Equipe éducative :
2.2.2 Synthèse des indicateurs
Essa é uma sequência lógica do subitem anterior, no que concerne ao significado do Ver-o-Peso para a população de Belém, de o porquê ter sido escolhido como símbolo da cidade ou de outro modo seu patrimônio cultural. “O Ver-o-Peso une o velho ao novo; o tradicional ao moderno; a elite ao popular” (CAMPELO, 2011, p. 46). Essa afirmação de Campelo, pode ser constatada nos depoimentos selecionados e apresentados, adiante, neste texto. Não é de hoje que o Ver-o-Peso alcançou esse status junto ao belenense, mas ao longo da história da cidade; vindo gradativamente a se tornar o seu principal cartão postal e chegando a representa-la simbolicamente. Segundo Lima (2011, p. 71) “Datam do final do século XIX, as primeiras imagens fotográficas da Doca do Ver-o-Peso, ainda sem o Mercado de Ferro, impressas em cartões postais” [...], cujos registros continuam por todo o século XX, adentrando ainda o século XXI, com crescente intensidade.
Há nitidamente uma riqueza cultural cujo ápice do valor está no simbolismo coletivo impregnado no belenense, o que é ratificado por vários autores, como Leitão e Rodrigues (2011, p. 13).
A maior riqueza do Ver-o-Peso está contida no lastro de memória da própria cidade que pode ser ali encontrado. Há muito deixou de ser apenas um porto e uma feira livre, na qual se negocia toda espécie de produtos comestíveis, industrializados, vestuários, artesanato, ervas, etc., para se consolidar como importante lugar de práticas culturais, onde o cotidiano regional e o imaginário amazônico se reproduzem e se perpetuam por meio das mais diversas atividades tradicionais – do preparo de alimentos ao uso de ervas com fins medicinais e místico-religiosos. Nesse sentido, o Ver-o-Peso é também um mercado de bens simbólicos, que alimenta o corpo, a alma e o espírito de uma cidade que mantém elos com o rio e a floresta (LEITÃO; RODRIGUES, 2011, p. 13).
Fazendo uma enquete junto à população da cidade, com pergunta única, sobre “o que o Ver-o-Peso significa para você?”. (Para o entrevistado), as respostas obtidas vêm ratificar o que Campelo (2011) afirma no primeiro parágrafo deste subitem, referindo-se a união de opostos na unanimidade quanto ao seu simbolismo. Aqui são apresentadas as falas de doze pessoas, que fazem parte de um grupo de cinquenta e três pessoas entrevistadas, em diversos locais da cidade, incluindo o Ver-o-Peso e essas dezoito respostas escolhidas nessa narrativa são as que mais representavam as demais.
Olha, o Ver-o-Peso representa pra mim muita coisa.... que, quando eu me lembro... que quando eu tinha meus filhos pequeno eu ia muito lá comprar as
coisa... que lá é mais barato,.... comprar frutas, comprar verdura, legumes, aí eu tinha uma renda muito pouca mas aí... eu conseguia né...assim fazer compras e dava,... dava pra me manter, comprava peixe lá no Ver-o-Peso, as coisas é mais barato lá, melhor que no supermercado,... que no supermercado é mais caro as coisa, lá no Ver-o-Peso não, eu me sentia bem lá, eu nunca mais fui, mas é bom lá (Raimunda Cruz, doméstica, 47 anos, entrevista em 15 de março de 2013)
A dona Raimunda representa aqui um grupo que atrela o Ver-o-Peso aos aspectos relativos à oferta de muitos produtos com preços baixos, quando comparados com outros locais de abastecimento, no caso dela o comparativo é com o supermercado. É importante destacar que diariamente no Ver-o-Peso, há promoção e descontos nos preços de produtos perecíveis ao final do turno da manhã, próximo do meio dia até por volta de uma da tarde, evento esse chamado popularmente de “virada” ou “hora da virada”. É muito comum pessoas comprarem produtos perecíveis com preço bom nessas horas para abastecimento diário ou até semanal, pois o produto conservado em refrigeração tem mais tempo até seu consumo como alimento. É caso do “seu “ João Santana, entrevistado na Pedra do Peixe:
Para mim é uma feira que amanhece, que começa pela madrugada e tem uma importância de eu poder vir aqui, de madrugada, comprar o peixe o açaí e outros tipos de frutas até mesmo verdura que tem aqui com preço muito bom, um mação de cheiro (verde) custa 2 reais e nas feiras um macinho de nada custa o mesmo 2 reais, logo cedo tem tudo isso, é importante pras pessoas que também trabalham aqui, é muito organizado (João Santana, 44 anos, estudante universitário e auxiliar administrativo, entrevista em 13 de março de 2013).
