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Como já afirmamos, desde a sua criação o CTPD ampliou sua frente de trabalhos para além do atendimento clínico, ofertando também um trabalho de informação e prevenção. Naquele momento, a equipe acreditava que caso o usuário, a família ou a escola tivessem informações suficientes sobre as drogas poderiam evitar o uso abusivo e a exposição das crianças e jovens ao uso de substância que causassem dependência. A partir da fala de Antonio Nery também é possível notar que a inclusão de prevenção no escopo de trabalhos era uma estratégia importante para a aceitação do trabalho, já que a prevenção era vista como uma tarefa de suma importância:

“Se você não usasse a palavra prevenção não tinha graça, ninguém se interessava. Então eu achei que precisava falar de prevenção porque era isso que soava bem aos ouvidos de todo mundo”.

Após três anos de trabalhos e de muitas discussões neste campo, a questão da prevenção se tornou objeto de profundas reflexões. Compreendendo a complexidade do uso e abuso de drogas e todas as variáveis que podem influenciar neste processo, seja do ponto de vista histórico, cultural ou subjetivo, muitos profissionais da área chegaram a um entendimento de que a informação sobre drogas era necessária, mas não suficiente para mudar o comportamento:

“[...] é muito difícil você falar de prevenção de uma coisa que envolve tantas variáveis. Variáveis, sociais, variáveis pessoais, variáveis econômicas, variáveis políticas”.

Ou seja, existia a compreensão de que o trabalho de informação e prevenção deveria ser feito, ainda que se reconhecesse suas limitações, o que resultou na retirada do termo na nomenclatura do serviço. No dia 19 de outubro de 1988 consta na ata de reunião do serviço (Anexo 7) que o professor Nery sugere a mudança do nome para Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD), sendo esta alteração efetivada logo em seguida.

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Esta mudança impactou, consequentemente, os próprios eixos de trabalho do centro. O eixo de informação e prevenção passou a se chamar “Educação para a Saúde”, e semelhante aos anos anteriores, seguiu construindo importantes parcerias com a educação, saúde e outros segmentos da sociedade, incluindo empresas públicas e privadas. Sob a coordenação de Nívia Chagas, as diversas demandas e solicitações de palestras feitas ao eixo de Educação para a Saúde eram organizadas de maneira que fosse possível inicialmente compreender as especificidades de cada instituição solicitante e, após a execução, houvesse também a avaliação dos resultados do trabalho realizado.

Este eixo privilegiou a capacitação de recursos humanos em empresas, associações de bairros, clubes de serviço, professores, técnicos de diversas categorias, estudantes e trabalhadores. Entre as ações realizadas damos especial destaque para as atividades desenvolvidas junto aos técnicos que trabalhavam com as crianças em situação de rua e o treinamento de agentes sociais e de saúde, além da parceria com a Secretaria da Educação, que possibilitou o treinamento de, praticamente, todas as equipes administrativas das escolas estaduais de Salvador (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992).

Todo o trabalho realizado pelo CETAD teve a clínica como uma espécie de alicerce, uma estrutura que fundamentava as demais práticas. Para tanto, foram lançados grandes esforços, por parte da equipe técnica, voltados à consolidação de um novo olhar sobre o consumo de drogas, que tirava a droga de foco e colocava no lugar o indivíduo que a consome a partir de uma compreensão psicanalítica desse sujeito. A clínica fundada na psiquiatria e a utilização de recursos medicamentosos deixaram de ser hegemônicos e tornam-se meros acessórios para uso em última instância. Havia, desta forma, a compreensão de que era preciso ouvir os usuários e não apenas silenciá-los ou contê-los com os medicamentos:

“Essa década foi a década de um novo discurso, um discurso que destituía a droga de um lugar e instituía neste lugar a pessoa. Não é uma pessoa qualquer, é o sujeito no sentido da subjetividade, o sujeito barrado, como se refere a psicanalise. Então foi a década de um novo discurso, de uma nova prática clínica”.

