2.1 Syst`emes non-adaptatifs
2.1.1 Syst`emes mono-objectifs
No aspecto da vida espiritual, em STI e SFP há uma diversidade de opções, ou expressões de fé e crença: igreja católica, igrejas evangélicas, salão do reino das testemunhas de Jeová, igreja messiânica, centro espírita e casa e terreiro de candomblé.
Alguns membros destas CT em seu processo de crescimento transitaram por estas diferentes expressões de fé às vezes, fixando-se em uma delas, às vezes, formando-se nestas esferas e seguindo em frente sem estacionar em nenhuma, mas levando a essência para a prática:
Eu fui criada em uma família, vendo parte de minha família ter como segmento religioso o candomblé de Vó Lalu. Aí eu via os atabaques sendo tocados por mulheres, a gente sabe que quem toca são os homens. Eu via minha mãe tocando, minhas tias nas festas, orações, caruru, criança ia para curtir, eu não me despertei para o lado de seguir, mas a gente sabia o valor. Eu era kardecistas, me desvencilhei, ficando mais vacilante do sentindo de entrar naquilo. Eu era de viver coisas práticas. Eu não vou me afastar daquilo que me formou, eu não gosto de certas energias (Nzinga, dezembro 2014). Eu levei doze anos sendo evangélico, ia ser consagrado a diácono, tudo. Assembleia de Deus. [...] Como eu também, eu nasci dentro do candomblé...
[você já foi antes do candomblé?] Não, eu nasci, eu vi minha mãe crescer. Não porque quando eu me decidi estava com vinte e dois anos. Eu observava o candomblé, aprendi ... (Gã, novembro 2014).
Para Nzinga sua formação tanto desde a infância acompanhando sua família no candomblé, quanto nos anos que passou na doutrina espírita prestaram contribuição para sua garra e dedicação nas lutas pela comunidade e pelo reconhecimento de sua cultura. No extrato da fala de Gã, eu queria entender se ele antes de ser evangélico era do candomblé. Sua resposta dá indícios também da diferença no que tange a inserção nestas crenças. A inserção no candomblé, difere do processo de inserção e participação de outros segmentos religiosos.
O candomblé em Santiago do Iguape foi muito difundido por D. Lalu – como é conhecida - pelo o que contam os moradores. Segundo os moradores grandes festas de caruru promovidas por ela traziam muitos visitantes à comunidade, mas depois de sua morte as coisas diminuíram muito. Não há um consenso entre as nações: Queto ou Angola, ao qual o candomblé de D. Lalu pertencia, nem mesmo se era da linha Candomblé ou da linha Umbanda.
Na compreensão de Maré esta divergência se deve ao fato de que naquela época não havia muitas pessoas, para atender à comunidade espiritualmente, e D. Lalu era para tudo: se
chegasse uma pessoa de outra nação na casa dela precisando ser feita ela faria. Ela pondera
também que devido a distância, e a falta de comunicação com outros praticantes da religião de matriz africana:
[...] havia muita mistura mesmo. [...] Eu achava que não tinha muito informação de como era realizado em alguns lugares, não tinha como ter exigência que você sabe as linhas. Um lugar tinha que fazer várias coisas, tinha que dar o caruru ao longo dos anos de cada filho, cada promessa que nasceu. (Maré, 2014).
Para Maré, D. Lalu estava além de guetos de crenças, era uma mulher espiritual para servir na espiritualidade a todos.
Cada uma destes segmentos ou expressões de fé e crenças traz em si um ethos. Conectados, inclusive, aos diversos grupos que constituem a sociedade. Segundo Santos (2002): “A ciência, o direito, a educação, a informação, a religião e a tradição estão entre os mais importantes espelhos das sociedades contemporâneas.” (SANTOS, 2002, p.48), refletindo o que as sociedades são.
Porém a partir das vivências nestas comunidades, a reflexão que se faz é que a crença e a fé são os instrumentos precursores e que impulsionam todos estes elementos elencados por Santos e não apenas a religião, pois estão diretamente ligados à consciência do ser humano enquanto sua existência e o mundo que o cerca, mas que não são fixos ou estanques, sendo portanto permeável pela própria ação deste homem ao qual fornece visão. Na extensão em que o homem vai se distanciando de si, de sua consciência original e do seu meio, este instrumento vai se traduzindo em práticas as quais vão dando formas às mais variadas expressões religiosas e aos demais elementos elencados por Santos.
Ou seja, o ethos destas diferentes expressões de fé e crenças incide diretamente nos elementos elencados por Santos e intercambiam signos ampliando suas práticas e reproduzindo manifestações que expressam suas fontes. Além disso, os sujeitos destes grupos conseguem adesões nos diferentes espaços sociais, conforme os códigos trazidos das fontes de suas fé e crenças.
O Caso de D. Lalu parece reforçar isso. Enquanto viva, praticava sua fé e crença atendendo aqueles que a procuravam em suas necessidades sem fazer distinção ou criar condição para atendê-los. Sua fé e crença estariam mais próximas à sua consciência original, em que dualidades e facções não são tão marcantes, porém, os que a sucederam se dividem enquanto dão continuidade ao que dela receberam.
Assim também os mais diferentes segmentos religiosos têm sua forma apropriada de expressão e de linguagem, forma também pela qual se fazem entender por seus membros, e que dão a tônica de seu modo de ser e valores.
A discussão acima faz ponderar que quanto mais as possibilidades de linguagens e expressão são reduzidas, mais serão reduzidas a participação de grupos oriundos de diferentes linguagens e expressões, o que tanto dificulta o acesso de sua cosmovisão em outros espaços, quanto o aprendizado de seu modo de vida por outros sujeitos.
3.2 AS COMUNIDADES TRADICIONAIS - UM RECONHECIMENTO DE SEUS