PSYCHOTROPES ET REPRODUCTION
II. SYNTHESE DES CONNAISSANCES ACTUELLES SUR L’USAGE EN
Schaeffer entende que Tomás de Aquino abriu caminho para a discussão sobre o conceito e aplicação da relação entre a “natureza e graça”. Como “graça”, deve-se entender como sendo o nível superior, no qual se encontra o Deus criador: o céu e as coisas celestes, o invisível e sua influência na terra, a alma humana, a unidade. No tocante à “natureza”, deve-se abranger a criação, a terra e as coisas terrestres, o visível e o que fazem a natureza e o homem na terra, o corpo humano, a diversidade.65
Segundo Schaeffer, em Tomás de Aquino temos o verdadeiro nascimento dos conceitos humanísticos da Renascença. Isso porque, na concepção de Tomás de Aquino66 a vontade estava caída, mas o intelecto não.
Era necessário que Deus transmitisse aos homens, pelo caminho da fé, uma certeza bem firme e uma verdade sem mescla, no que concerne às coisas de Deus. Ora, a misericórdia divina proveu a isso de maneira salutar, obrigando-nos a aceitar como objetos de fé aquelas mesmas coisas que, de per si, seriam acessíveis à razão. Dessa maneira, todos têm a possibilidade de participar do conhecimento de Deus, sem perigo de dúvida ou de erro (AQUINO, 1996, p.74).
65 É válido verificar o gráfico que Schaeffer apresenta sobre a relação “graça” e “natureza” (SCHAEFFER, 2001, p. 21).
66 Diferentemente da idéia de Tomás de Aquino em relação à manutenção da integridade intelectual em face da queda do homem, John Stott apresenta a corrupção que a mente humana sofreu com o pecado ao afirmar que: “é verdade que a mente do homem está afetada pelas devastadoras conseqüências da queda. A „depravação total‟ do homem significa que cada parte constituinte da sua humanidade foi, até certo ponto, corrompida, inclusive sua mente, a qual a Escritura escreve „obscurecida‟. Com efeito, quanto mais os homens reprimem a verdade Deus que conhecem, mais „fúteis‟ ou mesmo „insensatos‟ se tornam no seu pensar. Podem declarar-se sábios, mas são tolos. A mente deles é „a mente da carne‟, a mentalidade de uma criatura decaída, e é basicamente hostil a Deus e à sua lei” (STOTT, 2001, p.15).
Schaeffer ressalta que com as afirmações de Tomás de Aquino, a queda (o estado de pecado) trouxe consequências para a vontade humana, bem como para sua moral, mas que os efeitos da queda não podem ser sentidos no intelecto, pois este permaneceu imune às consequências da presença do pecado. Assim, afirmações como essas impulsionaram o desenvolvimento da chamada teologia natural, a qual se baseou em princípios teológicos extraídos além das Escrituras.
Na concepção de Tomás de Aquino, a vontade humana estava caída, mas o intelecto não estava. Essa visão incompleta da queda narrada na Bíblia implicou grandes dificuldades subsequentes. A partir disso, com o passar do tempo, o intelecto humano começou a ser visto como autônomo. Essa esfera de crescente autonomia gerada por Tomás de Aquino expressa-se de várias formas. Um dos resultados, por exemplo, manifestou-se pelo desenvolvimento da teologia natural. De acordo com essa visão, a teologia natural é uma teologia que poderia ser praticada independentemente das Escrituras. (SCHAEFFER, 2001, p.23).
Dessa maneira, Schaeffer entende que o caminho inicial para o atual desvio epistemológico do homem moderno fora aberto – caminho que conduziu o homem ao humanismo autônomo e a uma filosofia autônoma, que acabaram por gerar, em diversas áreas da existência humana, a crise de paradigmas.