O João Santana também enfatizou o fator preço e embora resida no Município de Marituba (Região Metropolitana de Belém), ele vai constantemente à feira do Ver-o-Peso nas madrugadas de terça-feira e quinta-feira, apanhando ônibus às 3h:40 ele chega à feira por volta de 4h:30 compra principalmente peixe, frutas e verduras e retorna à Marituba chegando lá por volta de 6 horas ou 6h:30.
O Ver-o-Peso representa um espaço e um tempo em que há revelação e o esperado encontro da história com a memória. “A memória buscada – a dos trabalhadores da feira – colocada em termos de uma memória popular encerra, na verdade, uma dupla atitude: a exclusão e inclusão ideológica desta memória”. (CAMPELO, 2011, p. 65)
[...] quando eu ouço falar do Ver-o-Peso vem na minha mente a cultura paraense, quando eu me dirijo até o Ver-o-Peso é como se eu encontrasse o Pará ... vivenciando o que é a vida do paraense, aquela simplicidade da cultura, da origem.... desde sua origem com os ribeirinho, os barcos, ancorando para venderem suas frutas. É onde é possível encontrar as frutas paraenses saborosas, tem concentrado todos os tipos de frutas e os peixes da
região, desde o pirarucu até a pescada, a dourada, a piramutaba, o mapará e outros tantos que você quiser encontrar; mas você tem um pedaço do Pará lindo e principalmente de Belém, concentrado ali naquela margem; aquela natureza toda lhe revigora e lhe dá energia pra você continuar a sua vida como paraense nativo que você é (Joana Paixão, 55 anos, pedagoga, entrevista em 13 de março de 2013).
A dona Joana falou da cultura paraense e da oferta dos produtos regionais, como frutas e pescado com diversidade. Mas para a senhora Maria Mesquita, 54 anos, professora universitária, o Ver-o-Peso significa “a cultura e a raiz paraense”. A resposta de dona Maria foi curta, mas representa a visão de muitas pessoas, que falam que o Ver-o-Peso é patrimônio cultural paraense de vários modos. Lima (2011) realizou pesquisa sobre o patrimônio cultural do Ver-o-Peso, quanto aos aspectos oficiais e o que se diz no Ver-o-Peso a esse respeito e lembra que o mesmo foi tombado pelo IPHAN no ano de 1977 (LIMA, 2011, p. 70). Então o modo de falar sobre cultura ou patrimônio cultural relativo ao Ver-o-Peso é diverso, mas todos têm em mente essa premissa. O que é ratificado pelos estudantes Jéferson e Ana Priscila:
[...] para mim o Ver-o-Peso é o coração da cidade de Belém onde todas as pessoas se encontram para comprar pra vender onde temos o comércio e há aquele contato com o povo com a cultura paraense com os aromas com a culinária então o Ver-o-Peso é mais ou menos isso essa mistura do Pará (Jéferson Ferreira, 19 anos, estudante, entrevista em 15 de março de 2013). O Ver-o-Peso representa além de um ponto turístico ele também abastece a cidade através do comércio e sustento para a economia, porque ele pode além de oferecer os bens de comercio ele também oferece o emprego contribuindo para o ciclo da economia, mas ele também é um ponto de referência para muitas pessoas como os limites próximos que são referenciados como sendo próximo do Ver-o-Peso (Ana Priscila 18 anos estudante, entrevista em 15 de março de 2013).
A estudante Ana Priscila lembra logo do ponto turístico, mas em seguida acrescenta a importância comercial e de geração de renda que o Ver-o-Peso representa e vai encerrar suas considerações lembrando da importância referencial na cidade. Já o advogado Ismael Leite, que não quis dizer sua idade, foi muito além em seus comentários sobre o significado do Ver-o-Peso, iniciando pela sua primeira idéia que é de ser ao mesmo tempo cartão postal da cidade, um espaço urbano e uma referência de diversidade étnica. Falou da preservação da cultura regional e enfatizou o fato da tecnologia e desenvolvimento econômico diminuir a procura daquele local, embora seja um local necessário para a percepção da identidade do povo.
