I. Matériaux
I.3 Synthèses des silices mésoporeuses
I.3.2 Synthèse du SBA-15 « parent »
O Teste de Apercepção Temática, criado por Murray em 1935, consiste numa situação na qual é pedido a um sujeito que imagine uma história face a diversos cartões, nos quais figuram personagens, objetos e ou paisagens. Na versão original, o material, composto por trinta e uma imagens (divididas em séries a serem aplicadas a homens e mulheres adultos e a rapazes e raparigas maiores de dez anos), era apresentado aos sujeitos, sendo-lhes pedido que imaginassem uma história, rica e pormenorizada, que contemplasse o presente, o passado e o futuro, e que referisse os sentimentos dos personagens envolvidos (Anzieu & Chabert, 1961/2004; Shentoub et al., 1990/1999). Pressupondo uma identificação do sujeito a uma personagem, tomada como herói, a narrativa era interpretada como a projeção direta dos conflitos do sujeito, destacável a partir da análise dos conteúdos (Shentoub et al. , 1990/1999). Seguiram-se, nos EUA, algumas propostas que reorganizando os procedimentos de análise não contestavam, na sua maioria, a terminologia e metodologia de Murray (Shentoub et al., 1990/1999).
Uma alteração profunda na forma de compreender o material foi proporcionada pelo trabalho de Schafer (1967), How was this story told?, ao reconfigurar o foco de atenção do conteúdo das histórias para a forma como estas eram narradas. Esta ideia é também a que subjaz à proposta da Escola Francesa. Shentoub e a sua equipa (1990/1999) constituíram, ao longo de vários anos, uma nova abordagem da situação TAT, reconfigurando o seu significado, as suas possibilidades e a sua análise interpretativa, numa construção integrada e coerente, em todo o seu alcance, com a metapsicologia e a psicopatologia psicanalítica. Desta forma, a Escola Francesa propõe, à semelhança do Rorschach, que a situação TAT seja compreendida enquanto situação intersubjetiva, instauradora de um trabalho psíquico na qual perceto e fantasma são convocados, resultando, dos seus equilíbrios e desequilíbrios, uma narrativa. Os cartões usados sofreram uma seleção relativamente ao conjunto original de Murray, consistindo em séries diferenciadas para homens e mulheres, rapazes e raparigas, tendo-se procedido ao estudo e descrição das solicitações latentes referenciáveis ao material. A situação TAT tem assim sido teorizada como compreendendo um conjunto de estímulos que reenviam para diferentes solicitações conflituais, face às quais se constitui uma narrativa projetiva. As histórias construídas em face dos cartões são sujeitas a uma análise sistemática, que tem em conta o encontro entre as solicitações latentes do material e os procedimentos defensivos e elaborativos que estruturam a construção das narrativas.
Tal como com o Rorschach, trabalhos mais recentes têm procurado abordar o TAT numa perspetiva bioniana, considerando que os processos inconscientes mobilizados na constituição de narrativas TAT revelam as possibilidades subjetivas de operar transformações e de constituir significações (Delgado, 2009a, 2009b, 2011). Mais precisamente, é sugerido que o encontro do sujeito com a situação TAT permite apreciar a “capacidade do sujeito em tolerar a dor mental e a frustração [...] inevitavelmente impostas pelo contacto com aspectos dolorosos da realidade interna, activadas pelas características do conteúdo latente das imagens” (Delgado, 2009a, p. 112). A forma como é, ou não, possível simbolizar o encontro com o material TAT, constituindo uma narrativa partilhável, é entendida, pois, como testemunhando a operatividade do aparelho para pensar pensamentos (Delgado, 2009a, 2009b). Fazendo uso deste racional, Delgado (2011) investiga a criatividade e os processos que a sustentam.
Estes trabalhos constituem a base a partir da qual será usado, na presente investigação, o instrumento, procedendo a adaptações que permitam adequá-lo ao objeto de estudo. Na secção que se segue, explorar-se-ão as características da situação e do material TAT enquanto iluminados pela perspetiva que informa a presente investigação, a Teoria das Transformações.
3.7.1 A situação TAT e as transformações na gravidez
Face ao material TAT, a partir da instrução “peço-lhe que imagine uma história a partir desta imagem”, a grávida é convidada a operar uma transformação. Uma transformação que supõe a possibilidade de reconhecer, tolerar, selecionar e manusear as características manifestas e latentes do material e de as subjetivar, conferindo-lhe um sentido expresso numa narrativa comunicada no seio de uma relação intersubjetiva. A narrativa TAT torna-se, assim, num precipitado dos processos de pensamento responsáveis pela alfabetização da experiência, isto é, pela sua subjetivação significante. Concebida desta forma, a situação TAT adquire o estatuto de campo de observação das funções do aparelho para pensar pensamentos – a oscilação PS↔︎D e a relação e vínculos ♀♂. Face aos cartões colocam-se, então, diversas questões: É possível tolerar a incerteza do encontro com o objeto (o objeto-cartão e os objetos relacionais figurados na imagem)? É possível proceder a integrações que conduzam à construção e comunicação de uma narrativa enquanto veículo de um processo de significação em curso? É possível conter os conteúdos evocados (pelo material e pelo psiquismo da grávida)? Que factos selecionados ordenam essa operação de integração e contenção? Que vínculos (L e H) afetivos são expressos? São reconhecidos (K)? Estas questões cruzam-se,
necessariamente, com as solicitações específicas de cada cartão, permitindo observar o pensamento da mulher grávida a operar face a diferentes dimensões da sua experiência.
