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5 Proof Organization of Main Theorems

5.1 Symmetric Case

Margarida ou também como é chamado nas atas como Grupo de Mulheres Quilombolas Damásia Margarida, foi organizado pelas mulheres da ARQIN com o intuito de auxiliar na renda das casas da comunidade através do trabalho coletivo e feminino.

A proposta de formar o grupo surgiu após Eli, uma mulher quilombola da comunidade que acreditamos ser também a secretária da associação, ter participado

de uma conferência de Igualdade Racial em Florianópolis37, na qual tomou

conhecimento de outras comunidades quilombolas nas quais haviam grupos formados por mulheres com o propósito de produção de renda extra:

Eli passou informes do projeto do MDA para as mulheres quilombolas, falou da surpresa ao perceber que as 21 comunidades que estavam no encontro,

37 Ata Número 19 do dia 24 de julho de 2004. O nome exato da conferência e a data em que ela foi

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todas já tinham algum projeto iniciado, só a Invernada dos Negros não tem nada iniciado. Falou também da reunião do período da manhã com as mulheres que decidiram trabalhar com os projetos de geração de emprego e renda de: horta, artesanato, padaria. Eli falou, também, que dentro do projeto do MDA, a primeira ação é a formação38.

O projeto do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA)39 para as mulheres

quilombolas faz parte do Programa de Promoção de Igualdade de Gênero, Raça e Etnia (PPIGRE), proposta pelo mesmo órgão governamental. O intuito do projeto é promover o acesso das mulheres, de forma coletiva, às atividades que potencializem a ocupação, produtividade e autonomia das mesmas em prol da comunidade. Através do apoio de políticas públicas e formas de assistência técnica e de crédito, as mulheres organizam-se na produção de produtos locais, selecionados por elas, para a comercialização dos mesmos.

Como dito por Eli, compreendemos que a necessidade de autonomia das mulheres quilombolas não é algo exclusivo da comunidade Invernada dos Negros, Monteiro fala sobre esse mesmo exercício de protagonismo sobre as mulheres do Vale da Paraíba:

Está intrínseca nessas ações a necessidade das mulheres terem mais autonomia e uma fonte de renda para as famílias, mesmo reforçando os tradicionais papéis de gênero. As transformações ocorridas no mundo exterior afetam e também transformam o modo de vida das comunidades quilombolas, e como tal, os espaços de atuação das mulheres quilombolas, que agora abraçam outras lutas, sempre em busca de melhores condições de vida. (MONTEIRO, 2014, p. 1743).

Não sendo um fenômeno isolado, as mulheres ocupam espaços de liderança e através do trabalho coletivo, produzem meios que melhoram as condições de vida de seus núcleos familiares e da comunidade em geral, através da produção de mercadorias e empregos relacionados a comercialização das mesmas.

O Grupo de Produção de renda e emprego Damásia Margarida foi

especificamente formado em uma reunião40 apenas com mulheres, com a presença

de representantes do Movimento Negro Unificado (MNU), mulheres de outras comunidades que relataram suas experiências com seus grupos formados pelo MDA e participantes da diretoria da ARQIN. A quilombola Eli que trouxe em reunião

38 Ata Número 19 do dia 24 de julho de 2004.

39 Para mais informações, acessar http://sistemas.mda.gov.br/aegre/index.php?sccid=588. 40 Ata número 24 do dia 1 de outubro de 2004.

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anterior a pauta da formação do grupo se tornou coordenadora do projeto e abriu a reunião.

A reunião inicia com a discussão acerca de quais produtos serão escolhidos pelas mulheres para sua produção. Vanda, representante do MNU, faz uma fala sobre a importância da criação do grupo e da identificação do mesmo com a história de produção dos quilombos. Além disso, ela ressalta a relevância do trabalho coletivo e da construção da identidade da mulher quilombola.

Sobre a coletividade, as mulheres presentes debatem o seu significado e que este implica em construir em conjunto o sucesso da comunidade e a partir deste trabalho, elas resgatam a forma de produzir dos seus antepassados:

[...] quando pensamos, sentimos e produzimos coletivamente estamos resgatando a forma de produzir das sociedades africanas. A produção das mulheres quilombolas não pode ser a produção da sociedade capitalista e eurocêntrica, tem que estar fundamentada na história do povo negro41.

A memória para além dos seus antepassados escravizados, alcançando suas origens, se faz presente ao pensar na identidade do trabalho a ser realizado por essas mulheres. Sua herança africana é relatada quando refletem sobre o propósito do grupo e o encaram como uma forma de produção coletiva, realizado para o sucesso do conjunto. O uso da memória para a concepção de uma identidade vai além do uso da mesma pela demanda política presente (WEIMER, 2015, p. 197), a rememoração se relaciona a símbolos do passado que formam vínculos entre essas mulheres no presente.

O próprio processo de escolha do nome do grupo está relacionado a esses símbolos do passado. Damásia e Margarida eram mulheres de gerações passadas, filhas da africana Josepha, e mães de diferentes famílias que se formaram e resistiram no quilombo e também aquelas que foram expropriadas e encontram-se fora de seu território tradicional. A escolha do nome foi feita por votação, as mulheres se reuniram em pequenos grupos e sugeriram possíveis nomenclaturas para o grupo. Outras sugestões chamam a atenção, ao relembrar nomes importantes da História Negra brasileira como Dandara e países do continente africano como Zâmbia.

