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Synthèse des méthodes existantes

Dans le document Nabil Alami (Page 153-156)

A prancha número 3 segue com os exercícios de sombreado, só que um grau acima. Esta interessante gravura, de curiosa composição, é composta por três colunas: na primeira, propõe imagens de duas fases gradativas de um hachurado “simples” de olho; na segunda, um ovo sombreado, apoiado sobre uma superfície; e, na terceira, duas novas imagens de olhos, com fases de execução de um hachurado “cruzado”. Esses exercícios, que, por sua organização, têm finalidade em grande parte autoevidente, dão pistas sobre algumas importantes preocupações de seu autor, conforme veremos nos parágrafos seguintes. (Figura 23)

Na primeira coluna, são representados, como dissemos, dois olhos. A imagem de cima é, evidentemente, uma etapa anterior à da imagem de baixo, finalizada. Debret opta por representar o olho de uma escultura, ao invés de um olho humano, o que parece ter sido uma prática razoavelmente frequente em cursos de desenho da figura humana editados em pranchas, no século XIX, como atestam os cursos de Bargue (1867) e de Laurens (1870). Essa opção pela escultura pode não estar baseada apenas no princípio de imitação dos antigos, cara aos neoclássicos, mas também pela simplificação que a escultura, branca, evidentemente é em relação à infinidade de cores, detalhes e texturas do corpo humano. Nesse primeiro exercício, o autor propõe a execução por meio de hachuras simples, ou seja, apenas paralelas, sem cruzamento. Na etapa de cima, há apenas uma indicação das sombras principais, que são levadas a maior acabamento na etapa de baixo, em que as hachuras se multiplicam e ganham mais pressão, tornando-se mais escuras e ressaltando o efeito de volume.

Neste ponto, vale interromper por um momento a descrição e a análise da prancha, para discutir um aspecto interessante que identificamos nesta coluna de exercícios e na terceira, em que aparece outro olho. Se observarmos cuidadosamente os dois pares, veremos que os desenhos de baixo, finalizados, possuem variações importantes em termos de contorno – ou proporção – em relação aos anteriores. Isso fica especialmente evidente no que se refere à altura da sobrancelha e ao limite inferior do globo ocular no primeiro par de desenhos, e à linha que sobe a partir da sobrancelha no segundo par. Essa variação, intencional ou não, demonstra que o não se espera que o primeiro contorno estabelecido seja perfeito ou definitivo, podendo sofrer

variações no decorrer do desenho e em benefício da exatidão, o que é uma concessão à prática real do desenho de observação, em que a precisão é obtida aos poucos, conforme demonstra, com especial clareza, o método apresentado por Bargue repetidamente, em seu curso.

Na coluna da direita, na nossa prancha, o olho também é representado em duas etapas de sombreamento. A diferença, neste caso, é que é utilizada a hachura por cruzamento das linhas. O serpenteado destas e a multiplicação de detalhes neste desenho apresentam evidente aumento no grau de dificuldade em relação aos exercícios anteriores.

Voltando ao centro da prancha, o curioso ovo que observamos tem uma função que vai além de servir de modelo para os alunos copiarem. A partir dessa forma simples, podem ser ensinados diversos princípios relacionados à maneira com que a luz bate nos objetos reais. Por esse desenho, aprende-se que a luz muda de intensidade, seguindo uma mudança de direção na forma do objeto. Como o ovo é esférico, a mudança de direção é constante, provocando o mesmo efeito contínuo na variação de tons de cinza do modelado. A faixa mais escura é a sombra principal (em inglês, core shadow), que representa o local no objeto a partir do qual a luz para de incidir diretamente. Logo após essa faixa, entre a core shadow e o contorno direito do ovo, estão as luzes refletidas, que são de importância fundamental para a representação de figuras abauladas – e, por consequência, da figura humana, formada essencialmente por formas cilíndricas e esféricas. A luz refletida é um desvio na direção da luz principal, que rebate na superfície onde o objeto está apoiado e volta a iluminá-lo, porém com menos intensidade. Nessa superfície, identificamos, também, a sombra projetada pelo objeto, à direita, o qual perde definição progressivamente, de acordo com seu distanciamento da base do objeto. Por meio dessa demonstração simples, Debret se propôs a ensinar os alunos não apenas a hachurar, mas também a ver os objetos, por meio da identificação dos principais padrões de sombra a serem encontrados em formas similares às existentes no corpo humano108.

108 Foge ao escopo desta pesquisa averiguar quais os antecedentes ou quais as tradições nas quais Debret possa ter-se inspirado para propor o estudo da iluminação por meio de um ovo, mas é relevante notar que a utilização de formas esféricas para explicar os efeitos da luz e do sombreamento foi também adotada por outro aluno de David, Bosio, em seu manual de desenho publicado cerca de dez anos antes (BOSIO, ano IX, p. 102). Nele, Bosio descreve os efeitos da luz sobre um globo branco, os tipos de sombra que se formam e suas características. É possível deduzir, então, que, ou essa maneira de estudar o sombreamento era corrente no ateliê de David, ou tinha raízes ainda mais antigas e disseminadas. Atualmente, a utilização desse método para estudar os efeitos da luz sobre os objetos tem sido uma constante em manuais de desenho da figura humana, como nos de Juliette Aristides (2011, p. 160), de Antony Ryder (2000, p. 99) e de Nicolas Lee (2011, p. 34 e 36).

Figura 24 – Jean-Baptiste DEBRET (des.); L. M. PETIT (grav.). Prancha nº 4 do Nouveau Recueil Élémentaire de Dessin, 1812. Calcogravura en manière de

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