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(SUPPRIMÉ) DEMANDE DE RAPPORT RELATIF À LA SUSPENSION

Dans le document RAPPORT N° 453 (Page 131-145)

Estudos sociais sobre a ciência da modelagem climática, meteorologia e questões públicas e governamentais das mudanças climáticas globais que envolvem tais conhecimentos têm ocorrido desde o início da década de 1990. Apesar de não serem numerosos, tais estudos – publicados em sua quase totalidade em língua inglesa – atraíram a atenção para o papel fundamental desempenhado pelas ciências climáticas em relação à definição das questões ambientais atuais. Ao investigar a ciência climática através das lentes da teoria social, deixou- se de relegar tecnociências como a modelagem climática a um background atribuído à pura técnica – ao qual somente modeladores e climatologistas teriam acesso – e passou-se a tratá- las como produções sociais e objetos técnicos centrais para entender a formação do regime das mudanças climáticas globais em sua composição, ao mesmo tempo, política e científica.

24 Ao serem utilizadas informações obtidas em vídeos, os mesmos serão referenciados em nota de rodapé. 25 Dentre as propostas metodológicas que inspiraram essa pesquisa estão alguns pressupostos de estudos de tipo multissituado (MARCUS, 1995) e a Teoria-Ator Rede (LATOUR, 1998). Ambas as propostas suspeitam da capacidade de certos espaços serem o locus bem delimitado de determinadas práticas e culturas e sugerem que sejam “seguidos os atores em seus enredos” para que se possa acompanhar práticas realizadas em sistemas distribuídos de conhecimento, como é o caso das ciências atmosféricas.

Nessa seção, quero informar ao leitor as questões que foram discutidas por esses estudos expondo algumas de suas contribuições. Contudo, não pretendo aqui “esmiuçar” todos os seus resultados, pois considero mais proveitoso discuti-los ao longo da tese, na medida em que forem necessários às análises. Pretendo nesse momento elaborar um panorama daquilo que foi tratado até o momento pelos estudos sociais a respeito da ciência da modelagem climática com a finalidade de indicar como a presente tese dialoga com esses trabalhos.

Uma das primeiras questões que atraiu a atenção dos estudos sociais para tratar dos modelos climáticos foi: “podemos confiar nos modelos computacionais para validar hipóteses e basear nossas ações em relação à questão das mudanças climáticas?”. Inicialmente, essa questão foi discutida em relação ao fato de os modelos e seus resultados não poderem ser verificados no mesmo sentido em que as teorias nas ciências naturais são tradicionalmente verificadas, isto é, através de experimentos que atestam sua validade (ORESKES, et. al. 1994). Mostrou-se que identificar erros nos modelos é particularmente difícil no caso de simulações de sistemas complexos como o clima terrestre, principalmente, quando essas simulações são realizadas em uma escala temporal de centenas de anos no futuro. Não há, portanto, a possibilidade de confrontar a observação àquilo que foi simulado – como é o caso de simulações para a previsão do tempo de curta duração. Segundo Oreskes e colaboradores (1994), isso faz com que modelos numéricos das ciências terrestres não possam ser aplicados de maneira determinante para “verificar, validar e confirmar” teorias e hipóteses, mas somente para “desafiar formulações existentes”.

A percepção desse problema epistêmico e empírico fez com que autores questionassem se os modelos climáticos têm sido encarados em processos decisórios de questões ambientais como “oráculos” ou “truth machines” ou se eles são utilizados de maneira cautelosa apenas como “ferramentas heurísticas” (WYNNE e SHACKLEY, 1994). Nesse sentido, buscou-se discutir criticamente o status da modelagem climática global como princípio organizador da ciência climática e da política articulada pelo IPCC (WYNNE, 1994; SHACKLEY e WYNNE, 1995a; EDWARDS, 1996b; SHACKLEY, 1997). Tais estudos atestaram a importância dos modelos para as narrativas políticas das questões ambientais contemporâneas apesar das grandes incertezas presentes nesse tipo de informação científica. A respeito da centralidade da modelagem nas ciências e políticas climáticas, questionou-se como as incertezas dos modelos poderiam ser levadas em conta e representadas nas decisões públicas (SHACKLEY e WYNNE, 1996). Além disso, questionou-se se modelos climáticos

poderiam servir como formas de integração das ciências naturais e sociais sem estabelecer relações hierárquicas entre essas ciências nas questões climáticas (SHACKLEY e WYNNE, 1995b). Dessa maneira, considerou-se que a centralidade de modelos computacionais nas questões climáticas exigia maior transparência e compreensão desse tipo de prática em relação às incertezas inerentes ao seu modo de produção e à forma como tais conhecimentos e incertezas poderiam interagir com outras formas de conhecimento e embasar decisões públicas de maneira responsável (SHACKLEY e DARIER, 1998; SHACKLEY, et. al. 1998).

