As variações do teor de água no solo nas diferentes modalidades tiveram reflexos no comportamento fisiológico na vinha. As trocas gasosas das videiras foram sensíveis à variação da disponibilidade hídrica, verificando-se diferenças significativas entre os tratamentos. As modalidades que se encontravam a receber água no período do registo apresentaram quase sempre, os valores mais altos de E e gs, tal como verificado por diversos
autores (Malheiro, 2005; Souza et al., 2005a; Chaves et al., 2007; Reynolds et al., 2007; Intrigliolo e Castel, 2009), embora por vezes apenas a dotação de 100% da ET tenha sido suficiente para se distinguir significativamente das não regadas. Não se verificaram diferenças significativas entre as duas dotações de rega, ainda que as videiras regadas a 100% da ET tenham apresentado em geral valores mais elevados do que as com a dotação de 50% da ET.
A fotossíntese foi também em geral significativamente superior nas modalidades regadas, mas de uma forma menos expressiva que E e gs, raramente apresentando diferenças
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significativas entre os vários tratamentos regados, o que resultou numa menor razão A/gs,
sobretudo até ao pintor. Uma vez que o incremento sentido em A com a maior disponibilidade hídrica não foi ainda assim tão marcado quanto o verificado em E e gs, parece haver uma
gestão da água menos eficiente, com proporcionalmente maiores perdas por transpiração nas videiras regadas e tanto mais quanto maior a quantidade de água aplicada. Escalona et al. (1997) classificam este tipo de comportamento como um “consumo de luxo”. Os resultados obtidos são semelhantes aos de Souza et al. (2003), Flexas et al. (2002), Medrano et al. (2002), Cifre et al. (2005) e Payan et al. (2006), em que é referida uma maior eficiência intrínseca do uso da água em videiras sujeitas a condições de carência hídrica.
Para Moutinho-Pereira et al. (2009), a variação de A/gs é na verdade ainda mais
relevante do que a variação da fotossíntese vista isoladamente, podendo fornecer informações importantes acerca dos mecanismos através dos quais a disponibilidade hídrica condiciona a actividade fotossintética (Naor e Wample, 1995; Flexas et al., 2004). Recordando o Quadro 2.3, em que se avalia precisamente os tipos de limitação da fotossíntese consoante a severidade da carência hídrica, as menores taxas fotossintéticas verificadas antes do pintor nas modalidades não regadas terão resultado predominantemente de limitações estomáticas, uma vez que apresentaram nesta fase uma A/gs maior e um Ci menor que as restantes modalidades,
o que, juntamente com os níveis de gs verificados (em média entre os 50 e os 150 mmol.m-2.s- 1
), é sinal de um nível médio de carência hídrica. Após o pintor, à medida que a maturação avança e que a severidade da carência hídrica se acentua, sobretudo na única modalidade que continua a não ser regada (NR), as limitações não estomáticas da fotossíntese vão-se tornando cada vez mais importantes (vide ponto 2.2.1.1 e Quadro 2.3). Tal observou-se nos registos efectuados próximo da vindima, em que as diferenças de A/gs entre videiras regadas e não
regadas não apenas se esbateram, como por vezes A/gs foi mesmo menor na NR, o que,
juntamente com o maior Ci registado também na modalidade NR, é sintomático de um défice
hídrico severo (Flexas et al., 2002; Medrano et al., 2002; Cifre et al., 2005). Vários autores consideram que quando tal nível é atingido é efectivamente aconselhável regar, de forma a tentar manter as videiras no nível de carência hídrica média, o que permitirá uma A/gs máxima
e uma rápida recuperação da fotossíntese após rega, com reflexos positivos na produção, tanto em termos de quantidade como de qualidade (Flexas et al., 2002; Medrano et al., 2002; Cifre et al., 2005). É de assinalar que as modalidades que pararam de ser regadas ao pintor foram ainda assim capazes de manter na fase final da maturação, inclusive num ano tão seco quanto foi 2005, um nível de carência hídrica apenas médio, com níveis fotossintéticos e A/gs acima
Entre as limitações não estomáticas da actividade fotossintética ocorridas na modalidade NR não parecem ter existido efeitos sobre a eficiência fotoquímica máxima do PS II no mesófilo clorofilino, uma vez que tal implicaria, de acordo com Moutinho-Pereira et al. (2009), um declínio da razão Fv/Fm, o que não sucedeu, não se tendo encontrado diferenças
significativas nos registos da fluorescência da clorofila a. Resultados semelhantes foram obtidos por Souza et al. (2005a), indo de encontro à ideia de que a fotoinibição permanente raramente ocorre em condições de défice hídrico (Flexas et al., 1999b; Santos et al., 2003), estando mais associada a condições de elevada radiação solar (Osório, 1994). Presume-se assim que as limitações não estomáticas da fotossíntese verificadas decorram de outros processos metabólicos, como por exemplo de uma perda de actividade da Rubisco nos cloroplastos, ou de uma diminuição da capacidade de regeneração da ribulose 1,5-bisfosfato (Maroco, 2002; Flexas et al., 2004; Cifre, 2005), embora tal só possa ser verdadeiramente confirmado através das respectivas análises bioquímicas.
A modalidade NR, além de apresentar níveis de trocas gasosas por folha inferiores às restantes modalidades, apresentou também uma menor área foliar total (AF), o que, se por um lado consiste numa estratégia das videiras em reduzir a superfície transpirante e portanto as perdas de água (Gil e Pszczółkowski, 2007), por outro, não apenas apresenta menores taxas fotossintéticas por folha como também uma menor superfície fotossintetizante total, com um reflexo ainda mais marcado na fotossíntese global da videira. A modalidade mais regada (FM2) apresentou por sua vez consistentemente a maior AF, como referido por Garcia- Escudero et al. (1994), Reynolds e Naylor (1994), Montero et al. (1999), entre muitos outros autores, e, tal como PM2, PM1 e FP2, esta continuou a aumentar ao longo de parte do período da maturação, enquanto que a NR e a FP1 atingiram a AF máxima logo após o pintor. Tal mostra que a rega pode estimular a continuação do crescimento vegetativo após o pintor, o que, se por um lado significa mais folhas e portanto mais fotossíntese, por outro representa também maiores perdas de água por transpiração e um desvio de fotoassimilados para o crescimento numa fase em que estes deveriam estar a ser encaminhados prioritariamente para os cachos (Gaudillère et al., 2002; Deloire et al., 2005; Castellarin et al., 2007).