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Synchrotron radiation

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Uma das identificações dos sujeitos desta investigação são seus sentimentos diante da pesquisa, os quais consegui captar como marca de auto-valorização por estarem participando de um empreendimento cujas presenças têm visibilidade, têm suas autorias. Diante disso, tomei tais sentimentos como procedimentos metodológicos de apresentação desses sujeitos-crianças.

A fenomenologia, de certo, possibilitou buscar uma metodologia que assegure as significações que impregnam a forma como pesquisador e pesquisados se envolvem na construção da pesquisa. Na sofisticada tecnologia científica, o sujeito da pesquisa passa a ocupar o lugar de objeto morto, manipulado pelo rigor dos procedimentos epistemológicos que garantem o fetiche pela objetividade. A cientificidade, então, está posta na oposição entre o nós e o outro. Barthes (apud Costa,1995:18) apropriadamente fala,

Estou preso nessa contradição: de um lado, creio conhecer o outro melhor do que ninguém e afirmo isso triunfalmente a ele (Eu te conheço. Só eu te conheço bem!); do outro lado, sou freqüentemente assaltado por essa evidência: o outro é impenetrável, raro, intratável; não posso abri-lo, chegar até a sua origem, desfazer o enigma. De onde ele vem? Quem é ele? Por mais que me esforce não saberei jamais.

Essa é uma intencionalidade que não se faz neutra, porque mesmo sabendo ser o “outro impenetrável”, “raro”, “intratável”, mesmo concordando que “não saberei

jamais”, esforcei-me em abri-lo, para decifrar o seu enigma e, principalmente, para

reinterpretá-lo ( OLIVEIRA, 1999). Tudo isso me faz trazer para este trabalho algumas inquietações sobre a ritualidade da pesquisa. São tensões, conflitos e ações na busca do conhecer o outro. Pensar a infância como objeto da ciência, não seria localizar a criança, o outro exótico? Não seria pertinente a provocação de Larrosa (2003, p.183) quando diz: “As crianças, esses seres estranhos dos quais nada se sabe, esses selvagens que não entendem nossa língua”?. Ao pretendermos investigá-las, desfazer o enigma como tarefa de pesquisa, não podemos prever nem mensurar a força das

significações que as crianças imprimem no acontecer da pesquisa. A maneira como se inseriram na pesquisa, como organizaram e agendaram nossos encontros e como impregnaram de valor suas participações é uma expressão desse mistério.

Participaram da pesquisa quarenta crianças entre seis e doze anos. Devo ressaltar que: primeiro, a participação na pesquisa era livre, o critério era desejar compartilhar esse trabalho. Decisão que elas tomaram após uma exposição do que era a pesquisa; segundo, embora a maior parte dos encontros tenha acontecido nas escolas, não foi considerado como pretensão investigá-la. Nesse caso ir até a escola, foi um recurso operativo para viabilizar a investigação com um maior números de crianças. Algumas foram entrevistadas fora da escola, em suas casas, por exemplo, por sugestão delas, acharam que assim ficariam mais à vontade, já que o intervalo da escola era muito curto. Dessa forma, foram formados cinco grupos compostos de alunos e alunas das escolas: Miguel Calmon, Ivo Bono, Via Magia, Cupertino Lacerda e Phateon. Foi incluída, ainda, uma criança de nove anos que estuda no Colégio São Paulo.

O primeiro grupo foi formado por alunas da escola Miguel Calmon da rede pública de ensino no final de 2004. Cheguei até elas através da vice-diretora que já me conhecia, expliquei-lhe a pesquisa e ela permitiu a minha entrada nesta escola. Doze crianças, dois meninos e dez meninas, inicialmente aceitaram participar da pesquisa, logo depois os dois meninos saíram do grupo. No inicio da pesquisa as crianças tinham entre nove e dez anos. Hoje estão com onze e doze anos. Todas moram em comunidades pobres, são afro-descedentes, os pais exercem profissões mais diversas como pintor de parede, motorista de ônibus. As mães trabalham como diaristas, empregada domésticas e no comércio local. Quatro delas moram com as avós, têm pais separados. No turno oposto à escola, fazem tarefas domésticas. Gostam de brincar, muito embora, digam que, muitas vezes, em casa e na escola são proibidas de brincar. Passaram por diversas escolas públicas, algumas por particulares.

