Arruda (2002) assinala que Moscovici define duas formas distintas de apropriação do mundo, a forma consensual e a forma científica, que geram universos sociais próprios e distintos:
Universo consensual – [...] Aquele que se constitui principalmente na conversação informal, na vida cotidiana. As Representações Sociais constroem-se mais freqüentemente na esfera consensual, embora as duas esferas não sejam totalmente estanques. As sociedades – são representadas por grupos de iguais, todos podem falar com a mesma competência. A Representação Social é o senso comum, acessível a todos.
Universo reificado (ou científico) – Se cristaliza no espaço científico, com seus cânones de linguagem e sua hierarquia interna. A sociedade é de especialistas onde há divisão de áreas de competência. Aqui é a Ciência que retrata a realidade independente de nossa consciência; estilo e estrutura fria e abstrata. (ARRUDA, 2002,p.130)
As formas de o sujeito conhecer e se comunicar no mundo, são historicamente conduzidas por objetivos diferentes e, por conseguinte, produzem diferentes representações. Moscovici considera que os universos reificados produzem as ciências de um modo geral, enquanto os universos consensuais são universos familiares em que se confirmam as crenças e as interpretações já adquiridas pelos sujeitos, em que se produzem as representações sociais.
Moscovici valoriza o saber do senso comum que, para ele, não se contrapõe ao saber científico. O senso comum não é encarado apenas como uma forma válida de conhecimento, mas como um conhecimento capaz de criar efetivamente a realidade social (SPINK, 1995). As representações sociais nos ajudam a entender e justificar essa realidade social, assim como, a conduta dos indivíduos, as posições tomadas e as ideias partilhadas entre os
grupos (SÁ, 2002). De maneira geral, a finalidade das representações é tornar algo não familiar em familiar, o que é incomum é assimilado, podendo modificar o modo de conceber o mundo e passando a fazer parte do (novo) universo consensual.
De acordo com Lima (2009), há atualmente um consenso entre os pesquisadores de que o conceito de representações sociais é polissêmico. De um lado consideram-se as representações como um processo social em que se constroem determinados significados envolvendo a comunicação e o discurso. Por outro lado, as representações são vistas como estruturas individuais de conhecimentos e símbolos. De acordo com Sá (2002), Moscovici não define o conceito de representação social, ele sugere que seja entendido como um conjunto de conceitos, proposições e explicações originados da vida cotidiana, com a função de orientar as condutas e as comunicações sociais dos indivíduos.
Considerada a complexidade do conceito, Jodelet (2001) aponta que o mecanismo da representação pode remeter-se a processos cognitivos e a processos intrapsíquicos, porém sempre associados às histórias de vida dos sujeitos, sua cultura e pertença social. Ainda nessa perspectiva, Doise (1993) indica que a teoria das representações sociais constituem um metassistema de regulação social, que intervêm sobre o sistema de funcionamento cognitivo dos indivíduos.
Em consideração a gênese e as funções das representações, Jodelet (2009) afirma que estas podem ser relacionadas a três esferas de pertença: a da subjetividade, a da intersubjetividade e a da transubjetividade. Essas esferas se entrelaçam no sentido de compreender que: não há indivíduo isolado; não há pensamento solto, sem significação; que o contexto social de interação e inscrição tem de ser considerado; e que ainda, o espaço social e público permeiam as construções das representações no sentido de que “toda representação social é relacionada a um objeto e a um sujeito” (JODELET, 2009, p. 696).
Assim, representar um objeto é reconstruí-lo, é significa-lo e ressignificá- lo através dos processos psíquicos, intrapsíquicos e sociais. A comunicação
que se estabelece entre o conceito e a percepção de determinado objeto social, transforma-o em algo concreto, real para o indivíduo que o representa. Para Moscovici, a representação de um objeto teria em sua estrutura duas faces: a face figurativa e a face simbólica, que são indissociáveis tais como as faces de um papel. Isso implica dizer que cada figura ou objeto corresponde a um sentido e cada sentido a uma figura. Desta forma, nos processos de representação, uma figura é, e simultaneamente recebe sentido pelos sujeitos, passando a ser integrada no universo social. Essa representação do objeto é construída a partir de dois processos, a objetivação e a ancoragem (SÁ, 2002).
A objetivação é o processo pelo qual construímos o conhecimento de algo novo. Quando nos deparamos com o estranho, com algo desconhecido, o não familiar, selecionamos o que é possível dessa nova informação a partir de nossa experiência prévia, nossos conhecimentos já existentes, nossos valores, crenças ou hábitos. Após o estranhamento inicial, esse novo vai se incorporando nos esquemas cognitivos e, de acordo com Jodelet (2001), se torna o núcleo figurativo da representação. Segundo a autora, esse núcleo figurativo tende a apresentar um aspecto imagético do que foi apreendido, torna-se objetivado. A figura alheia recompõe-se nas estruturas mentais, passando a parecer natural. Já não causa estranhamento.
Já no processo de ancoragem é dado sentido a esse objeto que se naturalizou cognitivamente e já se apresenta como compreensível. Segundo Sá (2002) ancorar é tornar o objeto inteligível. O conhecimento adquirido se enraíza no meio social, integrando-se ao universo consensual. O novo passa a fazer parte do mundo. Dessa forma, diz Jodelet (2001) que a ancoragem é a constituição de uma rede de significações em torno do objeto, relacionando-o a valores e práticas sociais. A atividade representativa constitui, portanto, um processo psíquico que permite tornar familiar e presente no universo interior, um objeto que, inicialmente, está alheio.
Para Vala (2000), existem alguns determinantes sociais que levam a construção das representações sociais de determinados objetos. De acordo com Moscovici (2003), constituem-se três fatores que compõem as representações sociais: a dispersão da informação, o engajamento ou
focalização e a pressão à inferência. A dispersão da informação ilustra que as informações são disseminadas de maneira desigual e descentralizadas na sociedade. O engajamento ou focalização indica o interesse do indivíduo a respeito de determinado objeto ou assunto. Esse interesse implica na ação do indivíduo em relação ao pensamento construído coletivamente por um grupo, compartilhando opiniões e construindo representações sobre determinado objeto ou acontecimento. A pressão à inferência é o meio pelo qual ocorre a imposição do grupo sobre seus participantes, tendo como princípio norteador das representações construídas, o querer da maioria (ou todos) dos participantes do grupo.