Consolidando a concepção que fundou o Centro, o uso de drogas passou a ser visto a partir de suas dimensões socioculturais, como um fenômeno eminentemente humano, assim como em suas dimensões subjetivas, na perspectiva da história de cada sujeito em sua constituição complexa e singular. Nery explica que a escolha da psicanálise foi influenciada pelo fato dele próprio estar em processo de análise e acreditar que a teoria psicanalítica fornecia a melhor compreensão sobre o ser humano:

59 “Era preciso compreender o lugar da droga na subjetividade do sujeito, escolhendo a psicanálise como nossa orientação técnica. Poderia ser outra! Mas foi a que eu escolhi, porque eu estava em análise e eu achava que era o que melhor dava conta da alma humana, então eu fiz uma escolha”.

Ao longo deste trabalho o CETAD conseguiu reunir profissionais altamente capacitados que foram contribuindo para o enriquecimento do debate e das construções teóricas e práticas sobre a droga e as subjetividades. A respeito desta abordagem clínica, Marlise Rego (2004) explica que a mesma valoriza a fala do sujeito, já que esta poderá revelar algo sobre o lugar do “objeto-droga” em sua subjetividade, possibilitando também uma mudança de posição frente ao seu consumo. Quando chegam ao atendimento muitos dependentes aparecem sem uma implicação subjetiva, ou seja, sem responsabiliza-se pelo seu comportamento. O espaço da clínica busca justamente uma mudança nesta posição, compreendendo o uso de drogas como um comportamento que traz um significado que deverá ser elaborado ao longo do atendimento:

“Que fossem alternativas que implicasse, envolvesse o terapeuta, mas que, sobretudo, envolvesse e implicasse àquele que veio nos procurar. Mas isso destituído da lógica de que a droga é um mal e de que a abstinência é a salvação. Isso nunca esteve no nosso horizonte. Acho que essa foi a grande coisa que nós estabelecemos e que marcou a diferença entre nós e muita coisa que se fazia na Bahia. E o Brasil começou a ouvir a coisa que os baianos estavam fazendo”.

Consequentemente, a clínica do CETAD compreende que a substância psicoativa ocupa um lugar e uma função na economia psíquica do usuário e esta função será compreendida sempre de forma singular, dependendo da personalidade do sujeito, sendo que para acessa-las é necessário ouvi-los. Um outro diferencial é o fato da abstinência não ser uma condição necessária para admissão do paciente no serviço, nem é o objetivo do tratamento:

“Vamos criar uma clínica da autonomia, clínica da liberdade, uma clínica não centrada na abstinência, uma clínica negociada com o usuário”.

Sob a coordenação do médico e psicanalista Luiz Alberto Tavares, neste período, a clínica desenvolveu atividades como reuniões internas16 para discussão e supervisão de casos, atendimento individual que funciona a partir do acolhimento (primeiro contato) seguido pela avaliação da demanda e início do tratamento psicoterápico.

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Um outro aspecto importante para a clínica foi a alta demanda de atendimento por parte dos familiares, que procuravam o centro relatando o uso de drogas por um dos seus membros. A equipe técnica notou que de um modo geral todos traziam características semelhantes tais como preconceito e desinformação sobre as drogas. Para atender a esta demanda passam a acolher estes familiares, buscando a construção de um espaço terapêutico centrado na dinâmica familiar.

Quando um familiar procurava o centro para o tratamento de algum integrante era então informado sobre a existência do Programa de Assistência à Família. Em seguida iniciava-se a entrevista para avaliação da dinâmica familiar e dos possíveis encaminhamentos, como a participação em grupos terapêuticos, por exemplo, ou a necessidade de uma orientação. Esta orientação poderia ser inter-familiar, ou seja, com a construção de grupos com aproximadamente dez pessoas de diferentes famílias, onde os técnicos apresentavam materiais e discutiam casos. Já a orientação intra-familiar buscava discutir a própria dinâmica familiar de forma mais individual, com o fornecimento de informações que buscavam minorar as ansiedades advindas das dúvidas a respeito do uso de drogas ou do tratamento no seio familiar (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992).

O atendimento à família tinha como objetivo acolher e avaliar os casos para os encaminhamentos necessários, ofertar conhecimentos adequados sobre o consumo de drogas, proporcionar a troca de experiências através de grupos de discussão e por fim, atenuar os conflitos existentes dentro das famílias que vivenciam o consumo de drogas por algum dos membros.