Perguntei o que as motivaram a participar na pesquisa e, de modo geral, responderam que ninguém nunca se interessa em saber o que elas têm a dizer. Reconheceram a importância de suas participações porque, segundo elas, é bom que as pessoas saibam o que pensam as crianças sobre a escola. Então, falar e ser

reconhecida nesta fala foi a motivação maior para a decisão de participar da pesquisa. A inserção desse grupo na pesquisa foi bastante rica e surpreendente e, aqui, retomo as questões acima colocadas sobre o esforço que fazemos na busca de conhecer o

outro. Muitas vezes, o outro somos nós pesquisadores, somos transformados em

exóticos, passamos a objeto de investigação. Um exemplo do que falo ocorreu quando estávamos realizando a entrevista coletiva.. Estávamos quase no final dos trabalhos quando Renata teve a idéia de me entrevistar e todas concordaram, então, ela segura o gravador chega perto de mim e me faz a pergunta: Professora, como foi sua infância? Houve um momento de expectativa, risos e olhares de cumplicidade davam a tonalidade àquele momento surpreendente para mim e divertido para elas. Eu, sinceramente, não esperava por essa pergunta. Respondi com uma voz tonalizada de surpresa: Olha que pergunta boa!

Passei, então, a relatar como foi a minha infância em Itabuna, interior da Bahia. Falei da minha infância vivida como criança pobre e trabalhadora, das muitas privações por que passei, da alegria que encontrava nas brincadeiras de rua, dos banhos que tomava no rio que passava no fundo da minha casa, de como foi difícil a minha escolaridade. Meu relato ia sendo acompanhado com atenção e interesse.Algumas passagens foram sendo identificadas por elas como comum às suas infâncias, isso gerou comentários e novas perguntas. Queriam saber se eu gostei da escola, se era castigada pelas professoras, se apanhei em casa, do que eu mais gostava de brincar. Narrei, então, as lembranças que guardo da escola, tais como: os castigos, a dificuldade em ser alfabetizada, na compreensão da professora desta época, o que resultou no meu afastamento temporário da escola; lembrei das brincadeiras com os colegas; do prazer que tinha em aprender matemática, interpretar textos e fazer desenhos. Lupita disse: “Olha tem tanta coisa parecida com infância da gente”. Ficaram admiradas por eu ter trabalhado na infância, ter vindo do interior para Salvador com minha família em busca de melhores condições de vida, por eu ter um filho e por eu trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Cristal disse: “Pensava que a senhora só estudasse”. Falei da minha família, em particular, sobre a coragem da minha mãe em criar nove filhos sozinha. Perguntaram como eram os alunos na universidade, que

matéria eu ensinava, o que eu gostava de fazer nas horas em que não trabalhava, nem estudava.

Entendo este momento, simbolicamente, como uma ruptura na minha condição de adulta, elas queriam algo que nos aproximasse no acontecimento da pesquisa. Elas queriam saber da minha infância, queriam capturar meus sentimentos sobre ela e sobre este tempo. No meu entender, havia uma inquietação subtendida: pode alguém pesquisar sobre a infância sem ter, no presente, as lembranças de sua própria infância? Então, através das minhas lembranças narradas, fui sendo investigada, tornei-me o

outro, o exótico. Passei a uma nova condição: uma adulta referenciada na minha

infância.

A minha experiência com este grupo redimensionou todas as minhas pretensões iniciais para a construção de dados junto com às crianças. Dei-me conta de que o meu tempo não era o tempo delas. Por conta disso, os ritmos e tempos das crianças passariam a dimensionar todo o trabalho de construção de dados junto a elas. Assim, tive que ir várias vezes na escola para que fosse possível encontrá-las ao mesmo tempo. Foi muito interessante porque elas passaram a agendar os encontros conforme o tempo que tinham, ou seja, fizeram um mapa das aulas vagas e usamos esses horários. Começa assim uma negociação nos procedimentos para construção de dados, o que, decerto, vai redimensionar a metodologia inicialmente arquitetada. Nem todas aceitaram o diário proposto por mim, onde registrariam diariamente os acontecimentos na escola, preferiram somente participar das entrevistas coletivas.

