O primeiro momento da reflexão é o seu pôr. Ao mesmo tempo em que a reflexão é posta, ela é pressuposta, então a posição (Setzung) e a pressuposição (Voraussetzung), momentos próprios da reflexão, são obtidos nesse movimento da reflexão ponente. “Inicialmente a reflexão é o movimento do nada para o nada, ou seja, a negação que se une consigo mesma”, pois, como vimos, a aparência é esse não-ser que só é ser através de sua própria negação como ser, noutras palavras, como essência — negação como negação.309 “Esse unir consigo é em geral igualdade simples consigo, a imediatidade” — negatividade e
308 “Na Ciência da lógica Hegel desenvolve, pela primeira vez, um conceito de reflexão que apresenta o
movimento imanente do pensar objetivo e assim caracteriza a ‘própria reflexão do conceito’. Com isso, a lógica pressupõe ‘uma mudança radical do significado da reflexão’. O que é o novo específico do conceito de reflexão na lógica de Hegel? O novo no conceito de reflexão de Hegel está caracterizado por três momentos: 1. A reflexão se afirma como uma ‘estrutura lógica objetiva’ autonomizada frente à consciência. 2. Com a dissolução da reflexão do sujeito reflexionante, esta se transforma no movimento objetivo das determinações do pensamento. O desenvolvimento das determinações do pensamento pela reflexão ocorre sem se referir a um sujeito pensante. 3. A apresentação do movimento das categorias se baseia na ‘reflexão absoluta’, a qual se apresenta como unidade sistemática da reflexão ponente, exterior e determinante”. IBER, ibid., op. cit., pp. 10- 11.
309 WdL II, trad. pp. 119-20.
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imediatidade constituem os momentos do aparecer da essência.310 “Mas essa congruência [Zusammenfallen]” entre imediatidade e negatividade “não é passagem da negação na igualdade consigo como em seu ser-outro”.311 Pois, como procuramos desenvolver, a essência não se constitui como um outro do ser; se assim fosse, ela teria de ser afirmada como um ser- aí essencial em contraposição a um ser-aí inessencial, o ser, que, por sua vez, também não seria mais ser propriamente dito. Esse movimento pendular, a rigor, caracteriza o movimento da esfera do ser. A Doutrina da essência, por sua vez, internaliza aquele movimento, de modo que já não se trata de uma lógica da interação que supõe dois termos mutuamente externos e opostos, mas uma lógica imanente.
O papel da reflexão na essência é ser a “passagem” — do ser para a essência — “como suprassunção da passagem” — suprassunção da aparência (passagem da imediatidade do ser para a imediatidade mediada da essência) —, “pois ela é congruência imediata do negativo
consigo mesmo”.312 Noutras palavras, essa conformidade imediata da reflexão é um produto do processo de aparecimento da essência: essa união consigo mesma que é a reflexão, “é
primeiramente igualdade consigo ou imediatidade; mas, em segundo lugar, essa imediatidade é a igualdade do negativo consigo”.313 Neste sentido, ela é “a igualdade que se nega a si mesma; a imediatidade, que em si é o negativo, o negativo de si mesmo, é o que não é”.314
Disso se segue, em primeiro lugar, que a saída da aparência é o automovimento mediatizador da imediatidade da essência, automovimento este que é a dinâmica da reflexão. Isso significa que essa imediatidade, antes de ser o começo fixo da reflexão, é o movimento de retorno do negativo consigo mesmo, ou a própria reflexão.315 Ela é pois a posição (Setzung) da essência ou a saída da essência da esfera da aparência do ser. Em segundo lugar, segue-se que a reflexão é esse imediato e não é esse imediato, ela é a imediatidade como um retornar — o negativo de si mesma —, de modo que essa imediatidade é negação suprassumida; ela é, assim, pressuposição (Voraussetzung), pois é negação (superar da negatividade) do negativo como negativo. A reflexão é
pôr, na medida em que é a imediatidade como um retornar; não existe, a saber, nenhum outro, nem do qual nem para o qual ela retornou; ela é, portanto, apenas como retornar ou o negativo de si mesma. Mas, além disso, essa imediatidade é
