No contexto atual, respeitar e valorizar a diversidade é um desafio cada vez maior que ainda está longe de ser superado. Entendemos que, desde a Educação Infantil, tais aspectos necessitam um olhar especial do professor para que as crianças cresçam, compreendendo e respeitando as diferenças entre gêneros, etnias, culturas, idiomas, tempos de cada um, condições biológicas. É preciso primeiro respeitar as crianças para depois gostar e valorizar. Pode-se gostar sem respeitar e valorizar? Nesse sentido, o RCNEI, volume 2 aborda a questão, afirmando que, para as crianças incorporarem atitudes de aceitação do outro com suas diferenças e especificidades, é necessário que os adultos sirvam de exemplo para que tais ações sejam desenvolvidas por elas. E é a partir de atos que envolvem o temperamento, tanto adulto como crianças, das habilidades e conhecimentos que já possuem e o que vão construir que se desenvolvem outras perspectivas de respeito e valorização ao ser humano. O documento também aponta para a questão do cuidado com as crianças com deficiência21, que podem ser vítimas de discriminação. A instituição que serviu de base para este estudo tem em sua proposta pedagógica ser uma escola inclusiva. De fato, se evidenciaram práticas respectivas no que tange ao respeito à diversidade. Os profissionais que atuam na instituição têm atitudes de respeito e valorização para com os casos de inclusão, mas cabe ressaltar que cada criança frequentadora do ambiente escolar é respeitada enquanto pessoa. O mesmo nem sempre se percebe nas atitudes de pais em relação aos alunos que apresentam um quadro diagnosticado com alguma deficiência, por exemplo, uma mãe não permitia que um aluno com deficiência tocasse no seu filho menor no carrinho enquanto deixava a filha maior na escola, fato observado durante o período da coleta de dados.
De acordo com Oliveira, (2011, p. 252) “a educação especial não pode mais ser olhada como um sistema paralelo à educação geral”, mas oportunizar a todos que tenham acesso ao ensino regular e que sejam ofertados recursos pedagógicos e serviços de apoio que deem conta das demandas de cada realidade. Concordamos com a autora que em algumas instituições isso ainda é um desafio “encontrar metodologias de ensino e recursos diferenciados que assegurem êxito na tarefa de atingir os objetivos curriculares básicos propostos às crianças com necessidades educativas especiais” (idem). A inserção das crianças com deficiência na escola em que ocorreu a coleta de dados, acontece com acompanhamento e apoio de profissionais
21 Termo usado pela legislação vigente para denominar o sujeito que outrora era considerado com Necessidades Educativas Especiais – NEE.
especializados para darem suporte necessário ao trabalho pedagógico do professor, sempre valorizando e respeitando o ritmo e tempo de cada um no coletivo. Nesse aspecto da valorização de cada criança, muito em particular se referindo às que apresentam alguma deficiência, a professora A traz um relato significativo ao afirmar que trabalha pelo estimulo de “como a arte envolve as questões das crianças com deficiências [...] o quanto isso é importante para a gente, como o professor vê que sim, eles têm suas dificuldades, mas do jeitinho deles conseguem trabalhar e expressar sua arte [...]”. Nessa afirmativa, evidenciamos a intencionalidade pedagógica em perceber que mesmo em meio às dificuldades, cada criança é incentivada e desafiada a eleger uma forma de imprimir sua autoria naquilo que produz através da arte no uso de diferentes materiais. Tal proposição ainda desenvolve na criança a criatividade, autoestima, autorrealização e reconhecer-se como produtora de aprendizagens. A professora ainda revela seus aspectos subjetivos neste processo da ação pedagógica quando diz “tem me inspirado e tem me deixado feliz com os resultados [...] o quanto toca, o que nos toca e toca o aluno [...]”. De fato, há uma preocupação com o todo das crianças e o quanto estas questões também envolvem a realização profissional. Nesse sentido, a satisfação docente também pode ser entendida, nesse estudo, como um momento de bem-estar, de realização profissional e consequentemente pessoal, por estarem interligadas. Não há como separar o pessoal do profissional e vice-versa. García (2008, p. 156) define que “la sensación de bienestar es fruto de un equilíbrio entre las posibilidades y los deseos, entre las capacidades y las necesidades”. Esta satisfação docente se reverte em realização, em alegria, que García (2008, p. 176) define da seguinte maneira: “La alegría guarda relación con la implicación del profesional en su trabajo y en la mejora de la relación con las personas sobre las que ejerce su acción profesional”. Sendo assim, a realização ou satisfação é fruto de um conjunto de fatores positivos que cercam o cotidiano e o trabalho pedagógico.