As considerações que acima foram expostas relativamente à situação Rorschach como um todo aplicam-se, de forma geral, à situação TAT (muito embora se verifique um grau menos elevado de ambiguidade do material desta última prova e, no que respeita às representações-narrativas constituídas, um maior afastamento do ideograma, e uma maior elaboração do processo associativo), pelo que não serão aqui repetidas. Mas é importante explorar as especificidades das solicitações latentes do material TAT usado, em articulação com a Teoria das Transformações e com a gestação.
Na presente investigação não foi utilizada a série completa de quinze cartões TAT adequada a mulheres adultas (Shentoub et al, 1990/1999), que foi considerada potencialmente excessiva no que respeita à disponibilidade temporal exigida às participantes. Assim, foram selecionados os cartões 1, 5, 6GF, 7GF e 19 (no anexo 9 são reproduzidos os cartões e explicitados os procedimentos clássicos de aplicação da prova, bem como as adaptações realizadas no presente trabalho no que se refere à análise das narrativas). A seleção integra três cartões que reenviam, a partir de diferentes vértices, para um trabalho de representação das imagos maternas e femininas (5, 6GF, 7GF), particularmente pertinentes no quadro da presente investigação. Integra ainda dois cartões que a experiência clínica tem revelado como especialmente ilustrativos do funcionamento psíquico dos sujeitos (cartões 1 e 19), e que se prestam especialmente a uma releitura bioniana focada nas capacidades de tolerância à dispersão, integração e contenção dos conteúdos evocados pelos cartões. O ordenamento original dos cartões foi mantido. A seleção e sobretudo o uso do material teve em conta a articulação entre a solicitação manifesta e a solicitação latente classicamente reconhecida dos cartões mas, sobretudo, uma releitura mais insaturada dessas solicitações a partir da perspetiva da Teoria das Transformações.
O cartão 1 figura “um rapaz, com a cabeça entre as mãos, olhando para um violino colocado diante dele” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 65). O cartão é classicamente concebido como interrogando a integridade da representação inteira e diferenciada do sujeito em face do objeto, e a possibilidade ou impossibilidade de expressar o desejo e a dificuldade de fazer uso do objeto (Anzieu & Chabert, 1961/2004; Shentoub et al, 1990/1999). Numa perspetiva mais insaturada, é possível reinterpretar a solicitação latente do cartão como interrogando a experiência do eu face ao objeto. Nessa medida, o encontro com o cartão remete para a forma
de manusear uma experiência de encontro, como aquela que é vivida em face da gravidez enquanto objeto psíquico que solicita o pensamento.
No cartão 5 “uma mulher de meia-idade, com a mão na maçaneta de uma porta, olha para o interior de uma sala. Esta mulher é representada entre o dentro e o fora” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 69). Classicamente o cartão é entendido como reenviando para “uma imagem materna que penetra e olha” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 70). O cartão solicita, na perspetiva que orienta a presente investigação, um trabalho de significação dessa interioridade perscrutada nos seus conteúdos, a partir das possibilidades contentoras e integradoras do olhar feminino/materno, permitindo explorar a forma como a grávida se posiciona olhando a experiência que habita o interior do seu corpo e da sua mente.
O cartão 6GF figura “um casal heterossexual, uma jovem sentada no primeiro plano volta-se para um homem que se inclina para ela e que tem um cachimbo na boca” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 71). Classicamente o cartão é entendido como solicitando a capacidade de manuseamento de uma representação relacional libidinal (Shentoub et al, 1990/1999). Numa leitura mais insaturada, o cartão interroga a experiência do encontro relacional, particularmente entre o feminino e o masculino/paterno tomados como dimensões psíquicas e enquanto instâncias particulares da relação ♀♂. A ambiguidade da relação retratada e dos vínculos afetivos que a sustêm solicita diretamente a capacidade de tolerância à incerteza e a capacidade de integração.
O cartão 7GF figura “uma mulher, com um livro na mão, inclinada para uma menina com expressão sonhadora, que segura um boneco nos braços” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 72) remetendo, classicamente, para “les processus identificatoires au sein de la relation mère- -fille” (Anzieu & Chabert, 1961/2004, p. 153). Na perspetiva do presente trabalho, são interrogadas, pelo cartão, as dimensões do materno e do feminino, tomadas como possibilidades inter e intrapsíquicas da função ♀. O cartão permite, assim, observar a possibilidade de representar relações entre as personagens mediadas pela rêverie, pela capacidade transitiva e pela capacidade de holding, dando dessa forma conta da forma como estas capacidades psíquicas são convocadas para manusear a experiência da gravidez.
Finalmente, o cartão 19 figura “uma paisagem com uma casa sob a neve, ou uma cena marítima com um barco na tempestade, rodeados de formas espectrais e de vagas” (Shentoub et al, 1990/1999, p. 80). O cartão interroga a capacidade de delimitar um continente em face de um meio, manuseando simultânea mas separadamente as representações de bom e mau
objeto (Shentoub et al, 1990/1999). Assim, o cartão permite observar a exploração dos limites do eu e do objeto, face à reconfiguração a que estas fronteiras são pressionadas durante a gravidez.
Concluindo, tal como afirmado relativamente ao Rorschach, o resultado do encontro com a situação TAT, em geral e com cada uma das suas solicitações em particular, é entendido como veículo de expressão das vicissitudes do processo transformacional da mulher grávida, ao longo dos três trimestres de gestação.