310 Ibid., trad. p. 120. 311 Idem.
312 Idem. 313 Idem. 314 Idem.
315 Segundo Asmuth, o “retorno” da reflexão ponente é a sua “estrutura circular”. Cf. ASMUTH, op. cit., p. 115.
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negação suprassumida e o retorno suprassumido em si. A reflexão como o suprassumir do negativo é suprassumir de seu outro, da imediatidade. Uma vez que ela é, portanto, a imediatidade como um retornar, um unir do negativo consigo mesmo, assim ela é igualmente negação do negativo como negativo. Ela é, assim, pressupor. — Ou a imediatidade como o retornar é apenas o negativo de si mesma, apenas isso, não ser imediatidade; mas a reflexão é o suprassumir do negativo dela mesma, ela é união consigo mesma; ela suprassume, portanto, seu pôr e, uma vez que ela é o suprassumir do pôr em seu pôr, ela é pressupor. — No pressupor a reflexão determina o retorno em si como o negativo de si mesma, como aquilo cujo suprassumir é a essência.316
Resumindo, a reflexão ponente pode ser mais bem caracterizada como aquela que começa com o nada, pois parte do nulo que é a aparência — a saída da essência que atravessa o ser —, e que põe a própria essência como a referência da reflexão, deixando de lado, definitivamente, o ser.317 Ela também significa o próprio aparecimento da essência na essência, e o seu pressuposto é o ser-posto que é a aparência do ser. A aparência se torna ser- posto mediante o desenvolvimento da essência como refletida em si mesma; ou seja, como reflexão que se reconhece como a ultrapassagem de um imediato dado. Ela lida com o impasse entre a consideração imediata do dado presente e as determinações do pensamento. Mas o pensamento é, por sua vez, uma relação entre o dado presente, o modo como ele aparece, e aquilo que ele é em sua identidade. Essa reflexão “encontra um imediato diante dela, que ela ultrapassa e do qual ela é o retorno. Mas esse retorno é primeiramente o pressupor de algo encontrado diante dela”.318 Ao mesmo tempo, portanto, que a reflexão põe esse ser que é a imediatidade como se refletindo, ou seja, ser-posto, ela pressupõe que se retorne a algo já suprassumido (o ser-posto). Essa pressuposição é, enfim, o suprassumir do pressuposto do ser imediato através de sua própria suprassunção.
A posição é a expressão daquilo que é a pressuposição (aquilo que não é expresso e aceito sem mais). Por essa razão, Hegel irá relacionar a pressuposição com o entendimento e a 316 WdL II, trad. p. 121.
317 Para Iber, a dialética entre posição e pressuposição se dá da seguinte maneira: “Como ser-posto, a
imediatidade é o outro meramente fantasmagórico da reflexão, aquele que deve ser captado, geralmente, apenas como o negativo do retorno em si, a imediatidade que suprassume a si mesma. Na medida em que agora a reflexão suprassume a determinidade da imediatidade posta, o ser negativo meramente fantasmagórico da reflexão, ela é, inversamente, ao mesmo tempo, o unir-se consigo mesma. A reflexão suprassume, portanto, seu pôr no seu pôr e é o pressupor da imediatidade, na qual ela é o retorno em si. Mas nisso reside que a reflexão pressupõe a si mesma como seu outro no pressupor da imediatidade”. IBER, O desenvolvimento da essência como reflexão e a lógica das determinações de reflexão - parte I, op. cit., p. 64.
318 WdL II, trad. p. 121.
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reflexão exterior, pois não há uma demonstração, ou posição, que expresse a origem das determinações de reflexão do entendimento. A dialética entre a posição e a pressuposição, central para o pensamento objetivo, é uma das conquistas mais importantes da Doutrina da
essência, pois é ela que opera a reconstrução das categorias tradicionalmente consideradas mais pelo seu peso histórico do que por sua importância real na composição do pensamento. Com essa dialética, Hegel afirma a necessidade de pôr os pressupostos de todo pensamento.
O ser-posto significa o ser determinado pelo pensamento da essência. Hegel caracteriza seu movimento reflexionante de maneira totalmente distinta da de Fichte — a comparação pode ser esclarecedora: em vez de um ato impulsionador (Anstoß), Hegel afirma um ato reagente absoluto (absoluter Gegenstoß). O movimento da reflexão deveria ser tomado como “a pressuposição do retorno em si — aquilo de onde a essência provém e que é primeiramente esse retorno”, pois a própria pressuposição do autorretorno da reflexão é “apenas no retorno mesmo”.319 Como ato reagente absoluto, ou Gegenstoß, a reflexão se opõe a uma imediatidade e somente através dessa imediatidade é o suprassumir negativo do negativo da própria imediatidade que está contraposta a ela. É somente a posição que fornece a pressuposição que, por sua vez, será o ponto de partida tradicional da filosofia. Mas a pressuposição mesma é apenas um momento ulterior no processo da própria determinação da reflexão.
A imediatidade, que ela pressupõe para si como suprassumir, é pura e simplesmente apenas como ser posto, como algo suprassumido em si, que não é distinto do retorno em si e é mesmo apenas esse retornar. Mas ele é ao mesmo tempo determinado como um negativo, como imediatamente contra algo, portanto, contra um outro. Assim, a reflexão é determinada; na medida em que, segundo essa determinidade, ela tem um pressuposto e começa do imediato como de seu outro, ela é reflexão exterior.320