4.4 Influence de la physico-chimie
4.4.3 Surfaces hydrophobes
Com o levantamento da documentação da Biblioteca Municipal, do acervo do Museu Ferroviário em Alagoinhas e do levantamento bibliográfico pudemos fazer uma análise previa dos documentos da época e perceber uma ênfase nos discursos oficiais a favor da difusão de uma escola capaz de formar mão-de-obra qualificada, de nível médio. Na documentação encontrada não há uma seqüência cronológica bem definida acerca das informações necessárias à análise da realidade educacional de Alagoinhas ou das cidades vizinhas, mas com nosso esforço essas informações possibilitaram uma impressão da situação investigada.
Entre 1957 e 59, os recursos financeiros do Estado destinados ao ensino técnico, foram quadruplicados e para exemplificar esse dado segue um trecho de um documento escrito pelo prefeito de Alagoinhas em 1954, solicitando mais verbas para ampliação e manutenção da rede pública de ensino da cidade, confirmando que havia uma concordância entre a conjuntura nacional e esta cidade, cuja demanda era por mais verbas para a educação, incluindo-se o ensino técnico profissionalizante:
O prefeito Dr. Pedro da Costa Doria encaminha documento a Câmara Municipal o Projeto de Lei que dispõe sobre a concessão de um auxílio de Cr$ 120.000,00 (Cento e vinte mil cruzeiros) anuais para a Fundação Educacional Lauro de Freitas, nesta cidade. Esta Fundação estabeleceu com a Cooperativa de Educação e Cultura de Alagoinhas, um contrato de cooperação mútua, pelos quais, vem mantendo, gratuitamente os cursos do Ginásio e Escola Técnica do Comércio. O capital de que dispõe a Fundação, enviado pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, se destina à ampliação do edifício do Ginásio, adaptando-a as Leis do ensino. Daí a necessidade que temos de garantir, por meio de subvenções e auxílios, a remuneração do Corpo Docente daquele estabelecimento além de outras despesas indispensáveis ao funcionamento do Ginásio em caráter gratuito. Trata-se de uma medida de grande alcance para a coletividade, educar e instruir seus filhos, abrindo- lhe a estrada para a vida honesta e útil à pátria. (Documento da Prefeitura Municipal de Alagoinhas, 4 de Agosto de 1954 à Comissão de Orçamento e Finanças).
Para melhor entender essa realidade educacional acrescentamos alguns dados que a conjuntura baiana apresentava: entre a população urbana, a taxa de alfabetização entre as mulheres de 1950 a 1980 passou de 52% para 72%; sendo que entre os homens esse número estava de 67% para 76% e entre a faixa etária dos 10 – 14 anos e 15 – 19 anos a taxa de alfabetização cresceu de 24% para 55%, indício que foi mais expressivo para o sexo feminino. (BARROS, 1985).
Já no que se refere à década de 1970 as perspectivas educacionais e de trabalho em Alagoinhas eram bastante promissoras, atraindo um grande contingente de pessoas das
regiões circunvizinhas, incluindo mulheres, que viam naquela cidade uma grande oportunidade de estudo e trabalho. A oferta de cursos profissionalizantes de nível médio, a existência da Faculdade de Formação de Professores – órgão ligado à Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e escolas de 1° grau, faziam da cidade uma referência local em termos de educação. No panorama educacional desse período funcionavam: 150 Escolas de 1° grau, 08 Escolas de 2°grau, inclusive normal e profissionalizante e 10 Escolas de Jardim de infância (maternal e alfabetização), no total 35 escolas estaduais e 91 escolas municipais. (ASSUNÇÃO, 1979).
O que se pode analisar, a priori, desses dados é que havia maior interesse pela escolarização por parte das mulheres, a partir desse período, diante da necessidade de uma melhor incorporação no mercado de trabalho. E, em se tratando da mão-de-obra feminina quanto menor o nível de escolaridade maior a dificuldade de sua incorporação e manutenção no mercado de trabalho que se tornava cada vez mais exigente quanto à qualificação dos seus trabalhadores. No caso das mulheres dessa pesquisa a possibilidade de melhores postos de trabalho estava associada ao setor burocrático da Rede Ferroviária, tanto pela remuneração quanto pelo status social de ser uma funcionária ferroviária.