No ano de 1993 a clínica passou por uma significativa mudança no momento em que a sede da instituição foi transferida do bairro de Caixa D´Água para o bairro do Canela. Esta transferência de bairros ocorreu por diversas razões, dentre as quais as condições de pouca segurança na Caixa D´Água, com inúmeras ocorrências de furto dos materiais e equipamentos da instituição. Uma outra motivação era a busca por um local mais central, já que o Canela é um bairro de fácil acesso para pessoas de diferentes regiões da cidade. A mudança da sede também trouxe o CETAD para uma maior aproximação com a UFBA, já que no bairro do Canela estão situadas diversas faculdades de música, artes visuais, odontologia, teatro, enfermagem, medicina e até mesmo o prédio da Reitoria e outros órgãos administrativos:

“Sorte nossa, encontramos aqui no Canela um espaço que é do Estado, da Secretaria de Saúde. Nós conseguimos o subsolo onde funcionava o Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador”

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Do ponto de vista clínico esta mudança foi positiva, pois a nova sede está localizada dentro do espaço da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia destinada à saúde do trabalhador, recebendo o público para perícias médicas, entre outras atividades. Desta maneira, a pessoa que entra neste espaço não será necessariamente associada ao tratamento do abuso de drogas, facilitando o acesso daqueles que por algum motivo se sentem constrangidos a procurar um serviço para tratamento devido aos estigmas e preconceitos em torno das substâncias e seus usuários.

Um outro aspecto que confere um diferencial para o trabalho realizado pelo Centro é o fato de ter sempre se constituído como um serviço gratuito e de alta qualidade técnica, abarcando, consequentemente, uma clientela ampla oriunda de diversas classes sociais:

“A gente prestava um serviço indiscutível! Ninguém ousava dizer que não éramos o orgulho baiano que atendia aos desvalidos, aos desempoderados, aos usuários de drogas, fosse rico ou pobre. Essa era uma coisa interessante, vinha o filho do deputado, o filho do professor da universidade como vinha o povo mais pobre de rua”.

Contabilizando os atendimentos realizados, em um relatório que apresenta os números relativos a estes dez anos de atividades, foi possível identificar um grande crescimento, como demonstram os gráficos abaixo, a partir do ano de 1994, quando o atendimento já acontecia no Canela. Esse aumento pode ser justificado pela facilitação do acesso com a mudança da sede para o centro da cidade.

62 Gráfico 1 - Número de acolhimentos clínicos (1ª consulta) realizados no CETAD. Jan/1986- Ago/1996.

Fonte: Relatório do CETAD, 1996.

Gráfico 2 – Distribuição dos atendimentos realizados pelo CETAD. Jan/1986- Ago/1996.

Fonte: Relatório do CETAD, 1996.

Logo em 1995, vinculado à Divisão da Clínica, surge um importante recurso terapêutico, o Espaço de Convivência: 139 142 185 137 180 121 200 285 553 770 625 0 100 200 300 400 500 600 700 800 900 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1025 1052 1021 1071 1222 1331 1015 1394 2230 3625 3042 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996

63 “O Espaço de Convivência foi criado em 1995 por terapeutas do CETAD, preocupados com as dificuldades no tratamento do toxicômano, cujos vínculos terapêuticos se mostravam, em geral, frágeis. Esse espaço teve como inspiração uma experiência do Centro Mineiro de Toxicomania (CMT). Sua proposta preliminar foi a oferta de uma série de atividades criativas numa dimensão sócio-artística-cultural: teatro, música, artes plásticas e outros, para aqueles pacientes que já vinham sendo acompanhados em tratamento individual no CETAD” (ALMEIDA, 2008).

Este espaço teve como objetivo a oferta de um lugar de permanência institucional, possibilitando também a entrada ou continuidade no tratamento. Além de diversas oficinas artísticas e corporais, também eram ofertadas atividades como clube de vídeo e sala de espera. Em 1998 a atividade já contava com mais de 400 pacientes inscritos, sinalizando a boa adesão a esta estratégia institucional (RELATÓRIO DE ATIVIDADES CETAD, 1998).

