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Na casa da família Brandão, na Rua Redentor, em Ipanema, reuniam-se intelectuais, jornalistas, políticos e artistas, pessoas que lutavam contra o regime militar. Ali realizavam-se clandestinamente muitas reuniões do Partido Comunista Brasileiro, como conta Dodô Brandão:

Lembro de muitas reuniões organizadas pelo Darwin [pai] lá na Redentor. Iam pessoas como Leandro Konder, Milton Temer, Rogério Senador, Nelson Coutinho, Marcelo Cerqueira, Milton Coelho da Graça, Ferreira Gullar – que depois pediu para sair do partido – só para citar alguns. Muitas vezes, enquanto o Darwin fazia uma reunião de trabalho na sala, com o pessoal da MPM [agência de publicidade onde trabalhava], e lá em cima, no terraço, tinha outra reunião que ninguém suspeitava. Lá em casa era assim. (Dodô Brandão em entrevista à autora em 25 de março de 2017)

A casa da Guguta, um “reduto da esquerda” nas palavras de Milton Temer, foi uma espécie de sede e de “barracão” do Simpatia é Quase Amor nos seus primeiros anos. Foi lá também a reunião de fundação da torcida de futebol Fla-Diretas,

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organizada por Henrique e Dodô, que haviam convocado um grupo de amigos em meio à efervescência daquele ano de lutas pela democracia, 1984. ZéBeto Fernandes conta no livro comemorativo do bloco como se deu essa reunião:

Numa tarde, desse tempo de luta, Sergio Besserman, irmão de Bussunda (Claudio Besserman Viana) anunciou depois de uma reunião dos Diretórios Acadêmicos que haveria, na casa de Henrique e Dodô Brandão, uma reunião para fundar a Fla-Diretas. Fomos animados, cheios de ideias. Na casa havia umas 20 pessoas. (FERNANDES, ZéBeto, 2016, p. 31).

Era ali em que os instrumentos da torcida (e depois do bloco) ficavam guardados. Também era na casa da família Brandão que se faziam os cartazes do Simpatia, com as frases provocativas, criadas no coletivo da rapaziada que fundara o bloco, “frases bem ao estilo do Pacotão”79, bloco de Brasília, compara Luiz Paulo.

Além disso, foi na casa da Guguta que se realizou a primeira escolha de samba do Simpatia, tendo como júri, entre outros, Milton Temer e a própria anfitriã. Temer conta: “Não por acaso, era na casa de Guguta Brandão, cenário de inúmeras reuniões onde a intelectualidade debatia a conjuntura, ou organizava atos de resistência ao regime opressor, que se instalou a sede original do bloco” (TEMER, 2016, p. 39).

Mellinho também lembra das atividades na casa da Guguta em seu depoimento a este projeto:

A casa da Guguta, além de ter sido o local da escolha do samba, também foi o nosso primeiro barracão. Por que o Simpatia saía com aqueles galhardetes. A casa da Guguta tinha um terraço aonde a gente pintava as frases à mão. O Milton Temer também tinha um apartamento no Leblon que também foi nosso barracão, onde a gente fez festas, o Temer “liberou geral”. (Gustavo Mello em entrevista à autora em 13 de março de 2017)

Henrique Brandão, Luiz Paulo Vellozo Lucas, Gustavo Mello, Ary Miranda foram nomes que ficaram na memória de Milton Temer como sendo o núcleo fundador do bloco. Ele relembra a escolha do primeiro samba do Simpatia como um divisor de águas na história do Carnaval de rua, já que os blocos daquele período tocavam marchas conhecidas de antigos Carnavais:

79 Pacotão foi um bloco de carnaval fundado em Brasília no carnaval de 1978, que saia da 302 Norte

em direção à Asa Sul, atravessando a W-3 pela contramão. No início, foi um bloco com pouco mais de 100 pessoas, em sua maioria jornalistas, irreverente e crítico às medidas do famoso “Pacote de Abril”. LIMA, Iran Rocha. 2017. Disponível em:

<http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversaoearte/2017/02/25/interna_diversao_arte,576 455/irreverencia-do-pacotao-faz-parte-do-carnaval-brasiliense.shtml>. Acesso em: 17 abr. 2017.

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Núcleo fundador que, pela ordem natural, se transformou no júri para a escolha do primeiro samba do Bloco. Sim, o primeiro samba do Bloco, ou talvez o primeiro samba de Bloco de Carnaval de rua, até então dominado pelas bandas que se formavam na esteira da Banda de Ipanema, onde orquestras de sopro entoavam marchas de antigos Carnavais. [...] O Simpatia nascia rompendo com isso. Recuperava o espírito dos antigos Blocos de “sujo”, onde só a bateria marcava o ritmo, e introduzia a novidade de samba próprio, até então exclusivo das escolas de samba. (TEMER, 2016, p. 39).

E o Simpatia não seria o único bloco a seguir nessa direção. O Barbas, fundado no mesmo ano no bairro de Botafogo, também havia instituído o samba autoral, escolhido por um júri, para o seu desfile80. Podemos afirmar que Simpatia e Barbas, que veremos no próximo capítulo, criaram, em 1985, um novo tipo de desfile de bloco carnavalesco, conduzido por um samba autoral (no caso do Barbas, dois) escolhido em competição, o que seria copiado por vários blocos subsequentes fundados a partir daí e na década de 1990. Esse dado é importante pois as escolhas de samba dos blocos do período afirmarão a identidade própria de cada um, impulsionando sentimentos de pertencimento dos foliões em relação às suas agremiações.

Milton Temer reforça essa ideia sobre o pioneirismo autoral em relação aos sambas quando fala do primeiro samba do bloco, Simpatia Geral:

O samba do Mellinho era tão empolgante que, na dobrada do desfile para a entrada na Vieira Souto, ao se tentar uma variação introduzindo um dos maiores sucessos do Chico [Buarque] na ocasião – não lembro se foi o “Apesar de Você” ou o “Vai Passar” –, houve grita de protesto geral. A despeito da paixão por Chico, impunha-se o retorno do samba do Mellinho. O pioneirismo autoral se consolidava já na estreia do Bloco. (TEMER, 2016, p. 41).