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Synthèse par annulation

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4.7 Discussion sur la synthèse par d’autres approches

4.7.4 Synthèse par annulation

Os sujeitos passam por um longo período de aprendizagem social que começa com o dia do seu nascimento e se prolonga até ao dia da sua morte, onde os indivíduos irão fazer a interiorização do conhecimento objectivado, de forma a agirem em conformidade com o que está estabelecido pela ordem institucional. Podemos então afirmar que o

25 A Interiorização, neste sentido geral, constitui a base, primeiro da compreensão dos nossos semelhantes

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conhecimento relativo à sociedade é uma percepção no sentido de apreensão da realidade social objectivada, e uma realização, no sentido de continuada produção desta realidade. Bourdieu foi o autor que mais insistiu neste duplo movimento, pelo qual a realidade social se impõe nos espíritos e nos corpos (interiorização da exteriorização), assim como os seus modos de construção por intermédio das diversas práticas sociais (exteriorização da interiorização).

A aprendizagem ou treino social é o processo que a sociologia designa por socialização26. Para que ela se efectue com eficácia os indivíduos terão de adquirir uma competência comunicacional de valor simbólico, em que a competência linguística27 é o seu eixo principal. Um exemplo clássico é o de Victor, uma criança que foi abandonada desde tenra idade numa floresta, e que depois de resgatada e acompanhada por um médico, teve de aprender progressivamente os gestos mais elementares da vida em sociedade, nomeadamente a linguagem verbal, até ser possível estabelecer contacto com outras pessoas28. Este caso, tal como muitos outros conhecidos na história, demonstra que a aprendizagem social para ser levada a cabo, exige muito mais que a existência de um estímulo. O que de facto é relevante haver é uma “percepção” desse estímulo por parte do organismo; i.e., a capacidade de percebê-lo. Ou seja, o estímulo só passa a ser “real” após ser interpretado por um sistema simbólico de significação. Logo, a vida quotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos Homens e, de modo subjectivo, dotada de sentido para eles, na medida em que forma um mundo coerente (Berger & Luckmann, 1999).

Para que o Homem possa retirar significado da realidade envolvente tem de passar por duas fases fundamentais de aprendizagem social: 1. a Socialização Primária, que se inicia com o nascimento e se prolonga durante toda a infância, em virtude da qual se torna membro de uma sociedade e 2. a Socialização Secundária, que se desenvolve ao longo de todo o percurso social do indivíduo, em que o introduz, já socializado, em

26 A Socialização pode definir-se, sumariamente, como o «processo pelo qual os indivíduos interiorizam as normas e os valores da sociedade na qual crescem» - RIUTORT, 1999:78). Como tal, a socialização

pode ser caracterizada, tal como a institucionalização, através de um duplo processo de conservação e

transformação.

27 Trata-se do sistema de regras linguísticas adquirido no interior de uma dada cultura e considerado como

o mais importante conteúdo simbólico e o mais facilitador instrumento de socialização.

28 Esta história verídica que ocorreu no século XIX foi em 1970 adaptada em filme por François Truffaut,

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novos sectores do mundo objectivo da sua sociedade. Por aqui se vê que o ser humano, ao contrário do que acontece com outras comunidades animais, não nasce membro da sociedade, ainda que nasça com uma predisposição para a sociabilidade. Só através de múltiplas interacções com outros seres significativos é que poderá aprender e tornar-se um ser social. Daí que a interiorização da realidade não dependa de «criações

autónomas de significado por indivíduos isolados, mas começa com o indivíduo a “assumir” o mundo no qual os outros já vivem» (Berger & Luckmann, 1999:138).

A socialização primária é a mais determinante, pois é a fase em que o indivíduo vai adquirir as suas primeiras referências sociais, que irão ser usadas ao longo do seu percurso como um “filtro” de interpretação. É uma fase marcante, já que ocorre em circunstâncias carregadas de elevado grau de emoção, uma vez que não se apresenta como pura aprendizagem cognitiva. Sendo um período em que a imitação é a base da aprendizagem, é através da assunção de papéis e atitudes de terceiros que a criança se começa a identificar com outros significativos, ou seja, interioriza-os, tornando-os seus. Tudo isso é feito em modos emocionais29. Já as experiências posteriores, adquiridas em fases secundárias de socialização, «serão apreendidas, com efeito, em referência às

primeiras que contribuíram para estruturar duradouramente as maneiras de pensar e de agir do indivíduo» (Riutort,1999:78).