O quadro que vem sendo detalhado no decorrer do texto evidencia uma confluência entre os rumos que tomava o país, orientado por uma política imbuída de consolidar novas estruturas que permitissem o desenvolvimento econômico e social – assentado em melhores índices de escolarização aliados a oportunidades de emprego –, e os seus reflexos numa dimensão local. O contexto em que as ferroviárias se inseriram no mercado de trabalho configurava-se num quadro no qual havia a necessidade de criação de novos valores sociais, de um quadro de trabalhadores aptos às demandas do mercado de trabalho e de novos hábitos de consumo. “O que se fazia necessário era criar um mercado consumidor no qual trabalhadores e trabalhadoras das classes médias se transformassem em consumidores em potencial”. (FAZENDA, 1988, p. 56). Era prioridade para importantes setores da sociedade brasileira, num momento marcado pela intenção de situar o país nos parâmetros dos países desenvolvidos.
Os motivos pelos quais as moças vislumbravam aumentar seus níveis de escolaridade e os fatores responsáveis pela posterior inserção no serviço burocrático ferroviário entre os anos de 1950 e 1970 estavam em concordância com a conjuntura nacional. Ocorre uma mudança estrutural na caracterização das atividades do segundo setor da economia e uma conseqüente necessidade de mão-de-obra especializada pregressa dos cursos profissionalizantes oferecidos por instituições como o SENAI, voltados para atender a mão-
de-obra masculina. Assim, às mulheres restou o serviço público ou as atividades do setor terciário, nos quais era possível adquirir uma qualificação profissional através dos cursos oferecidos pelo SENAC, nas escolas estaduais ou municipais.
Dentre os documentos levantados do Arquivo Público da Bahia em Salvador se destacou, no sentindo de contribuir para a pesquisa, o texto encontrado numa edição do Jornal Diário da Bahia no qual aparecia a seguinte matéria: “Trabalho da Mulher no Comércio e nas Indústrias”, um projeto defendido pelo então Ministro Lindolfo Collor visando a regulamentação do trabalho feminino e encaminhado ao chefe do governo provisório. O Ministro expunha os motivos pela sua regulamentação e destaca a importância econômica do trabalho feminino:
As mulheres começam a ocupar os cargos dos homens desde a sua saída para a guerra, porém ocupa com dignidade e mérito para as próprias mulheres. As conseqüências da guerra criaram uma nova ordem de coisas para os trabalhos das mulheres. A mulher vem participando do trabalho de tecelagem, perfumaria, da indústria de velas e saponáceos, calçados, alimentação, vestuário e indústria extrativa, apesar de ainda estarem excluídas dos trabalhos em artes gráficas, construção civil, transporte em geral e cortumes. Nas fábricas, em geral, as operárias são mais livres do que as costureiras, por exemplo, trabalham sem constrangimento e com absoluta naturalidade e após casarem-se, algumas moças, continuam a trabalhar, apesar de outras acharem que o salário não compensa o abandono diário do lar, por isso a necessidade de uma lei que regulamente as condições necessárias à mulher, inclusive no parto. (Jornal Diário da Bahia, 1931, p 4).
A análise documental por um lado é de extrema importância no processo de reconstituição de fatos históricos que estão relacionados às experiências de vida dos personagens que viveram em cada período. Por outro lado, é necessário apreender as experiências individuais dentro de um contexto sócio-cultural, porque embora as memórias individuais tenham sempre um caráter social, elas representam apenas um ponto de vista das memórias coletivas. (HALBWACHS, 1968). Dessa forma, a impressão de uma pessoa sobre determinado aspecto histórico que esteja relacionado a sua vida, é apenas o seu ponto de vista sobre esse aspecto.
Como já afirmado anteriormente, as fontes primárias e secundárias não foram os recursos privilegiados para alcançarmos o objetivo deste trabalho. Na realidade, foram as fontes orais que tiveram lugar de destaque no processo de reconstituição histórica cujo personagem central são as ferroviárias de Alagoinhas. Por esse motivo, as primeiras fontes serviram nesta pesquisa como aporte ao que estava sendo construído pelas fontes orais. No entanto, essa visão não está querendo estabelecer quem possui o maior grau de importância na
construção de fatos históricos, esta é uma definição clara sobre qual o caminho foi escolhido para a construção da História de Vida das ferroviárias que viveram em Alagoinhas.