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Dans le document HP 64760/HP 6476180960Emulation/Analysis (Page 123-126)

Jun-Hyung Jhi, que pesquisou a recepção da teologia rahneriana na soteriologia da teologia da libertação, recorda que Rahner frequentou por dois anos o seminário de Heidegger, como estudante, em Freiburg. Foi com este filósofo que o teólogo de Innsbruck aprendeu a tomar a pergunta do ser como ponto de partida da metafísica. Contudo, Rahner afirmava que sua teologia tinha pouco que ver com Heidegger. Antes, houvera sido mais influenciado pelo jesuíta belga Joseph Maréchal e por Tomás de Aquino (JHI, 2006, p. 39- 40). Bernard Sesboüé lembra que Rahner encontrou estímulos para uma “teologia transcendental” já em Inácio de Loyola: “Nos Exercícios, a experiência de Deus é vivida em sua ordem propriamente sobrenatural. A partir daí, Rahner se interrogará sobre as condições de possibilidade na natureza humana da experiência da graça de Deus, [...] da recepção de uma palavra de revelação” (SESBOÜÉ, 2004, p. 43). Segundo Jhi, Maréchal aceitou o método transcendental de Kant, mesmo que este tivesse por objetivo analisar como a unidade a priori dos conteúdos chegava a sínteses e ampliava o conhecimento humano, concluindo que “o nosso conhecimento [...] não se dirige aos objetos, mas os objetos [...] se dirigem ao nosso conhecimento” (JHI, 2006, p. 40).173 Maréchal, contudo, estava consciente que, com isto, Kant não pretendia abranger o fundamento do conhecimento – o Ser absoluto, que

172 “Boff versucht, den Begriff der Gnade holistisch zu verstehen! Das heiβt, er bemüht sich darum, zwischen der Gnade Gottes in der Schöpfung und der Gnade Gottes in der Geschichte der Schuld eine Kontinuität herauszuarbeiten und darzustellen, dass die christologisch-eschatologische Dimension die Geschichte durchdringt. In diesem Sinn ist die Gnade Gottes ein Begriff, der so groβ wie Gott und so groβ wie das Leben ist. Gott begegnet den Menschen in ihren tiefsten Ängsten und Hoffnungen. [...] Bei Boff bedeutet Gnade ‚Erlösung‘, aber er versucht, diesen Begriff als geschichtlich relevant darzustellen, so dass er auch vom Standpunkt der Armen und angesichts bestehender Ungerechtigkeit eine Bedeutung hat”.

173 “Sich nicht unsere Erkenntnis [...] nach den Gegenständen richtet, sondern die Gegenstände [...] sich nach unser Erkenntnis richten”.

poderia ser identificado com Deus. Assim, o jesuíta belga, para resolver este impasse, tomou a metafísica do conhecimento de Tomás de Aquino e a contrapôs a Kant (JHI, 2006, p. 40-41). O resultado notado por Jhi foi o seguinte: em vez da razão, é o Ser e a dinâmica interna do conhecimento que é sublinhada como a condição mais elevada (JHI, 2006, p. 41). Assim, há sempre, pelo conhecimento, uma busca “para a verdade e assim para a finalidade [...], que todos os objetos finitos sempre se relacionam com um fundamento primevo infinito e, com isto, completam sua objetivação” (JHI, 2006, p. 41).174

Desta forma, Maréchal pôde entender Deus “como a meta última de nossa dinâmica do conhecimento, respectivamente, Deus como fundamento último que possibilita o conhecimento humano. Com isto, [...] o problema do conhecimento é estreitamente associado com a pergunta por Deus” (JHI, 2006, p. 41).175 A antropologia transcendental, como Rahner denomina este método de sua teologia, é inspirado em Maréchal.176 Assim, como bem definiu Gibellini:

Na experiência do homem é preciso distinguir entre um a priori e um a posteriori. O mundo da experiência humana, considerado em seus conteúdos, é a posteriori, quer dizer, adquirido, e categorial, quer dizer, refletido, tematizado e passível de diferentes classificações; mas ele se mostra subentendido por um a priori, quer dizer, não adquirido, mas sempre dado com a existência humana, e transcendental, quer dizer, dado de maneira refletida e atemática, mas que é o único a tornar possível a realidade categorial, ou seja, o conhecimento, a ação e as demais experiências humanas. O transcendental diz respeito justamente “à condição da possibilidade” do conhecimento, da ação e das outras experiências humanas, ou seja, à condição da possibilidade da experiência categorial. O conteúdo da experiência humana é a posteriori e categorial; a condição da possibilidade de tais experiências é a dimensão a priori e transcendental e é constituída pela estrutura do espírito finito no mundo (GIBELLINI, 1998, p. 227).

Desta forma, como destaca Herbert Vorgrimler – que foi um dos principais colaboradores de Rahner –, há, no ser humano, uma abertura básica que não pode ser preenchida. Antes, está aberta a algo indizível (VORGRIMLER, 2006, p. 226-227). Do ser humano em permanente abertura, Rahner pode falar, agora, do “existencial sobrenatural”. De acordo com Gibellini, o “existencial” é um termo emprestado de Heidegger, sendo empregado por Rahner para designar “a determinação do ser do ser humano” (GIBELLINI, 1998, p. 230). Todavia, este “existencial” passa a ser “existencial sobrenatural” por causa da graça divina. Segundo Gibellini, a graça significa, em Rahner,

174 “Zur Wahrheit und so die Finalität [...], die alle endlichen Gegenstände immer schon auf den einen unendlichen Urgrund be-ziehen und damit deren Objektivierung voll-ziehen”.

175 “Als das letzte Ziel unserer Erkenntnisdynamik bzw. Gott als den ‚letzten ermöglichenden Grund des menschlichen Erkennens‘. Damit ist (...) mit dem Erkenntnisproblem die Gottesfrage auf das engste verknüpft”. 176 Como lembra Jhi, “Rahner foi designado, com J. B. Lotz, W. Brugger e E. Coreth, entre outros, ‘oportunamente como escola alemã de Maréchal’ [wurde Rahner mit J.B. Lotz, W. Brugger und E. Coreth u.a. “gelegentlich als deutsche Marechal-Schule” bezeichnet] (JHI, 2006, p. 42).

[...] uma realidade que é dada por Deus numa relação dialogicamente livre e portanto indevida e sobrenatural. Mas [...] é ao mesmo tempo uma realidade que é sempre e por toda a parte no centro mais profundo da existência humana à maneira de oferta, à maneira de aceitação ou de recu-sa, de tal modo que o homem jamais pode escapar desta característica transcendental de sua essência (GIBELLINI, 1998, p. 230).177

É por este motivo que se pode falar do ser humano como permanentemente “ouvinte da Palavra de Deus” e de sua “vocação transcendental”.

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