O Ver-o-Peso significa pra mim muito além de um cartão postal ou de um espaço urbano ou mesmo de uma referência de diversidade étnica, o Ver-o-
Peso na verdade ele é um junção de todos esses fatores na medida em que ele preserva as raízes culturais de todo o povo paraense e amazônida. No Ver-o-Peso nós podemos encontrar comidas, ervas e substâncias que não mais são privilegiadas ou usadas na nossa sociedade assim com também fica evidente a diversidade do povo que hoje no âmbito urbano pode parecer um pouco mais restrito, mas o verdadeiro povo amazônida, ele convive e desenvolve suas relações naquele ambiente, então o Ver-o-Peso parece ser na verdade o repositório de um passado do povo paraense, do povo Amazônia que infelizmente devido a tecnologia pelo próprio desenvolvimento econômico vem se tornando menos recorrente mas que nos dias de hoje é um espaço absolutamente necessário, justamente para Ver-o- Peso poder ter a oportunidade de se encontrar e de perceber a essência do povo que formou nosso território (Ismael Leite, advogado, idade não declarada, entrevista em 15 de março de 2013).
Fazendo a enquete com trabalhadores da Pedra como o balanceiro Tetéo, as respostas giraram em torno do local de trabalho “o Ver-o-Peso é o meu local de trabalho, eu venho aqui todas as noites e cumpro um horário” (Tetéo, 14/4/2014), outros como, o carregador Faísca (14/4/2014), dizem isso de outro modo “ é o meu ganha pão”.
A dona Beth Cheirosinha, vendedora de ervas, no Ver-o-Peso, vai além para, ela o Ver-o-Peso “significa o que é pra todos os paraenses, é a representação da Cidade, que em qualquer lugar que se vai, pra reconhecer Belém tem que mostrar logo o Ver-o-Peso... é a cara de Belém, meu querido” (Beth Cheirosinha, entrevista em 14/4/2014). Os trabalhadores do Ver-o-Peso responderam em geral com poucas palavras, a maioria se referindo ao local de trabalho, embora poucos falem da sua percepção quanto ao patrimônio cultural, logo em seguida se referiam ao seu local de trabalho. Mas a Dona Beth Cheirosinha fala do simbolismo à Cidade, ela tem uma percepção mais ampla, reconhecendo o valor simbólico do seu lugar de trabalho e ela é famosa por dar entrevista, onde de certo repete sempre essa ênfase do simbolismo ale encontrado.
A Danielle Larrat estava em um Shopping Center no centro de Belém quando foi entrevistada e disse que:
O Ver-o-Peso é o cartão postal de Belém, é a representação da Cidade de Belém, embora seja um pouco bagunçado, mas nem é culpa dos feirantes, é um lugar muito bonito, uma paisagem muito bonita, eu não vou quase lá, mas gosto muito, gosto do por do sol – lá em cima –na mureta, é muito lindo. É um lugar que todos devem ir (Danielle Larrat, 45 anos, técnica de instrumental odontológico, entrevista em 17/4/2014).
A entrevista com Danielle foi proposital eu procurava por ela, ao ver uma pessoa bem elegante, com sapatos de saltos bem altos e com as mãos cheias de sacolas de compras, eu não hesitei em abordá-la, queria perceber a visão de uma pessoa daquele perfil externo sobre o Ver-o-Peso, felizmente ela me atendeu e ao enquadrar comparativamente sua
resposta, que embora tenha uma frase negativa é semelhante à resposta da Dona Beth, quando se refere a representação de Belém, aí está presente a sua visão quanto ao significado do Ver- o-Peso. Há tempo a Danielle não vai ao Ver-o-Peso, mas gosta e tem referências do local como sendo “lindo” e recomenda que “todos” devem ir ao Ver-o-Peso.
Mas uma só entrevista foi negativa, o senhor Gregório de Almeida vê o Ver-o- Peso com uma visão muito pragmática, eu o entrevistei na Estação das Docas, ele disse:
O que o Ver-o-Peso significa para mim, é que não deveriam dar tanta importância a uma feira que tentam organizar, mas que continua sendo desorganizada, tentam limpar, mas sempre está maltratada, suja e com um odor horrendo. É ladrão pra todo lado. Eu tenho pra mim que existe um engano coletivo, parece que só eu percebo tudo isso, ninguém mais enxerga aquela imundice que aparece quando a maré seca é todo tipo de sujeira que o pessoal que trabalha lá joga. Mas é tido como símbolo de Belém, quem sou eu para ir contra todos, eu sou obrigado a aceitar, mas eu tenho a minha opinião, que eu nem sei se vai te servir, porque é essa. Pra mim se tirar tudo
aquilo de lá não vai fazer falta não. (Gregório de Almeida, 67 anos, comandante de navio mercante, entrevista em 27/4/ 2014).
