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Em seus estudos sobre o agir humano, Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, desenvolveu diversos trabalhos voltados para a problemática da atividade humana e do agir comunicativo. Segundo Bronckart (2008, p. 21), o objetivo de Habermas era “propor uma teoria do agir humano que superasse as insuficiências das concepções de um ator racional e estratégico (e, portanto, capaz de analisar claramente as situações e conduzir seu projeto com eficácia)”.

No que concerne à atividade humana, Habermas (1987a, b e c, apud BRONCKART, 2008, p. 21) não a considerava totalmente determinada pelas regras de racionalidade e de eficácia. Para ele, essa é apenas uma das dimensões da organização do agir, que coexiste em outras dimensões. Esclarece Bronckart (2008, p. 21) que o princípio dessa teoria é o de que toda atividade se desenvolve em conformidade com determinadas representações coletivas que se encontram organizadas em três sistemas ou “mundos” (formais ou representados): o mundo objetivo, o mundo social e o mundo subjetivo, constituídos conforme a seguir

qualquer atividade se desenvolve em um mundo físico sobre o qual é necessário termos um conhecimento adequado, e são esses conhecimentos sobre o universo material, tais como são construídos na socioistória humana, os elementos constitutivos do mundo objetivo. Qualquer atividade também se desenvolve no quadro de regras, convenções e sistemas de valores construídos por um grupo particular. [...] Os conhecimentos coletivos acumulados em relação a essas regras, convenções e valores são os elementos constitutivos do mundo social. Por fim, qualquer atividade mobiliza pessoas dotadas de uma economia psíquica e de características que, apesar de serem privadas [...], foram também objeto de processos públicos de conhecimento. São os produtos desses processos que constituem o

mundo subjetivo. (BRONCKART, 2008, p. 22, grifos do autor)

Bronckart explica que esses três mundos funcionam como “sistemas de coordenadas formais, em relação aos quais qualquer agir humano exibe pretensões à validade8– e a partir dos quais se exercem avaliações e/ou controles”, sendo, portanto, o grande valor da teoria da atividade o de mostrar que todo agir se realiza, necessariamente, “considerando-se diferentes sistemas de determinação, que podem estar em conflito e não em uma trajetória retilínea determinada pelas propriedades que caracterizam a responsabilidade do agente” (BRONCKART, 2008, p. 23).

Com relação ao agir comunicativo, Bronckart (2009, p. 31) elucida que, para Habermas, esse agir é uma dimensão característica das atividades humanas de cooperação mediadas pelas interações verbais.

Inspirado em Habermas, o ISD postula, acerca desse papel mediador da linguagem na execução das atividades humanas cooperativas, um processo evolutivo em que a linguagem é tomada em sua dimensão prática, ou seja, como mecanismo de criação de unidades semiológicas arbitrárias e sócio-convencionais, as quais, com base em um acordo coletivo, estabilizam-se e são transformadas em representações que podem ser partilhadas pelos membros de uma comunidade linguística. Segundo esse postulado,

[...] sendo biologicamente dotados de capacidades comportamentais mais poderosas que as dos outros mamíferos, [...] os seres humanos produziram instrumentos que reforçavam e prolongavam suas capacidades comportamentais. A exploração desses instrumentos [...] requeria um mecanismo de acordo sobre o contexto da atividade e sobre a parte da atividade que devia caber aos indivíduos instrumentalizados. As produções sonoras originais teriam sido motivadas por essa necessidade de acordo [...].

8 Com relação a esse conceito, expõe Bronckart (2008, p.22): “Temos consciência de que fazemos um

„deslocamento‟ da noção de pretensão à validade tal como proposta por Habermas. Para o autor, é no nível do agir comunicativo que se formulam explicitamente as pretensões à validade; [...] (nós) sustentaremos que o agir humano, independentemente de (ou previamente a) toda mediação linguageira, constitui-se, em si mesmo, como uma pretensão prática à validade em relação às coordenadas dos mundos representados”.

A linguagem propriamente dita teria então emergido sob o efeito de uma negociação prática (ou consciente) das pretensões à validade designativa9 das produções

sonoras dos membros de um grupo envolvidos em uma mesma atividade. Portanto, seria na cooperação ativa que se estabilizariam as relações designativas [...] como signos, na acepção saussureana mais profunda do termo (BRONCKART, 2009, pp. 31-33, grifos do autor)

Com base nesse postulado, o ISD entende que o agir comunicativo é constitutivo do psiquismo humano e do social propriamente dito, já que os signos, negociados e estabilizados, ficam disponíveis não só para uso de cada indivíduo particular como também veiculam as representações coletivas do meio, as quais irão nortear o desenrolar das atividades humanas, precipuamente as de linguagem (BRONCKART, 2009).

Assumindo esses pressupostos teóricos de Habermas, embora com certa distorção de sua lógica e de sua progressão argumentativa, como admitido por Bronckart (2008, p. 22), o ISD realiza a necessária articulação (não alcançada por Vigotski) entre a dimensão sociológica e a dimensão psicológica das condutas humanas e consegue demonstrar, de forma adequada, que a atividade coletiva, ou social, explica as ações singulares, isto é, as ações imputáveis a uma pessoa.

Ainda segundo Bronckart (2008), Habermas extrai de seu entendimento da linguagem como prática as seguintes conclusões: (i) o homem dispõe de dois tipos de agir: um agir teleológico (renomeado no quadro do ISD de agir praxiológico), o qual visa a produzir um efeito de sentido nos (ou sobre os) três mundos formais – o objetivo, o subjetivo e o social; e um agir comunicativo, referente às práticas linguageiras, que visa a estabelecer um acordo necessário para a realização social das diversas formas do agir praxiológico; (ii) esses dois tipos de agir são articulados entre si, já que o agir comunicativo é o instrumento por meio do qual se manifestam concretamente as avaliações sociais das pretensões à validade do agir teleológico/praxiológico.

Apesar de fundamental para o ISD, a teoria de Habermas não realiza, como nos informa Bronckart (2008, pp. 25-26), “reflexões mais profundas sobre o estatuto dos signos da linguagem e da teoria de Saussure em particular e, além disso, não considera o nível principal de organização do agir comunicativo, o nível dos textos e/ou discursos”, o que impede que se distinga de forma clara o que é “da ordem das propriedades do agir e o que é da ordem das propriedades da formulação desse agir em enunciados de uma língua”.

9 Segundo Bronckart (2009, p. 33), o ISD, inspirando-se na noção geral de pretensão à validade, de Habermas,

Os subsídios para preencher essa lacuna serão encontrados por Bronckart no par Volochinov-Bakhtin, filósofos da linguagem cujos estudos sobre a interação social e sobre os gêneros de discurso, respectivamente, favorecem o entendimento da materialização do agir comunicativo por meio da entidade empírica denominada texto, o que vem ao encontro da busca do ISD por superar a terceira dificuldade encontrada na revisita a Vigotski.

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