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Porém, foi na Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) que a eugenia encontrou lugar fértil para ser difundida. Fundada em 1923 pelo Dr. Gustavo Rieedel, constituía-se inicialmente em um espaço para fomentar o campo da Psiquiatria32. A LBHM e o movimento eugênico mantiveram uma relação muito próxima, tendo em vista a similaridade da psiquiatria hereditária e o interesse dos psiquiatras no vínculo entre as enfermidades mentais e as "patologias sociais" ~ alcoolismo, crime, prostituição e loucura.

Penso que a eugenia em Santa Catarina permanece associada às medidas saneadoras propostas pela modernização, mantendo um caráter de controle social, principalmente às classes populares. Em Florianópolis, as décadas que antecederam a construção do HCS (1941) vivenciaram um momento de grande - efervescência de teorias científicas e valores culturais que auxiliaram para a reorganização da sociedade. Resultado da cultura e da vida social, o discurso médico-higienista norteou o projeto de modernização da cidade, inserindo-se posteriormente também dentro de um projeto eugênico de sociedade.

32 A LBHM era uma entidade civil, de reconhecida utilidade pública. Funcionava com uma subvenção federal e com a ajuda de filantropos, e a partir de 1925, com a renda dos anúncios publicados na sua revista, “Archivos Brasileiros de Hygiene Mental”, fundada nesse mesmo ano. Os psiquiatras integrantes da Liga eram também responsáveis por diversos serviços psiquiátricos e, de modo geral, compunham a elite psiquiátrica do Rio de janeiro, e provavelmente do Brasil. Esta instituição no início de suas atividades tinha como objetivo “melhorar a assistência aos doentes mentais através da renovação dos quadros profissionais e dos estabelecimentos psiquiátricos”. Contudo, a partir de 1926, os psiquiatras que faziam parte da liga passaram a efetuar novos projetos que priorizavam a prevenção, a eugenia e a educação dos indivíduos. Dedica-se uma maior atenção a saúde mental. O centro das atenções toma-se o indivíduo normal, não o doente. Prioriza-se a prevenção, não a cura. A LBHM, em 1928, reformula os seus estatutos, priorizando a intervenção preventiva dos psiquiatras nos meios escolar, profissionais e social. “Os psiquiatras definem-se cada vez mais como higienistas. Paralelamente, a higiene mental, que era inicialmente uma aplicação dos conhecimentos psiquiátricos, aparece como a teoria geral que contém e orienta a prática psiquiátrica. In: COSTA, Jurandir Freire.

História da psiquiatria no Brasil: Um recorte ideológico. Rio de Janeiro: Xenon, 1989. Ressalta-se

este trabalho como obra de referência para o estudo sobre a história da LBHM, e o encontro entre a psiquiatria e a eugenia.

Respaldada pelos ensinamentos da ciência, inicia-se uma proliferação de medidas saneadoras/eugênicas na cidade onde as campanhas anti-vícios são veiculadas em diferentes instâncias. Dentre os vícios combatidos, o alcoolismo, um desafio desde o início do século, permanece em pauta.

Visto como um problema social, o alcoolismo foi exposto como um "inimigo da raça". De acordo com as prerrogativas eugênicas, o vício gerava condições hereditárias ligadas ao crime, à prostituição e às enfermidades mentais na população, especialmente a pobre33. Sua supressão manifestava-se em tema eugênico. Os olhares da psiquiatria e da eugenia sobre o alcoolismo convergiam-se na LBHM, visto que esta esforçava-se para arraigar o conceito de higiene mental como uma moléstia hereditária que demandava cuidado psiquiátrico. Acreditavam que o álcool causava uma influência "esterilizante sobre as massas, ocasionando índices baixos de reprodução, alta da mortalidade e taras hereditárias". As semanas anti-alcoólicas realizadas no Brasil no decorrer das décadas de 1920 e 1930, foram um instrumento promovido pela LBHM, com o objetivo de prevenir a população sobre o mal causado por este vício e discutir medidas de controle ao consumo e produção do álcool no país. Foi neste contexto que, em 1932, a Liga Brasileira de Higiene Mental promoveu junto à Força Pública do Estado de Santa Catarina, em Florianópolis, uma semana anti-alcoólica, onde o Sr Idelfonso Juvenal é enfático ao inferir que:

O mal. o grande mal, como no-lo affirma judiciosamente um dos maiores apóstolos da benemérita campanha iniciada em o nosso caro paiz, pela eugenia de nossa raça, o eminente Dr. Renato Kehl, não está no esporádico e parcimonioso uso do álcool; o mal

33 A eugenia estava alicerçada na teoria da evolução, que norteou práticas de saúde que objetivavam uma ingerência na reprodução das populações. Foi difundida a partir de 1980 nos Estados Unidos e na Europa, com o intuito prático de gerenciar o nascimento de pessoas saudáveis, evitando o nascimento de seres indesejáveis ao convívio social. Através de sua ação/concepção proliferaram-se políticas científicas e raciais baseadas na hereditariedade, possibilitando medidas intervencionistas de “seleção social”. SCHWARCZ, Lilia Mortz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

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está na escravização, no abuso que delles fazem os fracos da vontade. Como o vicio e a degeneração se irmanam, como não ha 'vicio sem desgraça, e quem bebe viciadamente não só prejudica a própria saúde, como a saúde da espécie'; como o vicio degrada o homem rebaixando-o ao ponto de perder a noção do livre arbitrio: fallecendo-se-lhe todas as nobres e elevadas qualidades e virtudes, que tanto o elevam e dignificam, tornando-o imagem e semelhança do creador, por isso, a nobilitante campanha, que a Liga Brasileira de Higiene Mental vem desenvolvendo contra o alcoolismo, é urna cruzada edificante de benemerência, que só pode merecer os mais francos applausos de todas as almas nobres e bem formadas, que desejam ardentemente a prosperidade moral e material do Paiz, o engrandecimento da grande Família brasileira, que deve trilhar sempre, dignamente, o caminho recto da honra e do dever, sem o menor desvio para as verêdas dos vícios deprimentes, promovendo assim a felicidade própria e elevando o apreciável conceito de nossa nacionalidade. 'ú4

Defensor e divulgador do trabalho realizado pela LBHM em defesa da nação. Idelfonso Juvenal além de asseverar que o indivíduo viciado prejudica a saúde da espécie, reforça também a idéia de contágio social, que o alcoolismo é responsável pela degenerescência física e mental dos indivíduos:

“O detestável e prejudicalismo vicio da embriaguez alcóolica, de tão funestas conseqüências e que inutiliza o indivíduo, não só enfraquecendo-lhe todas as energias physicas, como rebaixando- lhe o nível moral; a embriaguez que é o grande funesto mal que contribue com a maior percentagem de indivíduos para os hospitais e as cadeias; esse vicio abominável que inutiliza o varão, inutiliza a sua decência, povoando o mundo de indivíduos incapazes physica, mental e moralmente, - remonta aos tempo da antigüidade pagã.»3'

Esta preocupação em associar as causas da loucura a vínculos hereditários, entre eles o alcoolismo, pode ser averiguada também através dos prontuários do HCS. Há todo um cuidado realizado pelos médicos em verificar se o paciente é consumidor de bebidas alcóolicas, e/ou sobre a existência de familiares alcoólicosJÓ. Esta

34 JUVENAL, Idelfonso. Palestra realizada em outubro de 1932, como uma modesta contribuição à “semana anti-alcoólica”, promovida pela Liga Brasileira de Hygiene Mental. Florianópolis.

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