Outro arranjo interessante que elas criaram foram as conversas sem gravação. Isso só ocorria quando não estavam todas juntas, para realizar as entrevistas. Assim que eu chegava na escola elas viam ao meu encontro correndo e diziam: “Professora hoje não está todo mundo, vamos conversar”. Tivemos alguns momentos como esses e ficávamos, no intervalo da aula, sentadas nos degraus da escada que dava acesso ao andar de suas salas de aula. Mas, avisava que ia fazer anotações para que eu não me esquecesse o que diziam. Duas alunas deste grupo me entregaram um texto de uma página escrito por elas, visto que tiveram seus diários rasgados por suas mães. No meu entender, essas formas de participar da pesquisa tiveram um sentido para elas, o falar e

serem escutadas. Considerei todos esses acontecimentos como importantes no movimento da pesquisa.

O segundo grupo foi composto de oito crianças de seis anos, sendo quatro meninos e quatro meninas. Formavam uma turma de alfabetização da Escola Phanteon. Meu contato com essa escola ocorreu através da mediação de aluna do curso de pedagogia da faculdade em que trabalho. É uma escola privada e fica situada em um dos bairros nobres de Salvador. Meu acesso foi articulado por uma aluna da faculdade em que sou vinculada. Trabalhei com esse grupo nos meses de abril e maio. São crianças, segundo informação da professora, de famílias de classe média. Têm algumas que passam o dia todo na escola, um turno estudam e no outro fazem as tarefas e recebem orientação pedagógica. Fazem atividades como capoeira dança, música e informática. Caio me disse: “Faço capoeira, porque dança é só para as meninas”, Alice de pronto retrucou dizendo: “Nada disso, os meninos também podem dançar e as meninas podem fazer capoeira”. Eduarda disse: “Eu faço capoeira e não sou um menino”. E assim, eles iam falando sobre si mesmos. Disseram-me que gostam de assistir a TV, de fazer passeios com os pais e brincar com seus melhores amigos. Adoram a escola e a professora.

Antes de conversar com as crianças, fui apresentada à professora e expliquei sobre a pesquisa. Logo em seguida, ela consulta a turma e todos aceitam participar dos trabalhos. Então, explico para todos o que é a pesquisa. Disse que iria gravar nossas conversas e eles/elas ficaram empolgados, pois me disseram que adoram ouvir a própria voz no gravador. Pergunto de que outra forma gostariam de falar o que pensam, escolheram o desenho. Depois de alguns encontros, no decorrer da semana, fica definido que, para não alterar as atividades planejadas pela professora, passo a encontrá-los sempre às sextas-feiras, Pedro disse, “Na sexta, a gente não tem informática, você pode brincar com agente no recreio, mas você tem de trazer seu lanche”. Concordo com essas recomendações. Esse grupo foi o que mais subverteu a minha tarefa investigativa em momentos de brincadeira. O gravador foi transformando em um brinquedo exótico, todos queriam manuseá-lo. Todos queriam ser entrevistador. Então, resolvemos organizar as entrevistas de modo que cada um fosse entrevistador e

entrevistado. Em seguida, cada um ouvia o que tinha falado. Sempre achavam graça ao escutar a própria voz. Com isso, tivemos que aumentar os dias para as gravações.

O terceiro grupo foi formado foi com alunos do colégio Cupertino Lacerda da rede pública. O primeiro encontro com estes/estas alunos/alunas ocorreu na sala de aula da 5ª série, do turno vespertino, com uma média de vinte alunos entre nove e quinze anos. Segundo o mapeamento feito por estes estudantes, havia na sala apenas quatro crianças entre nove e doze anos, todavia apenas dois se reconheceram como tal e aceitaram participar da pesquisa. Mesmo as crianças de doze anos se diziam “pré- adolescentes”.

Apresento meu trabalho, digo o que estou pesquisando. Os que se diziam “mais velhos” indicavam os que, segundo eles, eram crianças: “. Foi dessa forma que apenas Jonatas e Fabiana passam a fazer parte da pesquisa. São crianças que moram em comunidade pobres de Salva\dor, os pais trabalham o dia todo. Jonatas fala um pouco da sua família, tem dois irmãos que também trabalham e estudam. Gosta da família e diz que é bem cuidado pelos pais. Decidiu fazer as entrevistas. As gravações sempre ocorreram antes do início da aula. Quando a sirene tocava, tinhamos de interromper e marcávamos outro dia pra continuarmos. Levei ao seu conhecimento o roteiro de entrevista elaborado pelo primeiro grupo de alunas do Colégio Miguel Calmon, li o roteiro e ele disse: “Legal” . Perguntei se gostaria de acrescentar mais alguma pergunta e ele disse que as perguntas estavam boas. Por conta do tempo reduzido tivemos seis encontros para as gravações e conversas informais.

