Indivíduosqueexibem seus caracteres físicos, étnicos, intelectuais e culturais distintos, muitas vezes se encontram arbitrariamente dispostos num mesmo tempo/espaço, constituindo assim uma coletividade. Entre os indivíduos de um mesmo grupo ressaltam-se afinidades, afeições, congruência de valores; mas não são apenas esses aspectos, como também demandas pessoais antagônicas, intolerâncias, discordâncias, dissimetrias de capital cultural e uma série de idiossincrasias concernentes a cada um. Tudo isto emerge decorrente do coabitar, da necessidade vital que se impõe para muitos de dividir espaços físicos e sociais.
Para Bourdieu (2008a, p. 11), o exercício de compreensão que pode fazer uma leitura mais justa e mais próxima de suscitar traços reais característicos de um cosmos social definido, deve cuidar de confrontar os distintos pontos de vistas não apenas relativizando-os e permitindoque“ojogodas imagens cruzadas” se estenda até o infinito, mas antes, justapondo- os em seus aspectos antagônicos, confrontando diretamente as diferentes visões de mundo.
Confrontar as perspectivas individuais, as disposições únicas, buscar neste trabalho a visualizaçãode um campo amplo de significados, certamente não é tarefa fácil de empreender. Noentanto,vem se mostrando para mim, como uma necessidade indispensável ao pesquisador que pretende uma aproximação do outro, seu parceiro de convivência.
Cada pessoa se afirma dentro de seu ponto de vista particular, compartilhamos espaços físicosesociaissemelhantes.Contudo,temosnossa maneira peculiar de ver e encarar o mundo e construímos ao longo de nossa existência um modo próprio de relação com o que nos é externo. Clara está a generalidade nos traços étnicos, hereditários e nos valores socioculturais presentes em um grupo social qualquer, forjado num mesmo espaço/tempo; não obstante, apetece-me aqui a alteridade como condição para as disposições nas negociações sociais.
Reafirmamos continuamente nosso ponto de vista e acreditamos na congruência deste comomundoànossavolta.Masomundoànossavolta está repleto de outros tantos indivíduos também calcados em seus pontos de vistas nem sempre passiveis a pactuarem com nossa visão.
Tenho percebido neste caminho de observação da pessoalidade nas relações dentro do microcosmo social do Curso de Música, como alunos e professores particularizam as informações, os sinais e signos e, sobretudo, as músicas que circulam neste campo. Há um montante de obrigações impostas para o cumprimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão que colocam dentro do mesmo espaço pessoas com trajetórias de vida diversas, e assim, pontos de vistas diferentes, olhares advindos da experiência em percursos nem sempre
familiares e paralelos entre si.
Muitas vezes, ao observar os sujeitos à minha volta percebo, através das falas e posicionamentos e, também, dos sinais evocados por Bourdieu (2008a, p. 697), como “sinais de feedback” – acenos de cabeça, olhares, sorrisos, sinais corporais ou verbais de atenção, de interesse, de aprovação, de incentivo ou de descrença – que, cada um retém e interpreta as influências do meio tão distintamente quanto diversos são os modos e as estruturas de compreensão, as habilidades de captação e de leitura do mundo.
Habitar os mesmos espaços, olhar para as mesmas coisas, ouvir as mesmas músicas, todavia, ressignificá-las à maneira de cada um, à forma como a ação do habitus individual estrutura a nossa leitura de mundo.
Não pode então ser estéril de significação para um observador atento, um terreno que reflete os efeitos tecnológicos da vida pós-moderna, onde a velocidade no acesso às informações é cada vez maior. A individuação presente nos dias atuais trás o conflito de opiniões que pode se converter em riqueza para a análise social. Contudo, Bourdieu (2008a, p. 11) adverte que é preciso “abandonar o ponto de vista único, central, dominante, em suma, quasedivino,noqualse situa geralmente o observador” quando este envereda por um caminho metodológico que privilegia o seu próprio ponto de vista, negligenciando as demandas específicas a cada sujeito observado.
Este posicionamento contraproducente, no qual o autor sugere que seja evitado para queasobservaçõesnãotomemos direcionamentos do ponto de vista exclusivo do pesquisador, pode facilmente surgir nas relações entre aluno e professor, dentro dos ambientes escolares. Bourdieu comenta sobre certa disponibilidade e entrega possíveis ao observador, assumindo- as assim, para manter preservadas as nuances próprias ao discurso do observado, evitando incorrer em algum tipo de violência impositiva em relação a este último:
[...] visando obter, pelo esquecimento de si, uma verdadeira conversão do olhar que lançamos sobre os outros nas circunstâncias comuns da vida. A disposição acolhedora que inclina a fazer seus os problemas do pesquisado, a aptidão a aceitá-lo e compreendê-lo como ele é, na sua necessidade singular é uma espécie de amor
intelectual [...] (id. ibid., p. 704 – grifos do autor).
Na medida do possível e das limitações impostas a mim – ora por ser eu ainda um pesquisador iniciante neste campo do estudo do outro; ora pela ação limitadora do tempo que conseguimos devotar em meio às muitas obrigações da vida cotidiana ao trabalho reflexivo – procurei incorporar ao meu trabalho as sugestões lançadas pelo autor; segui tecendo minhas observações como membro participante, inserido no próprio contexto onde colhi os dados
deste estudo. Caminhado no solo fértil do descobrimento do outro, meu igual diferente, meu próximo distante.