O Gregório foi muito enfático ao expor sua posição quanto ao significado do Ver- o-Peso, ele me entrevistou também, antes de ser entrevistado pediu minha identificação pessoal e funcional. Depois da entrevista, ele teceu outros comentários, disse que é goiano de nascimento e veio para Belém ainda adolescente, com 16 anos. Trabalha “porque gosta”, mas já tem tempo para se aposentar, no entanto ainda se sente forte e vai esperar a “compulsória” e depois vai morar em Florianópolis, porque “lá sim é cidade organizada”. Ele mora em um condomínio na BR-316 e pouco sai de casa “quando está em terra”. Mas uma coisa ele falou que coaduna com a maioria dos entrevistados: O Ver-o-Peso “é tido como símbolo de Belém e quem sou eu para ir contra todos”; ao declarar isso, o Gregório demonstra que aceita, embora não concorde com a maioria. Ao selecionar as respostas para esse item, eu me questionei sobre o porquê de não entrevistar só paraenses, mas logo refleti que a ideia era essa mesmo de causar reflexão, quanto ao significado do Ver-o-Peso, para as pessoas de um modo geral. Para o Gregório “feira é como é na Europa toda”.
Um integrante do grupo musical que havia em Belém, o Edmar da Rocha do grupo Mosaico de Ravena, compôs uma música denominada “Belém, Pará, Brasil” que trata de desabafar, protestar quanto ao tratamento dispensado à Cidade e ao Estado por parte da Nação, em cuja letra inicia como o verso: “Vão demolir o Ver-o-Peso/ pra construir um shopping center”[...] (EDMAR DA ROCHA, 1992). Esse verso inicial da música, lembra a frase final da fala do Gregório: “Pra mim se tirar tudo aquilo de lá não vai fazer falta”, é um
pensamento de quem não tem nenhuma identidade com o Ver-o-Peso, para o Gregório deveriam demolir o Ver-o-Peso em nome da retrógrada higienização urbana.
Como pode ser observado existe um entendimento linear entre os entrevistados de que o Ver-o-Peso é muito mais do que um local de compras na cidade, é também símbolo dessa Cidade e sua importância cultural está no fato de que todo paraense tem direta ou indiretamente uma relação com esse locus, todos os entrevistados abordados tiveram o que falar sobre o significado do Ver-o-Peso, alguns falaram mais especificamente do local onde estavam, principalmente os que foram entrevistados na Pedra, no Mercado de Peixe, na Feira do Açaí e no setor de refeições.
Como pode ser observado existe um entendimento linear estre os entrevistados de que o Ver-o-Peso é muito mais do que um local de compras na cidade, é também símbolo dessa cidade e sua importância cultural está no fato de que todo paraense tem direta ou indiretamente uma relação com esse lócus, todos os entrevistados abordados tiveram o que falar sobre o significado do Ver-o-Peso, alguns falaram mais especificamente do local onde estavam, principalmente os que foram entrevistados na Pedra, no Mercado de Peixe, na Feira do Açaí e no setor de refeições.
No mês de dezembro de 2015 quando uma emissora de televisão local, afiliada de uma rede nacional, promoveu concurso durante às comemorações dos 400 anos da fundação de Belém, em três categorias: 1) O prato que mais representa Belém; 2) A música que mais representa Belém; 3) O símbolo de Belém nos seus 400 anos. Onde o Ver-o-Peso ganhou com a disputa concorrendo com outros ícones como o Círio de Nazaré, o túnel das mangueiras e o Forte do Castelo, dentre outros. Essa pesquisa promovida por esse veículo de comunicação de massa, veio – em tempo – ratificar o que a maioria dos entrevistados na minha pesquisa para compor esse nesse item.
O símbolo que o Ver-o-Peso representa para Belém, tão cedo não permitirá que esse lugar venha a ser demolido ou mesmo modificado por qualquer motivo e por quem quer que seja, o que é garantido por Lei. Meira, como defendendo essa premissa, arremata assim: Meira arremata esse subitem assim: “Não aceitamos em nenhuma hipótese, sob qualquer justificativa, mexer, mutilar, destruir tal patrimônio. Problemas novos que surgem em função do progresso urbano merecerão soluções outras que não as dessa morbidez de aniquilar o passado (MEIRA FILHO, 1973, p. 169)”.