Nas dinâmicas pedagógicas realizadas cotidianamente nas aulas, observamos repetidamente a criticidade como um fator constante naquele contexto. Fato que foi corroborado pela análise dos dados obtidos nas entrevistas, nas observações e nas notas de campo. Essa categoria nos leva a crer que este fator facilitava a troca de ideias, possibilitando o diálogo entre os membros envolvidos e abria o caminho para que o conhecimento fosse construído criticamente pelos discentes.
Vejamos notas do diário de campo a esse respeito:
Diário de campo 01 de março de 2016, observação nº 1:
Comecei hoje a pesquisa de observação na Escola Municipal Pedro Ibiapino no sítio Cajueiro do município de Poção – PE. Ao chegar na escola fui recebida pela gestora que, de modo gentil, me conduziu à sala do 5º ano (único) da escola, a qual já havia sido apresentada aos alunos e a professora. Aproveitei o ensejo e expliquei aos alunos e a professora os objetivos da pesquisa e como seria o procedimento
de observação. Em cada um deles deu para perceber uma certa curiosidade e muita animação. Deixei bem claro que a minha presença seria discreta, pois não poderia atrapalhar o andamento das aulas. Dessa forma, todos eles ficaram menos tímidos e se prontificaram a contribuir. No decorrer da estadia no campo de investigação deu para observar que as relações que se desenvolviam na sala de aula e também na horta divergiam em atividades de outrora realizadas numa sala de aula tradicional. Ao mesmo tempo, já vi que o ambiente é muito mais tranquilo e desinibido, vi a liberdade dos alunos que podiam expor suas falas e suas ideias. Tudo muito diferente do rigor oferecido pela escola tradicional. No decorrer de duas horas de contato, de conversa e observação concluí a minha primeira observação, agradeci a professora e aos alunos e parti.
Sendo assim, podemos destacar que, no contexto investigado, o cultivo da horta sustentável pelos discentes contribui para a interpretação crítica dos fenómenos educativos sobre educação ambiental.
As escolas tradicionais há muito vêm negligenciando em seus currículos a temática da preservação ambiental em detrimento da cultura dominante. No entanto, nas escolas de formação inicial essa onda de popularização da preservação ambiental ainda encontra muita resistência, entre outros motivos pelo fato de que ao longo do tempo se criou a ideia de que a escola deve preparar para a vida e de que todo o conhecimento envolvido nessa preparação deve estar presente dentro dos muros da escola.
Nesse cenário, partimos para investigar uma atividade que resulta de um impulso de aprender por parte dos participantes, organizada em um contexto que busca criar uma educação a partir do ponto de vista de quem aprende fazendo e a partir a interação entre os atores, bem como da valorização dos saberes prévios dos discentes. Como se constata na observação abaixo relatada:
Diário de campo 21 de março de 2016, observação nº 6:
Ao chegar na escola às 7:40 (sete horas e quarenta minutos) me direcionei à sala de aula do 5º ano e lá a professora já havia iniciado a aula com suas belíssimas mensagens de ânimo. Depois começou a explanar o assunto de forma expositiva e logo após ela pediu que os alunos fizessem uma atividade de produção de texto (relatório), envolvendo os trabalhos desenvolvido com a horta sustentável. Nessa aula fiquei apenas observando as produções em sala dos alunos. Continuei fazendo minhas anotações, percebendo que alguns alunos ainda estava tímidos quando eu chegava perto deles. Sentindo esse clima busquei uma posição mais natural possível e
continuei minhas anotações. Chegando o fim do expediente me despedi de todos e me retirei.
Durante a estadia no campo de investigação observamos que as relações que se desenvolviam nas aulas com a horta sustentável diferiam em muito das atividades realizadas em uma sala de aula tradicional. De início, já pude observar que o ambiente é mais descontraído do que em uma sala de aula tradicional, sem a rigidez e a organização típica da escola tradicional.
Por ocorrerem de uma forma diferente do ambiente tradicional as vivências desenvolvidas com a horta sustentável oportunizavam aos aprendizes a construção de relações diferentes das que ocorrem na sala de aula convencional, pois os discentes se sentiam mais motivamos a adquirir conhecimentos de forma crítica, surgindo a vontade de produzir e expor os seus saberes.
Nessa perspectiva, o papel de mediadora assumido pela professora da sala campo de estudo abriu espaço para que os aprendizes adotassem uma postura crítica e reflexiva, possibilitando que o conhecimento produzido fosse utilizado na sua vivência cotidiana. Vejamos outro excerto do diário e campo:
Diário de campo 22 de março de 2016, observação nº 7:
Cheguei as 7:10 (sete horas e dez minutos) e fui cumprimentar a diretora e a coordenadora na sala dos professores. Antes de iniciar as aulas os professores se concentram lá com a coordenação para tratar de assuntos pedagógicos da escola. Cumprimentei toda a equipe e segui juntamente com a professora em direção a sala do 5º ano onde já havia alguns alunos. Me surpreendi com a presença de alguns pais que queriam conversar sobre a participação dos seus filhos nas entrevistas. Na verdade gostei da surpresa. Eu não espera, mas foi uma experiência incrível porque me confortou bastante saber que os pais acompanham os seus filhos no cotidiano escolar. Expliquei todo o assunto para eles e também deixei bem claro como iria acontecer a entrevista. Finalmente, eles se convenceram a autorizar as entrevistas e prontamente assinaram as autorizações. Nesse momento, agradeci pela assinatura e pela atenção de todos. Quando voltei para a sala já estava na segunda parte da aula que se realizava na horta. Os alunos, juntamente com a professora, já estavam concluindo suas atividades. E por isso a docente deixou os alunos a vontade em suas produções finais e nesse momento notei mais uma vez que os alunos desenvolviam suas atividades de forma autónoma sem a necessidade da intervenção da professora. Continuei a fazer minhas anotações do que estava a observar registrando que os aprendizes de fato constroem seu aprendizado de maneira crítica e autônoma. Foi aí que constatei a necessidade dos
professores modificarem o ensino contemporâneo. Finalizei a observação e me despedi da professora e dos alunos.
Nestes termos, torna-se notório que as práticas pedagógicas desenvolvidas com a horta sustentável contribuem para uma aprendizagem crítico reflexiva, baseada no desenvolvimento da autonomia e da criatividade dos estudantes, possibilitando a autonomia dos aprendizes, promovendo a colaboração mútua e incentivando a partilha de saberes.