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Les surfaces occupées par les équipements et services publics

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Moyenne régionale : 11 ares

M UTATIONS SPATIALES EN COURS ET PREVISIBLES

2.2 I NDICATEURS : SURFACES OCCUPEES PAR LES ACTIVITES ECONOMIQUES Après avoir présenté de manière globale et théorique les différentes mutations spatiales

2.2.4 Les surfaces occupées par les équipements et services publics

agenciamentos

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É justamente a partir dos diferentes discursos e experiências sociais que os modelos fisicalistas e racionalizadores da experiência da aflição, aqui representados pela noção de ciclo de vida, são confrontados de forma mais evidente. Por experiências sociais estou designando a dimensão da vivência e produção de saberes e discursos por parte daqueles e daquelas que são justamente o “público-alvo” das políticas públicas e da atuação dos profissionais e agentes de saúde. Essa perspectiva não implica de forma alguma a reificação da dicotomia entre “fato” e “valor”, representada nos estudos antropológicos de saúde por uma abordagem fenomenológica da experiência de sujeitos individuais, de um lado, e das representações sociais da doença, do corpo e da pessoa, de outro. Nosso entendimento teórico e reflexivo sobre questões como doença, aflição e sofrimento e das estratégias de ação e significação dadas pelos diferentes atores sociais tem como ponto de partida a ideia de que experiência e seus sentidos sociais são duas dimensões complementares em uma abordagem antropológica da saúde.

A pesquisa realizada junto a mulheres moradoras de bairros da periferia de Florianópolis, ao contrário do discurso hegemônico tanto nas políticas de governo quanto nas plataformas de parte dos movimentos sociais, apontou para outras questões, ligadas a experiências sociais vistas como “perturbadoras”, articuladas em geral a suas vivências cotidianas e ao seu contexto social, cultural e econômico, não a uma percepção de fases em seu “ciclo de vida”, tal como discutimos acima. Que questões seriam essas? De modo geral, questões ligadas ao cotidiano de sua vida; à

21 Parte desta seção reproduz alguns parágrafos de Maluf (2010), em que os resultados

dupla ou tripla jornada de trabalho, já que muitas dessas mulheres, senão a maioria, trabalham fora de casa, em empregos informais ou prestando serviços como empregadas domésticas; ao assédio moral no trabalho (muitas delas relatavam casos de diagnóstico de síndrome do pânico desencadeada cada vez que chegavam ao local de trabalho; à violência no bairro, com situações de morte de filhos e maridos, incursões violentas da polícia, conflitos e abusos referentes ao narcotráfico). No caso do bairro pesquisado pela equipe formada por Carmen Susana Tornquist, Ana Paula Muller de Andrade e Marina Monteiro, uma questão emergiu em relação à forma como, nas narrativas das mulheres, a situação de sofrimento vivida por elas no momento era contraposta a um tempo de lutas e de liderança, resgatando o processo de ocupação do bairro pelas famílias, em grande parte liderado pelas mulheres e no qual elas tiveram um papel fundamental.22

Duas dimensões estão presentes nas narrativas e nos outros enunciados que emergem do discurso dessas mulheres: a experiência e o saber. A experiência, tal como descrita muito brevemente acima, diz respeito a outras questões que não seus ciclos de vida, suas trajetórias reprodutivas; os saberes são acionados para compreender essa experiência, para informá-la, impregná-la de sentido. Certamente, na composição dessas experiências e desses saberes, a retórica fisicalista do ciclo de vida está presente, através dos diagnósticos que muitas delas, ou suas filhas, sogras e mães receberam, através do consumo de psicofármacos etc. No entanto, essa não é a retórica que predomina, ou, dito de outro modo, o ciclo de vida não explica e não traduz a totalidade da experiência delas, tampouco seu sofrimento e suas aflições encontram fácil tradução em diagnósticos e tratamentos medicamentosos.

Contrapondo um universo discursivo e simbólico a outro (o das políticas públicas e o das experiências sociais), evidenciaram-se dois modelos ou duas perspectivas de compreensão da aflição: uma fisicalista (ou, conforme escrevi em outro momento, fisio-lógica),23 que enfatiza uma concepção biológica da diferença de gênero e dos processos de sofrimento e adoecimento, e uma que poderia se chamar de “sócio- lógica” de sua perturbação, centrada nas diferentes experiências cotidianas e nas próprias histórias e narrativas de vida dessas mulheres. De certa forma temos aqui o que Fassin denominou como conflito de

22 Cf. Tornquist, Andrade e Monteiro (2010). 23 Conforme discutido em Maluf (2010).

duas comunidades éticas, conforme descrevi anteriormente, e, como nos exemplos citados por ele, comunidades éticas com legitimidades desiguais.

