemos, foi muito inquietante nesse aspecto, pois colocou em cheque a dicotomia entre a civilização e a floresta, exaustivamente conhecida entre os historiadores das cidades do século XIX.
Estão em jogo aqui um conjunto de impressões: as telas encomendadas com objetivo de representar a capital paraense e sua recepção pelo público e pela crítica de arte; o repertório cognitivo da época envolvido com as noções de civilização e progresso e, além disso, noções que cruzaram o Atlântico, considerando as cores da representação da natureza equatorial. A cidade, reformada para parecer com os grandes centros europeus, repletos de tecnologia e suntuosas construções arquitetônicas, apareceu nas telas de Parreiras como uma extensão da floresta, ou pelo menos atrelada de forma vital à natureza. Ao contrário do que se poderia supor, no entanto, os moradores de Belém, que estivam na exposição, não demonstraram desconforto em serem representados como parte desse cenário, em certa medida, selvagem e bruto.
Portanto, o contexto de produção da arte em Belém nos primeiros anos do século XX, quando Antônio Parreiras pintou a cidade e os símbolos por ele julgados mais relevantes, trouxe para o debate historiográfico algumas questões até então bem resolvidas. Uma outra relação, que não propriamente o embate, parece ter feito parte da convivência entre os moradores da capital paraense com a floresta amazônica, mesmo num período de grande valorização do progresso técnico e dos ideais de civilização ocidental próprios da modernidade do século XIX. Como se desenvolveu essa relação, e como as imagens sobre a natureza amazônicas produzidas posteriormente se relacionavam com o processo histórico dessa sociedade, são indagações que permanecem, deixando um inquietante caminho a ser trilhado pela historiografia no sentido de desvendar e amadurecer a reflexão acerca do homem amazônico e a floresta ao longo de sua história. Com epílogo, vai meu desejo de ter provocado a necessidade de interpretação da natureza a partir das várias formas de narrativas, demonstrando como as representações que povoam o passado podem ser analisadas a partir de acervos iconográficos. Formulando questões e inquirindo o cotidiano pela arte, revistamos os tempos pretéritos as relações sociais no Brasil e na Amazônia.