Como já indicamos, a clínica sempre se apresentou como um eixo estruturante de orientação para a construção dos demais trabalhos, uma vez que fornecia os elementos e um alinhamento teórico, uma compreensão em comum quanto ao uso de drogas e os recursos terapêuticos necessários. Mas esta também era uma clínica social, o que significa que adicionalmente havia a compreensão de que a droga permeava as relações sociais e tratando-se de uma questão amplamente discutida na sociedade. A problemática central é que muitas vezes o tema era abordado de forma estigmatizada, permeada por mitos e conhecimentos estereotipados ou até mesmo falsos sobre os usuários e os efeitos das drogas, necessitando assim de ações que pudessem promover o acesso a informações fundamentadas e mais próximas da realidade.

Para tanto, além de enorme experiência prática na clínica, neste período destacamos também o trabalho desenvolvido no eixo de Estudos e Pesquisas. Este eixo ficou sob a responsabilidade de Gey Espinheira17, sendo que muitos projetos foram elaborados e aqui

destacamos o enorme esforço empreendido no sentido de conhecer a realidade social de meninos e meninas que viviam e trabalhavam nas ruas de Salvador. Segundo Shenker (2005) em meados da década de 80 este era um fenômeno de grande visibilidade nos centros urbanos do Brasil e passa a ser um tema muito estudado por pesquisadores. Os estudos realizados neste período também indicavam alto percentual para o consumo de drogas e práticas sexuais de risco.

17 Sociólogo e professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, Carlos Geraldo d’Andrea

Espinheira (mais conhecido como Gey Espinheira) esteve desde a década de 70 se dedicando ao estudo de populações marginalizadas, como as profissionais do sexo e pessoas em situação de rua no Centro Antigo, além de estudos sobre a violência em bairros periféricos de Salvador

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Apesar dos estudos realizados junto a este público não havia um registro específico sobre o consumo de substâncias psicoativas por esta população na cidade de Salvador. Segundo o relatório técnico do centro:

“Considerando a problemática do uso abusivo de drogas por crianças e adolescentes na área do Pelourinho, o CETAD se propõe conhecer as características deste fenômeno através do contato direto com as crianças e adolescentes para chegar à situação real das condições de vida desta população, suas relações familiares, seu universo vivencial em todas as dimensões da cotidianidade” (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992, sem paginação).

Através da parceria firmada em 1989 entre o CETAD e Fundação Nacional do Bem- estar do Menor (FUNABEM), iniciou-se um estudo com o título “Meninos e meninas em afazeres de rua e meninos e meninas de rua – um estudo multidisciplinar sobre o cotidiano e o imaginário social”. Um segundo estudo teve como título “Projeto pelourinho: conhecimento da vida cotidiana das crianças e adolescentes; família, sexualidade, drogas e violência numa comunidade de Salvador”. A respeito deste período Nery descreve em relatório técnico:

“O Centro Brasileiro para Infância e Adolescência (antiga FUNABEM), através do seu escritório na Bahia, possibilitou um salto qualitativo em nossas atividades, subvencionando nossas primeiras incursões no âmbito da pesquisa” (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992, sem paginação).

A partir destas pesquisas o CETAD pôde conhecer mais profundamente o imaginário das crianças e adolescentes que viviam ou trabalhavam nas ruas, através da sua história de vida, para em seguida traçar estratégias de intervenção que pudessem atender aos interesses sociais dessa população. Esta experiência possibilitou o seguinte entendimento:

“No quadro das representações cotidianas as drogas têm uma função significativa: amenizar a fome, a dor, os desassossegos da alma; ora encorajam para a luta, ajudam na transgressão, na criminalidade, ora nas comemorações. Elas estão presentes e são poucas as crianças e adolescentes que não as utilizam ou que não tenham usado pelos menos uma vez” (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992, sem paginação).

Compreendendo que o Centro Histórico de Salvador, especialmente o largo do Pelourinho, é marcado pela pobreza e vulnerabilidades sociais, com um forte comércio e consumo de drogas, entre outras atividades “marginalizadas” como furtos e prostituição, justifica-se a escolha deste espaço da cidade como objeto de estudo (ESPINHEIRA, 1984). Os

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primeiros levantamentos realizados buscaram conhecer a história de vida, as relações sociais e visões de mundo destas crianças e adolescentes, incluindo também questões relacionadas com a sexualidade e uso de drogas. Em resumo, estes estudos tinham como objetivo melhor conhecer esse segmento da população buscando organizar serviços de atenção e programas mais próximos e adequados a esta realidade e suas demandas (CETAD - RELATÓRIO DE ATIVIDADES DE 1987 a 1992)

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