O que estou denominando de uma sócio-lógica da narrativa das mulheres pesquisadas é a dimensão que abrange aspectos sociais e históricos de sua experiência. Como exposto, elas relacionam seus sentimentos de aflição ao contexto de sua vida cotidiana no bairro, problemas econômicos, dupla jornada de trabalho, participação nos movimentos do bairro etc. Trata-se de uma sócio-lógica que não deixa de incorporar ou englobar a dimensão fisicalista dos discursos e práticas biomédicas (aceitando os diagnósticos, realizando os “tratamentos”, ingerindo os medicamentos), mas ressignificando-os a partir de suas vivências cotidianas e valores compartilhados e eventualmente incorporando-os ou combinando-os a concepções físico-morais do sofrimento e da doença.24 Em resumo, o que estou chamando aqui uma sócio-lógica para falar sobre suas aflições amplia a percepção e os discursos sobre a doença e o sofrimento para além das concepções de corpo, saúde e doença, incorporando as dimensões sociais e políticas do vivido – uma compreensão fundamentada na circunstancialidade e na historicidade do vivido, para além e para fora da ontologização biomédica da pessoa.

É importante, no entanto, frisar que não estou aderindo a uma redução sociológica buscando a condição social como causa das aflições. Por modelo ou perspectiva sócio-lógica estou me referindo exclusivamente a saberes enunciados nas falas e nas narrativas dessas mulheres e ao reconhecimento desses saberes como legítimos e eventualmente contrapostos aos saberes científicos biomédicos – reconhecimento esse que não se dá por parte do Estado e das políticas públicas em saúde. Não é apenas a experiência dessas mulheres que não é reconhecida pelas políticas públicas, mas suas epistemologias, ou seja, seus modos de conhecimento, sua percepção da experiência e do mundo.

Uma questão que percorre, ainda, o meu argumento é a do estatuto da ciência e do chamado avanço tecnológico, principalmente

24 É possível, ainda, constatar o quanto a lógica racionalizadora da relação entre

causa e efeito, presente no uso do medicamento, por exemplo, está presente e se dissemina por outras práticas, como a busca de alívio ou cura espiritual, muitas vezes frustrada pela impossibilidade de resolução imediata ou alívio instantâneo do sofrimento, da dor ou da aflição (que um medicamento pode proporcionar, ao menos temporariamente).

no caso discutido aqui, o da saúde mental. Em um artigo anterior (MALUF, 2011), discuti o lugar dado aos medicamentos, sobretudo aos antipsicóticos, como possibilidade de desinstitucionalização dos pacientes internos dos hospitais psiquiátricos. Esse é um argumento que percorre os mais diversos segmentos envolvidos com o campo da saúde mental: promotores e gestores públicos da desinstitucionalização, profissionais e agentes da saúde pública, usuários, a indústria farmacêutica, pesquisadores de diversas áreas acadêmicas, associações de usuários e movimentos pela universalização do acesso à saúde. Estaríamos, de acordo com esses argumentos, diante de uma cidadania biológica,25 dada pelas tecnologias bio-farmaco-médicas.

Evidentemente, antropólogos e cientistas sociais em geral têm se posicionado pela universalização do acesso ao conhecimento e aos benefícios trazidos pela ciência e pela tecnologia. No entanto, na equação entre a universalização do acesso a esses benefícios (entre eles as tecnologias biomédicas de diagnóstico, de tratamento, cirúrgicas e medicamentosas) e o questionamento do sentido dessas tecnologias e desse conhecimento, é necessário admitir que hoje não é possível apenas abordar criticamente a questão do “privilégio sociológico” (com propostas de acesso, democratização, universalização) sem também abordar criticamente a questão do “privilégio epistemológico”26 (apontando o sentido histórico e contingente da produção científica, proporcionando o reconhecimento e a legitimidade de outros saberes e outras epistemologias etc.). Uma das contribuições que a pesquisa antropológica pode trazer é a de fazer emergir e dar visibilidade a experiências e conhecimentos invisibilizados e desconsiderados tanto na conformação dos saberes científicos quanto na elaboração de políticas sociais nacionais, mas também no plano global.27

25 Segundo a discussão de Nicolas Rose (2013). 26 Conforme Santos (2004).

27 Sem negligenciar esse outro campo das ciências humanas (a antropologia em

particular) que se desenvolve em torno da investigação da ciência e dos laboratórios, não apenas em torno de suas consequências sociais, mas também do ponto de vista do desvendamento de suas dimensões técnicas e de seus aspectos metodológicos, e também cosmológicos. Trazer a ciência para o campo da investigação social, simbólica, política e cultural é a contrapartida complementar de fazer emergir e dar visibilidade e reconhecimento aos saberes e formas de conhecimento negadas em suas racionalidades específicas.

5 Modos de subjetivação, biopoder e outras

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