Correntemente, as expressões “indústrias culturais” e “indústrias criativas” referem-se ao mesmo fenómeno, abrangem um campo que é extremamente heterogéneo e, muitas vezes, ainda não estão claramente posicionadas, não existindo (talvez por isso) ainda uma definição formal, concreta e consensual.
O termo “industrias criativas” surge em muita documentação política, quer de foro cultural, quer de foro económico e social (emprego, impacto económico, ...). Em muitas das circunstâncias, aparece relacionado com a procura de novos postos de trabalho “which are intended to integrate the cultural sector into the media and technology context of the labour market”98. Nesta lógica, a expressão
“industrias criativas” assinala uma continuação da expressão sua precedente, a de “indústrias culturais”, devido à adaptação do sector cultural ao desenvolvimento das TIC, da SI e da
96 In: “Exploitation and Development of the job potential in the cultural sector in the age of digitalisation” (2001), Final Report –
Summary, commissioned by the European Commission, presented by MKW Wirtschaftsforschung GmbH, Munich, p.19
97 “Uma Nova Dimensão de Oportunidades- Plano de Acção de Acção para a Sociedade de Informação”, Conselho de Ministros,
aprovado em 26 de Junho de 2003, p.5
98 “Exploitation and Development of the job potential in the cultural sector in the age of digitalisation” (2001), Final Report – Summary,
Globalização. Enquanto esta expressão designa, no entendimento da Comissão Europeia99, o
conjunto de actividades em que se inserem o cinema e audiovisual, a edição, a musica e o artesanato, de acordo com o Departamento de Cultura, Media e Desporto Britânico, são consideradas industrias criativas aquelas que “have their origin in individual creativity, skill and talent and which have a potential for wealth and job creation through the generation and exploitation of intellectual property. This includes advertising, architecture, the art and antiques market, crafts, design, designer fashion, film and video, interactive leisure software, music, the performing arts, publishing, software and computer games, television and radio.”100 Esta definição
assume uma mistura de sub sectores do sector cultural como um todo (ver Esquema 6, na pág. 57), com partes do sector das novas Tecnologias de Informação e Comunicação. Integra, portanto, novas formas de produção e distribuição que emergiram com a revolução digital e afectaram a organização económica e o processo de criação de valor. É preciso notar que “the significance of the cultural industry should not be seen solely in terms of economic importance, since culture exists primarily as something immaterial and abstract and, as a result, its effect on society often only emerge indirectly, making cause-and-effect relationships difficult to discern”101.
No entanto, “not even the term “creative industries” has proved to be a sufficient definition for the broad spectrum found at the intersection between audio-visual, multimedia and cultural industries”102. Por este motivo, e porque a expressão “industrias criativas” contribuiu para demarcar
o sector cultural em dois, nomeadamente, o sector cultural “tradicional”, clássico e o sector das indústrias culturais, “it was necessary to leave the classic, more narrowly defined art and cultural sector, and look instead for new synergetic effects between old and new culture”103. Assim, surge o
conceito de “digital culture” (DigiCult) ou “nova cultura”. A esfera de influência do novo conceito abrange, assim, todos os sectores da indústria cultural e da cultura que por terem implementadas TIC’s, entre as quais as tecnologias de multimedia, viram aumentadas as suas possibilidades de sucesso no ambiente digital (ver Esquema 14 -, na pág. 107). Estes são sectores que tiveram de
99http://europa.eu.int/pol/cult/overview_pt.htm acedido a 08 de Janeiro de 2004
100 Departament of Culture, Media and Sport (DCMS) (1998): “Creative Industries Mapping Document”, London”, acessível em
http://www.culture.gov.uk/creative_industries/QuickLinks/publications/default.htm?properties=archive%5F1998%2C%2C acedido a 16 de Janeiro de 2004
101 “Exploitation and Development of the job potential in the cultural sector in the age of digitalisation” (2001), Final Report – Summary,
commissioned by the European Commission, presented by MKW Wirtschaftsforschung GmbH, Munich
102 idem 103 ibidem
recorrer às novas tecnologias para alcançar o cumprimento integral das suas funções sociais, económicas e culturais, quer estas se refiram a museus, bibliotecas, arquivos ou à preservação de monumentos históricos.