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A escolha dos produtos produzidos pelas mulheres aconteceu também de forma democrática. Nesses mesmos grupos, as mulheres escreveram sugestões acerca do que seria manufaturado e em ordem crescente deveriam escolher quais deveriam ter o processo iniciado antes. Entre as diversas propostas, vemos a produção de artesanato, trabalho em uma horta comunitária, sabão e produtos derivados do leite. Por escolha da maioria, o primeiro projeto a ser trabalhado seria o “Gado Leiteiro”, no qual consiste na criação de bovinos para a produção de leite e seus derivados. A preferência pela produção do leite se justifica na ata:

Foi escolhido pelo grupo porque este tipo de produção possibilita que as mulheres trabalhem e cuidem dos serviços da casa e dos filhos. Disseram também que a produção de leite está na história das mulheres das famílias da comunidade. Lembraram que as mães, avós e tias tiravam o leite e faziam o “Camargo”, que era o leite espumado com um pouquinho de café bem forte. Ao tomar o Camargo, iam trabalhar na roça e não precisavam tomar café com mistura, pois alimentava muito bem42.

Novamente, a lembrança de seus parentes e antepassados se torna presente nas escolhas pela produção coletiva. A preocupação das mulheres em ter uma renda que possibilita o cuidado com a família e a casa também justifica a prioridade pelo projeto “Gado Leiteiro”. Em segundo lugar, foi escolhido a criação e trabalho na horta, que também permitia o cuidado com o âmbito doméstico simultaneamente com a geração de renda.

A partir da organização do grupo, algumas questões surgem quanto a forma de produção enquanto coletividade. Em uma reunião realizada no dia quinze de outubro de 2005, uma participante do Grupo de Mulheres Damásia Margarida traz para o debate a questão do local em que o gado seria criado. Compreendendo a grande extensão territorial - distância entre as residências - do quilombo Invernada dos Negros, as mulheres veem dificuldade na criação coletiva dos animais. D. Odete, participante do grupo expõe sua opinião sobre a pauta ao dizer que é “inviável cuidar do gado se não for na sua propriedade, pois a casa dela é muito

longe”43. Apesar de ter a intenção de realizar todo o processo do projeto em

coletividade, compreende-se que a distância entre as moradias era um obstáculo. Para tentar conciliar o propósito do trabalho em conjunto com a questão geográfica

42 Ata número 24 do dia 1 de outubro de 2005. 43 Ata número 27 do dia 15 de outubro de 2005.

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do Quilombo, formou-se então cinco “núcleos de concentração de produção”44 em

cada localidade45 do território, com o intuito de criar os bovinos separadamente, mas

a etapa final do processo de produção, que seria a comercialização do produto, seria feita coletivamente.

Até o final do período em que Dona Angelina foi presidente, o Grupo de Mulheres Damásia Margarida organizou em parceria com representantes do MDA o orçamento necessário para a realização do projeto “Gado Leiteiro”. Alguns obstáculos surgiram na negociação, como a questão da necessidade da associação comunitária representante da comunidade ter no mínimo três anos de fundação e o orçamento feito pela comunidade ultrapassar o valor apresentado pelo MDA. Apesar dos problemas enfrentados no percurso, o grupo procurou através de políticas

públicas e parceria com outras entidades, como a Fundação do Banco do Brasil46,

realizar o projeto.

Vale ressaltar que para além da nossa análise dessas mulheres enquanto lideranças, estas se compreendiam e identificavam-se como protagonistas de seus trabalhos na comunidade. Mesmo com o compromisso do trabalho doméstico e do cuidado com seus familiares, as mulheres quilombolas buscaram autonomia econômica e social ao organizarem-se em um grupo comprometido com a produção de renda e geração de emprego para as mesmas. Em ata, a coordenadora do Grupo de Produção de renda e emprego Damásia Margarida, Eli fala sobre o protagonismo das mulheres quilombolas:

Eli dando prosseguimento faz um histórico da importância do protagonismo das mulheres quilombolas e como estas chegaram ao projeto de Geração de Emprego e Renda de Gado Leiteiro, como resgate da história de produção de seus antepassados e também da importância deste projeto para o problema de sustentabilidade na comunidade é bem sério, e entre as mulheres é ainda maior. Esta é uma possibilidade de construção de dignidade para as mesmas.47

As mulheres quilombolas resgataram a memória de suas antepassadas e a partir dessa memória, criaram um grupo que passou a atuar socialmente e economicamente em benefício da comunidade. Essas mulheres aumentaram seu espaço de atuação na comunidade através de sua participação na ARQIN e no

44 Ata número 27 do dia 15 de outubro de 2005.

45 Os núcleos familiares foram divididos nas regiões de Candidos, Espigão, Ibicuí, Arroio Bonito. 46 Ata número 49 do dia 3 de junho de 2006.

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espaço público do trabalho de produção de leite. Mesmo assim, conciliaram sua vida coletiva com o cuidado de seus lares e famílias, além de participarem cotidianamente da luta pela regularização das terras da Invernada dos Negros. Essas mulheres são protagonistas de suas histórias, bem como do conjunto da comunidade.

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