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Apesar de não ser esse o objetivo primordial desta investigação, importa compreender de que forma os indivíduos assimilam a desinformação a que são expostos, no sentido de perceber a verdadeira extensão potencial das consequências das fake news para os mesmos em particular, e para a sociedade, como um todo.

Primeiramente, importa compreender que a desinformação online tem tanta probabilidade de se tornar “viral” como a informação confiável (Qiu et al., 2017, cit. in Shao et al., 2017). As redes sociais encontram-se fortemente polarizadas e segregadas ao longo de linhas políticas, sendo que as “câmaras de eco” resultantes providenciam exposição seletiva a fontes noticiosas, enviesando a perspetiva do mundo. Para além disto, as plataformas de social media estão desenhadas de forma a priorizar conteúdos envolventes, em prejuízo de notícias confiáveis, sendo que este viés algorítmico de popularidade impede a seleção de conteúdo de qualidade. Todos estes fatores desempenham um papel no sentido do “confirmation bias” – viés de confirmação, tornando a verdade difícil de discernir, sendo que, adicionalmente, as teorias de informação motivada sugerem que as predisposições políticas afetam a seleção, o processamento e a retenção de informação política (Stroud & Muddiman, 2013, Rochlin, 2017; Shao et al., 2017).

Adicionalmente, uma breve abordagem a alguns fenómenos psicológicos é essencial para compreender como e porquê os indivíduos, por vezes, assimilam fake news como histórias verdadeiras. Um destes fenómenos passa pelo facto de que informação que é frequentemente repetida tem maior probabilidade de ser considerada verdadeira do que informação que nunca tenha sido ouvida antes (Polage, 2012). Este fenómeno é comummente denominado na literatura por “illusory-truth effect” – efeito de verdade ilusória, sendo que os sujeitos classificam declarações repetidas como mais verdadeiras do que novas declarações, sendo a familiaridade um critério de base de validação de informações (Hasher, Goldstein & Topino, 1977, Arkes, Hackett & Boehm, 1989, Begg, Anas & Farinacci, 1992; cit. in Polage, 2012).

Um estudo realizado por Polage (2012) demonstra que a exposição a histórias falsas aumentam a plausibilidade e credibilidade percecionadas das mesmas. Esta conclusão sugere que expor indivíduos a informação falsa aumenta a sua crença na mesma informação falsa. Alguns autores afirmam que, consequentemente, quanto mais familiar

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a informação parecer, mais credível é percecionada a fonte de onde se assume que a mesma originou (Fragale & Heath, 2004; cit. in ibidem).

De uma perspetiva mais concreta, é expectável que indivíduos com acesso a múltiplas fontes de informação, incluindo “hard news” – notícias que se caracterizam por ter um elevado valor de notícia, usualmente relativas a tópicos como política, economia e temas sociais, e que exigem publicação imediata (Smith, 1985, Whetmore, 1987, Limor & Mann, 1997, Patterson, 2000, cit. in Lehman-Wilzig & Seletzky, 2010) – e fake news, percecionem menos as últimas como representativas do mundo político real do que indivíduos expostos, principalmente, a fake news e apenas raramente a hard news. A exposição a hard news modera o efeito de exposição a fake news no realismo percecionado das mesmas fake news. Enquanto a maior parte dos estudos existentes assumem os efeitos das fake news como diretos, Balmas (2012) indica que é a perceção das fake news como realistas, mais do que a mera exposição às mesmas, que impacta a sensibilidade política dos indivíduos. Em suma, as fake news relativas a políticas e a políticos são percecionadas como realistas apenas até as hard news serem levadas em conta. Adicionalmente, o impacto das fake news nas atitudes políticas encontram-se grandemente limitadas aos indivíduos que as interpretam como sérias, acreditando que representam de forma precisa a arena política.

Relativamente à capacidade do ser humano de detetar fraudes noticiosas, estudos recentes da área da psicologia interpessoal e da comunicação demonstram que os indivíduos geralmente não apresentam grande sucesso na deteção de mentiras, mesmo quando alertados para tal possibilidade, sendo que, em média, a taxa de sucesso é de cerca de 50% (Rubin, Conroy & Chen, 2015a). No entanto, uma análise de dez importantes casos de fake news em meios de comunicação mainstream americanos sugere que os editores estão atentos a padrões reconhecíveis no sentido de evitar fraudes jornalísticas:

“Notícias enganadoras têm maior probabilidade de serem apresentadas de uma localização remota, de se incluírem em tópicos propícios ao sigilo das fontes, de saírem na primeira página ou na capa, de conterem um maior número de fontes, mais diversas e mais difíceis de rastrear” (Lasorsa & Dai, 2007; cit. in Rubin, Conroy & Chen, 2015a).

Com o esbatimento das distinções entre notícias genuínas e enganosas, “poucos mecanismos de verificação de notícias existem atualmente, e o simples volume de

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informação requer novas e automatizadas abordagens” (Rubin, Conroy & Chen, 2015b, p. 1), sendo que o contexto das notícias online tem, surpreendentemente, recebido pouca atenção no que toca à deteção de “digital deception”, quando comparado a outros contextos digitais, tais como e-mails interpessoais, perfis de redes sociais falsos, perfis de dating e avaliação de produtos e currículos online (Rubin, Conroy & Chen, 2015a). No entanto, investigadores das áreas da comunicação, do social, da cognição e dos computadores têm vindo a focar-se no estudo das causas complexas da difusão viral de desinformação digital e no desenvolvimento de soluções enquanto plataformas de pesquisa e de social media começam a implementar contramedidas. Uma das sugestões mais recorrente passa por moderar os social bots e contas automatizadas por software, o que poderá ser uma estratégia eficaz na mitigação da propagação online de desinformação (Shao et al., 2017).

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1.6 Implicações geracionais das mudanças nos contextos

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