A expressão Digicult abrange, portanto, o domínio da Digital Heritage e do Cultural Content. Sendo também a designação de um programa de investigação da Comissão Europeia, a pesquisa deste domínio, e fomentada por este programa, abrange o desenvolvimento de ferramentas e sistemas tecnológicos inovadores para a exploração dos recursos culturais patrimoniais, tanto na forma tradicional/convencional, como na forma digital. Estes últimos englobam dois tipos de recursos: por um lado, aqueles que foram criados como substitutos digitais dos objectos originais (que integram o conjunto dos recursos tradicionais) detidos por instituições culturais ou cientificas, i.e., bibliotecas, museus, arquivos, centros de pesquisa, universidades, entre outros; por outro lado, os que são criados originariamente na forma digital - os born digital – ou seja, aqueles que têm sido criados através das TIC e que existem apenas na forma digital.
Considerando que os recursos patrimoniais culturais e científicos são de valor inestimável para o presente e o futuro da Europa, tanto como bases de conhecimento únicas, como em termos do seu potencial comercial, a pesquisa neste terreno é conduzida pela necessidade de assegurar que as instituições que possuem tais recursos explorem ao limite as oportunidades criadas pelo advento das tecnologias digitais para fornecer acesso de qualidade, assim como para a sua preservação para as gerações vindouras.
Pela análise do Esquema 14 -, depreende-se que a cultura e o multimedia são como “two ends of a spectrum which flow together in the broad sector of digital culture”104. Neste “espectro” não há
fronteiras nem limites, as transições são fluídas. A proximidade entre os diferentes sub sectores do multimedia e da cultura “tradicional”e a cultura digital varia, não podendo ser localizada com precisão. A este propósito não se deve descurar que em face da cada vez maior interconectividade entre os agentes económicos, os padrões de mobilidade actuais tiram sentido à ideia de sectores económicos estanques, e o pensamento sectorial dá lugar a uma abordagem global.
O termo genérico TIMES, cada vez mais usado, consubstancia o sector em que se reúnem as Telecomunicações, a Internet, o Multimedia, o comércio electrónico (E-commerce), o Software e a
Segurança. Geralmente aplica-se na cobertura de todo o sector audio-visual (multimedia), incluindo áreas da indústria cultural como a televisão, a publicação e a industria discográfica.
Esquema 14 - Digital culture: conexões e sinergias entre os sectores da cultura e as TIC
Adaptado de “Exploitation and Development of the job potential in the cultural sector in the age of digitalisation” (2001), Final Report – Summary, commissioned by the European Commission, presented by MKW Wirtschaftsforschung GmbH, Munich
A grande vantagem desta definição sectorial é que ela abrange todas as cadeias de valor acrescentado, sejam horizontais ou verticais. Cobre, portanto, não apenas o sector cultural, incluindo o sub sector orientado para a produção de conteúdo, nomeadamente as industrias criativas, como também todo o sector tecnológico, na sua vertente de fornecimento de infra- estruturas e dispositivos tecnológicos.
Desta forma, “cultura digital” é o resultado da interacção entre o sector cultural como um todo, o sector TIMES e o mercado dos serviços e distribuição. O primeiro fornece os conteúdos, o segundo a tecnologia e o terceiro a sua difusão. Tal como mostra o Esquema 15 - (pág. 108), a digital
culture resulta da junção de “forças” dos elementos conteúdo, tecnologia e serviços. Além das
diferenças apontadas entre cultura “tradicional” e cultura digital, em termos económico-sociais há uma outra diferença que as distingue. Enquanto na segunda o fluxo de emprego é dinâmico, na primeira não.
Os sub sectores tradicionais da cultura podem, portanto, beneficiar dos desenvolvimentos que ocorrem nas interfaces entre os diferentes sectores que compõem a nova cultura, “with additional jobs also being generated in tradicional culture from developments in the digital culture”105.
Efectivamente, o potencial económico-social (por exemplo, do mercado de trabalho) no sector cultural no seu conjunto, não pode simplesmente ficar a dever-se ao “segmento” da cultura digital,
105 ibidem
uma vez que a dinâmica deste último é gerada pela interacção entre os actores da velha e da nova cultura, com repercussões na velha e na nova economia, dado que esta induz aumentos substanciais de procura de serviços e produtos daquela. Esta forte interdependência conduz a que as fronteiras entre a velha cultura e a nova cultura sejam tão indistintas quanto as que separam a indústria dos serviços. Uma forma eficaz para estabelecer fronteiras entre actividades de uma e de outra cultura, é integrar essas actividades na cadeia de valor acrescentado: quanto maior for o valor acrescentado, maior é a possibilidade da actividade se enquadrar na “nova cultura”.
Esquema 15 - Digital Culture: União de Forças de Tecnologia, Conteúdo e Difusão
Fonte: “Exploitation and Development of the job potential in the cultural sector in the age of digitalisation” (2001), Final Report – Summary, commissioned by the European Commission, presented by MKW Wirtschaftsforschung GmbH, Munich