Na esteira de pensar no respeito e valorização dos sujeitos em Educação Infantil, foco deste estudo, podemos discorrer sobre a possibilidade de ofertar às crianças momentos e espaços em que brinquem com todos os colegas, usando os diversos ambientes e materiais, contribuindo em benefícios para a socialização e diversas aprendizagens, permitindo a vivência de diferentes papéis masculinos e femininos. Entendemos importante que as atividades lúdicas sejam amplamente exploradas sem restrições nesse aspecto, ou seja, que a limitação do que meninos e meninas possam brincar fica no descarte da ação pedagógica. Por exemplo, que meninos possam brincar com as meninas usando bonecas, podendo, assim, desenvolver ações
que os levam a ser pais presentes e participativos na vida adulta. O referencial indica que os professores fiquem atentos para que não sejam reproduzidos:
[...] nas relações com as crianças, padrões estereotipados quanto aos papéis do homem e da mulher, como, por exemplo, que à mulher cabe cuidar da casa e dos filhos e que ao homem cabe o sustento da família e a tomada de decisões, ou que homem não chora e que mulher não briga (BRASIL, 1998, vol.2, p.42).
No entanto, mesmo que o ambiente escolar seja flexível para explorar os diferentes papéis sociais, os estereótipos podem emergir nas brincadeiras das crianças, oriundos do meio social e familiar nos quais convivem. A percepção docente é fundamental para a identificação e os encaminhamentos em tais situações. Para minimizar as dificuldades é relevante estabelecer a integração entre família e escola mantendo estreita parceria e diálogo. Algumas sugestões de práticas estão indicadas no próprio documento do Referencial para dar continuidade a permanente compreensão e respeito entre a escola e as famílias, planejando ações específicas em que ambas colaborem coletivamente, bem como possa ser interessante abrir espaço para a integração de familiares em atividades pedagógicas.
Proporcionar espaço de interação na Educação Infantil é necessário, principalmente nos casos de crianças com perfil mais intrínseco. O papel do professor é fundamental nesse processo. Assim como ser verdadeiro, relacionar-se afetivamente com as crianças, acolher as emoções que emergirem das crianças favorecendo-lhes estruturar seu pensamento. O professor, quando responde a uma criança ampliando e esclarecendo os comentários feitos por ela, alimenta o pensamento infantil propondo-lhe questões que a auxiliam na consolidação de suas ideias e elaborar hipóteses (OLIVEIRA, 2011). Segundo a autora, as interações que as crianças e professores criam, levam à construção da ética, da estética, da noção política e identidade pessoal. Oliveira faz uma crítica às práticas e falas docentes que desestimulam o aperfeiçoamento (já está bom, deixe como está), ensinar a moral da esperteza (quem mandou ser bobo), usar o afeto como forma de controle (se você não comer, não falo mais com você) ou reforçar a cultura de risco e impedir ações eficazes de saúde física e mental (o que não mata engorda), entre outros tantos que poderiam ser listados.
O respeito à diversidade se dá, também, pela via da interação do professor com as crianças assumindo papéis estratégicos para o acolhimento nas diferentes situações cotidianas, para a motivação frente às atividades ou eventos em que a criança demonstrar insegurança, auxiliando elas a construir outros conceitos e argumentações acerca do mundo que a cerca. Isso tudo ajuda as crianças a elaborarem e atribuírem novos significados ao que já conhecem e
estabelecer relações do conhecido com o desconhecido. Dessa forma, a individualidade é respeitada e valorizada assim como a diferença é sinônimo de riqueza no processo de desenvolvimento infantil. E mais, auxiliar a criança a superar sua ansiedade da separação ou demais conflitos cuja resolução é necessária para que evolua e desenvolva iniciativa e confiabilidade em tudo o que estiver fora do mundo e contexto familiar, de igual modo é uma ação pedagógica a ser trabalhada pelo professor. Outro aspecto fundamental é que as crianças sejam respeitadas e estimuladas em sua comunicação e linguagem. A professora B por ter vivenciado tais aspectos, trouxe na entrevista, que “às vezes eles querem aplicar uma palavra nova entre eles, e eles estão usando, mas ela entra completamente atravessada, mas é um amor, porque eles estão tentando se experimentar com aquilo”. Denotamos o papel pedagógico da professora no cuidado em valorizar cada termo novo advindo das crianças, mesmo estando descontextualizado, cujo momento é explorado pela docente para intervir e questionar ou até mesmo esclarecer sobre o significado da mesma, agregando novas palavras e enriquecendo o vocabulário das crianças.