Até os dias de Tomás de Aquino, o homem não considerava importantes as coisas relativas à natureza. Na verdade, pouca atenção, ou quase nenhuma, era dada à natureza, pois as formas de pensamento eram bizantinas. Todavia, com a visão tomista isso começou a mudar. Tomás de Aquino valorizou a natureza, que até então não era considerada como algo importante e relevante para o homem.
A visão que Tomás de Aquino tem da natureza e da graça não envolve uma completa descontinuidade entre essas duas coisas, pois ele tinha uma concepção de unidade entre elas. Começando nos tempos de Tomás de Aquino, houve por anos uma constante luta pela conquista da unidade entre natureza e graça, movida por uma esperança de que a racionalidade fosse capaz de esclarecer algo mais sobre as duas [...]. É preciso mencionar que Tomás de Aquino certamente não teria ficado contente com tudo o que se inferia dos seus escritos, à medida que os anos passavam (SCHAEFFER, 2001, p.22).
Com a abertura para um humanismo e uma filosofia autônoma, um princípio foi estabelecido e praticado pelo homem, a saber: a natureza passou a tragar a
graça67. A natureza foi posta à parte de Deus, à medida que a filosofia humanista passou a se desenvolver cada vez mais de forma independente e livre.
A essa altura, o autor afirma (2001, p.28) o quanto é destrutivo quando a natureza é considerada autônoma, pois está aberta a porta para a quebra dos referenciais e o desprezo quanto aos universais, lembrando ainda que, para Schaeffer (2001, p.29), “um universal é aquilo que dá sentido e unidade a todos os particulares. Os particulares são todas as coisas individuais – cada coisa individual representa um particular”.
Portanto, com relação à quebra dos universais ou até mesmo ao ignorá-los, constata-se que os particulares não podem ter mais sentido, resultando assim no problema que consiste em: onde encontrar a unidade depois de deixar a diversidade livre? Ou ainda, como questiona Schaeffer (2002, p.77): “como podemos encontrar universais que sejam amplos o suficiente para dar conta dos particulares, de modo que podemos saber que sabemos?”.
Schaeffer retoma a questão central da epistemologia. Uma vez que os universais – que se encontram no nível superior, ou seja, na graça – passam a ser ignorados, como o homem poderá mensurar e aferir o seu conhecimento? Baseado em que o homem poderá afirmar que conhece algo sem o relacionar com o “superior”, ou seja, sem relacionar o particular com aquilo que lhe dá sentido e a certeza de que trilha pelo caminho do verdadeiro conhecimento?
Schaeffer não nega a contribuição de Tomás de Aquino, pois, certamente, foi através dele que a natureza foi restabelecida e novamente valorizada e enfatizada no pensamento do homem, o que até então não estava acontecendo. Contudo, sem o devido equilíbrio da relação entre graça e natureza, esta última passa a ser autônoma, inclusive em relação a Deus, resultando, portanto, somente os particulares, caracterizando dessa forma aquilo para o que Schaeffer constantemente chama a atenção: a natureza tragando a graça.
Conforme frisei em meus livros anteriores, há aqui um princípio: se a natureza ou seus particulares são autônomos em relação a Deus, então a natureza está tragando a graça. Ou podemos expressá-lo da seguinte forma: tudo o que nos resta são particulares, e os universais acabarão se perdendo não apenas no sentido moral (o que seria suficientemente ruim), mas também no campo do conhecimento [...]. Foi aí que tudo começou. Fomos relegados às massas se particulares, mas não temos nenhuma forma de reuni-los. Então, achamos que, a essa altura, a natureza está
tragando a graça no campo da moral, ou até mais basicamente no campo da epistemologia também (SCHAEFFER, 2002, pp.79-80).
Logo, com o humanismo naturalista invadindo e disseminando a natureza sobre a graça, ou à parte da mesma, ou ainda, de forma mais explicita, com a extinção dos universais por meio dos particulares, deu-se, segundo Schaeffer, o estabelecimento da base do racionalismo, ou seja, o homem partindo de si mesmo, sem conhecimento externo, pois não se contemplam mais os universais.