A outra criança, Fabiana, não quis falar da família, disse apenas que tem uma irmã que estuda no mesmo colégio que ela. Disse que não gostaria de gravar entrevistas porque tem vergonha de falar e me perguntou se podia escrever. Entrego a ela um caderno para que possa fazer suas anotações. As devoluções dos primeiros escritos ocorreram três semanas depois, conforme ela demarcou, tive que esperar o seu tempo. No caderno escreveu poemas, letra de mùsica, mensagem de auto-ajuda.

O quarto grupo. Esse grupo foi formada por Roberta, nove anos. O contato com essa criança ocorreu através de sua mãe, aluna da disciplina que eu leciono na faculdade em que trabalho. Roberta sempre acompanhava sua mãe no horário das minhas aulas. Nessas ocasiões conversava comigo, assim, fiz o convite para que

participasse da pesquisa. Ela aceitou e imediatamente sugeriu a inclusão de suas amigas e colegas da escola: Clara e Lúcia. Ficou por sua conta agendar o nosso primeiro encontro. Após ter marcado a data, ligou para mim e disponibilizou os telefones de contado das mães de suas colegas. Esse grupo, também, só gravava as entrevistas quando estavam todas juntas, dessa forma trabalhei com entrevista coletiva. Em outros momentos, conversávamos sobre a escola, as coisas que gostavam de fazer. Roberta agendou dois encontros em sua casa. No primeiro, só foi Clara, por conta disso, apenas conversamos. Nesse dia, a conversa foi interrompida para que elas colocassem um CD contendo músicas feitas pelos alunos da sua escola. Roberta me solicita atenção especial para ouvir a música composta por ela, Clara e Lucia. Em seguida, convidaram- me para assistir a um programa infantil “O sítio do Pica-Pau Amarelo”7. Durante as conversa, elas sempre disputavam a vez para falar, nesse caso, chegamos à conclusão que seria melhor organizar as conversas para que todas tivessem a oportunidade de falar. Novamente disputavam quem falava primeiro. Elas sempre, a seus modos, entravam em acordo

O quinto grupo foi formado dezoito crianças, sendo dez meninas e oito meninos da escola Ivo Bona, vinculada à rede pública municipal de ensino. A idade era entre seis e onze anos. A escola fica localizada em um condomínio de luxo na região de Vilas de Atlântico, em Salvador. Ela atende aos filhos dos caseiros desse condomínio. A escola tem uma única sala de aula e a professora trabalha com a denominada classe multiseriada, são vários níveis de escolaridade em uma mesma sala. Assim, como nas outras escolas, tive um primeiro encontro para expor a pesquisa para as crianças. Quem me recebeu foi a representante da turma, uma menina de dez anos que me conduziu até à sala de aula. Passo uma manhã com eles. Em seguida todos se apresentaram, disseram seus nomes e o que cargo que ocupavam na escola(os cargos são: representante de sala, encarregado da horta, limpeza, recreio). A professora perguntou quem estaria interessado em participar da pesquisa e cada um ia levantando a mão e dizendo “eu professora”. Nossos encontros foram interessantes, alegres e prazerosos. Participei de algumas aulas, lanchei junto com eles e partilhei o recreio. Nesses momentos, conversamos sobre as brincadeiras preferidas, o que mais

faziam na escola. Assim como o primeiro grupo, as entrevistas foram coletivas e conduzidas por eles.

Além dos grupos formados, contei com a participação de Luiza que estudava em um colégio da rede privada de ensino que atende alunos cujas famílias têm alto poder aquisitivo. Luiza tem nove anos, é filha de um casal de amigos, nos encontramos na universidade- ela acompanhava a mãe- fiz o convite para participar da pesquisa e ela prontamente aceitou. Depois, por telefone, conversamos e ela sempre agendava os encontros no horário em que não estava ocupada com seus afazeres escolares. Ela pratica esporte, adora brincar com as amigas e conversar. Tem um irmão adolescente, diz que adora seus pais.

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