CHAPITRE 4. ÉVOLUTION DE LA QUALITÉ D’EAU
4.5 Synthèse des résultats
Antes de iniciar, esbocemos algo de sua estratégia contida nesse texto. Aqui, deve-se repensar a própria entrada da psicanálise na ciência. É de se esperar que a psicanálise alcançasse tal mérito no momento em que viesse adequar seu entendimento de objeto àquilo que a ciência tem para si. No entanto, ao se refletir sobre que tipo de objeto é estudado em psicanálise, perceber-se-ia que essa conciliação para com a ciência não é adequada, mas possivelmente uma busca sem sentido. Lacan deslocará a questão promovendo não uma estrutura de objeto que seja comum à ciência, mas a
122 uma estrutura de sujeito, o qual ele julga lhe ser equivalente. O sujeito em psicanálise e o sujeito da ciência são os mesmos, sendo distinguíveis unicamente por seus modos de se relacionarem com a verdade.
Prossigamos. Existe um fato que Lacan afirma ser fundamental para se conceber uma disciplina como a psicanálise. Esse fato seria que a ciência moderna é uma condição sine qua non para o seu surgimento. Em suas palavras: “É impensável [...] que a psicanálise como prática, que o inconsciente, o de Freud, como descoberta, houvessem tido lugar antes do nascimento da ciência, no século a que se chamou século do talento, o XVII” 271. Não que fora o prestígio que envolvera a personalidade do médico Freud, o seu criador, a chamar a atenção de um público e o saudar com o encontro de um novo fenômeno, não é isso que o motiva. Lacan fala de uma marca no empreendimento freudiano, uma que “não é contingente, mas lhe é essencial” 272. Ele está falando da relação de Freud com a ciência moderna, e que por vezes é chamada de cientificismo. Contra desvios desse ideal, Freud se opôs “sempre com uma segurança sem retardos e com um rigor inflexível” 273. No mesmo parágrafo, Lacan amarrará esse cientificismo de Freud a algo que reconhece como fundamental na ciência moderna: uma forma de redução que essa opera, e que é “pontual e evanescente: essa relação com o saber que, de seu momento historicamente natural, preserva o nome de cogito” 274. De qual redução ele está falando? Trata-se de uma busca em torno da questão de como o sujeito deve ou pode ser definido, já que a prática psicanalítica o experiencia como divisão entre o saber e a verdade 275. Ou seja, o cogito “é o desfilamento de um rechaço de todo saber, mas por isso pretende fundar para o sujeito um certo ancoramento no ser, o qual sustentamos constituir o sujeito da ciência em sua definição [...]” 276.
Relembremos que o cogito cartesiano pode ser explicado como o movimento de dúvida ao saber, a dúvida metódica, da qual surge, no final do processo de duvidar, uma verdade, que eu existo: eu, aquele que duvida, 271 LACAN, A ciência..., p. 871. 272 Idem. 273 Ibidem, p. 872. 274 Idem. 275 Ibidem, p. 870. 276 Idem.
123 existe. Todavia, a verdade só aparece como inferida pelo processo e não pelo saber específico de algo. Poderia se dizer que o ato de dúvida é um ato de negar o saber, e que a verdade desse sujeito, que ele existe, surge justamente desse ato: eu existo não é um argumento a partir de dados objetivos sobre o mundo, mas uma construção a partir da negação dele. Ou seja, o saber é condição para a verdade, mas a verdade não é da mesma ordem que o saber. Estão, por estrutura, divididos.
O ensejo aqui é também o de levantar uma crítica à psicologia e ao humanismo. Lacan diria que “[...] toda tentativa [...] de encarnar ainda mais o sujeito é errância: sempre fecunda em erros e, como tal, incorreta” 277. Tal postura é um fruto de sua própria definição de sujeito como efeito do significante. Sendo o significante uma abstração da ordem da diferença pura, perde-se o sentido de defini-lo em sua positividade, ou seja, de reduzi-lo a um átomo qualquer cujo ser esteja apreensível na ordem do fenômeno. O significante, para existir, por definição, necessita de outro significante – ele não é deslocável de seu lugar, não é manipulável nem está disponível para um estudo particularizador. Esse é o sentido das palavras de Lacan, que é apenas uma ilusão intentar que a psicologia encerre o sujeito em qualquer coisa de essencialmente positivo. Assim também o humanismo, termo repudiado pelo psicanalista, posto, segundo ele, não haver “ciência do homem porque o homem da ciência não existe, mas apenas seu sujeito” 278. Não há nada mais oposto às pretensões de Lacan de que se afastar de um discurso que zele sobre a unidade constitutiva do homem. O que ele busca não é uma unidade, mas aquilo que se desvela a partir do significante: o impossível de se reduzir à unidade; aquilo que não podemos conceber de outra forma se não na diferença pura. Adiante Lacan mencionará a antropologia de Lévi-Strauss, mas para exemplificar que do lado da ciência a divisão entre saber e verdade está sempre implícita. No caso, é que
O objeto da mitogênese [...] não está ligado a desenvolvimento algum, nem tampouco a uma parada, do sujeito responsável. Não é com esse sujeito que ele se relaciona, mas com o sujeito da ciência.
277 Ibidem, p. 873. 278 Idem.
124 E seu mapeamento será traçado tão mais corretamente quanto mais o próprio informante estiver perto de nele reduzir sua presença à do sujeito da ciência. 279
O sujeito mitante e o sujeito da ciência serem mutuamente excludentes quer dizer que a ênfase no evanescimento do segundo, ao modo como o citamos no cogito cartesiano, é a condição de seu surgimento, ao contrário do primeiro que, em sua corporeidade, faz parte da natureza, “e que o sujeito correlato da operação tem que coincidir com esse suporte corpóreo. É esse modo de coincidência que é vedado ao sujeito da ciência” 280.