É também durante a socialização primária que o indivíduo começa a tomar consciência do outro generalizado30, através de uma abstracção progressiva dos papéis e atitudes de outros específicos para com os papéis e atitudes em geral. Quando o sujeito chega a essa situação, demonstra que já conseguiu interiorizar a realidade enquanto tal, bem como a realidade objectiva nela estabelecida e, ao mesmo tempo, fazer o estabelecimento subjectivo de uma identidade coerente e contínua. Dessa forma, sociedade, identidade e realidade cristalizam-se de modo subjectivo no mesmo processo de interiorização e «tornam o indivíduo apto a um convívio social normal dentro e fora do seu círculo

imediato de relações» (Barata, 1994: 194).

29 O mais importante para as nossas considerações é o facto de o indivíduo não só absorver os papéis e

atitudes dos outros mas, no mesmo processo, assumir o mundo deles.

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O marco final da socialização primária é atingido quando o conceito “do outro generalizado” está estabelecido na consciência individual. A partir de então o indivíduo pode ser considerado membro efectivo da sua sociedade, pois possui, ainda que subjectivamente, uma personalidade e um “mundo”. Contudo, há que ressalvar que a interiorização da sociedade, da identidade e da realidade não fica aqui concluída, pois a socialização nunca é total nem nunca está completa. Sobretudo, em sociedades com maior complexidade como é o caso das sociedades modernas, ocidentais e industrializadas.

A socialização secundária decorre da divisão do trabalho e da distribuição social dos conhecimentos. Quanto mais complexa for a estrutura social, maior será a necessidade de se proceder à interiorização de “sub-mundos” institucionais ou baseados em instituições com valores simbólicos diferenciados. Apesar de serem realidades parciais, esses “sub-mundos” possuem também alguma coerência, pois para além de terem igualmente componentes normativos, afectivos e cognitivos, exigem, ainda que de forma menos evidente, um aparelho legitimador. Contudo, a interiorização destas sub- estruturas secundárias vai ser efectuada, através de um processo hermenêutico, interpretativo, onde os registos da socialização primária vêm ao de cima, pois essas formas de interiorização secundárias só serão possíveis através de uma personalidade já formada e de um mundo já interiorizado - «Quaisquer novos conteúdos que devam

agora ser interiorizados terão, de alguma maneira, de sobrepor-se a essa realidade já presente. Há, portanto, um problema de coerência entre as interiorizações primitivas e as novas» (Berger & Luckmann, 1999:147).

Saliente-se no entanto que a interiorização de regras sociais nunca se realiza de forma espontânea. É impreterível haver simultaneamente a intervenção das cada vez mais diversas instâncias sociais31 para se garantir o êxito do processo. A Família, Escola, Igreja, Grupo de Pares, e a Comunicação Social são descritos, hoje, como as principais agências socializadoras dos mais novos.

Por tudo o que ficou dito, a sociofenomenologia, em geral, e o interaccionismo simbólico de cariz construtivista, em particular, manifestam pelas questões da

31 Agências de Socialização constituem todos «os grupos e contextos sociais em que têm lugar processos de socialização significativos» (Giddens, 1997:98).

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“realidade” e do “conhecimento” uma relatividade social desses conceitos. Isto porque disciplinas desta natureza não se preocupam apenas com a variedade empírica do conhecimento nas sociedades humanas, mas também com os processos pelos quais qualquer ‘conhecimento’ se estabelece como ‘realidade social’. Logo, qualquer análise sociológica terá de tomar em consideração os vários contextos sociais em que os conhecimentos são apreendidos, pois só assim será possível entender as realidades sociais construídas com base nesses conhecimentos. De acordo com estas perspectivas é esse conhecimento que compõe a malha de significados sem a qual seria impossível alguma sociedade existir e desenvolver-se.

Por conseguinte, a construção de um mundo significativo é realizado por aquilo que Moscovici especificou de representações sociais para nomear «o conjunto de conceitos,

proposições e explicações criado na vida quotidiana no decurso da comunicação interindividual» (Moscovici, 1981:181). No entanto, e conforme o autor sublinhou, as

representações não são simples replicações de uma exterioridade, pois considera que

«não há corte entre o universo interior e o universo exterior do indivíduo, que o sujeito e o objecto não são essencialmente distintos» (Moscovici, 1969:9). Moscovici, com esta

ressalva reforça a ideia de representação como construção de um objecto e expressão de um sujeito: por um lado ela exprime a relação de um sujeito com um objecto, relação que envolve uma actividade de construção e de simbolização e, por outro lado, é um produto do confronto da actividade mental de um sujeito e das relações complexas que mantém com o objecto (cf. Abric, 1987).

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