Nessas investigações iniciais do ESCT, notou-se que os modelos climáticos são pouco suscetíveis a serem “abertos como caixas pretas” e suas experiências são difíceis de serem replicadas, não só pelo fato das experiências de modelagem confundirem aspectos observacionais e simulações (EDWARDS, 1999) e, portanto, serem bastante alusivas às avaliações, mas também porque as capacidades supercomputacionais exigidas para a modelagem global são um privilégio de poucos centros climatológicos mundiais (EDWARDS, 2000). Tendo em vista essas condições, foram percebidas dificuldades para tornar a modelagem climática publicamente compreensível e, até mesmo, estimular a participação pública na interpretação de seus resultados (YEARLEY, 1999). Visto que essas ferramentas são adotadas como a principal base científica de órgãos como o IPCC, pode a opacidade das práticas e resultados modelados constituírem obstáculos à transparência e participação nos processos de tomada de decisão (JASANOFF e WYNNE, 1998)?

Contemplando direta ou indiretamente essas questões, surgiram investigações que esclareceram em termos históricos o papel da modelagem climática na confirmação da hipótese do aquecimento global (FLEMING, 1998; WEART, 2008, 2010). Ao explorar a história das ciências climáticas na América do Norte e Europa, alguns estudos concluíram que o campo da climatologia se tornou gradativamente dependente da programação de modelos e da infraestrutura de supercomputação e telecomunicação administrada pelas organizações meteorológicas mundiais (EDWARDS, 2000, 2001a, 2001b; DEMERITT, 2001). Considerou-se que, através do uso de modelos numéricos e infraestruturas de supercomputação, foi possível representar cientificamente a atmosfera como “um todo” e, de maneira prática, pode-se a partir disso refletir a respeito dos efeitos das mudanças climáticas em escala global e discutir as possíveis escolhas políticas para administrar seus impactos (MILLER e EDWARDS, 2001; MILLER, 2004a, 2009). Esses estudos históricos atestaram a crescente importância das infraestruturas de modelagem, supercomputação e telecomunicação para o estabelecimento da ordem global das questões ambientais na contemporaneidade.

A respeito desse processo de coprodução histórica das ciências climáticas e da ordem política global das mudanças climáticas, cabe destacar a obra de Paul Edwards (2010), “a vast machine”, cujas informações e argumentos – como veremos – servem como uma das principais fontes de informações históricas para a presente tese. A partir de ampla coleta e análise documental, Edwards (2010) concluiu que “não existe clima global sem dados meteorológicos globais e não existem dados meteorológicos globais sem modelos climáticos globais e suas infraestruturas”. Ao trazer para o primeiro plano as infraestruturas climatológicas como objeto de análise, o autor produz análises importantes de como a ciência climática constituiu-se na América do Norte e Europa em um contexto histórico específico que culminou na emergência do regime internacional das mudanças climáticas. O estudo de Edwards representa uma importante guinada nas discussões sobre mudanças climáticas porque lança luz à produção do conhecimento climático expondo como a emergência de uma determinada ordem política está associada ao surgimento de certas condições técnicas e infraestruturais.

Paralelamente a esses estudos historiográficos, a prática da modelagem e simulação do clima foi investigada em estudos de cunho etnográfico. Shackley (2001) realizou pesquisa em centros de modelagem climática na Europa e nos Estados Unidos26 nos quais pode coletar informações que lhe possibilitaram identificar diferentes estilos de modelagem climática e explorar uma série de elementos institucionais, organizacionais, políticos e científicos que permeiam essa prática. Dentre estes diferentes fatores, Shackley destacou que, nas instituições investigadas, o background do trabalho de modelagem e seus distintos vieses em certas abordagens e objetivos específicos variam significativamente em cada centro. Assim, o autor observou que algumas dessas instituições dão maior ênfase ao trabalho de construção de modelos mais “realistas” e outras concentram seus esforços no desenvolvimento de previsões futuras mais confiáveis. Além disso, Shackley indicou que o papel das diferentes culturas organizacionais dos centros e o das diferentes culturas nacionais de pesquisa produzem distintos modelos de gestão da ciência. Enquanto nos centros europeus prevalece um modo de gestão da pesquisa mais centralizado e hierárquico, nos centros norte-americanos a gestão dos programas de pesquisa é mais descentralizada e horizontal. Shackley (2001, p.127) sugere que “isso se deve às diferentes conexões entre as tradições de pesquisa em modelagem dos centros, dos diferentes fundos de pesquisa e as distintas relações desses centros com as instituições políticas” (tradução nossa).

26 Os centros pesquisados por Shackley foram o Hadley Centre do Reino Unido, o GFDL (Geophysical Fluid Dynamics Laboratory) e o NCAR (National Center for Atmospheric Research), ambos nos Estados Unidos.

Lahsen (2005) discutiu a questão da distribuição de incertezas em torno dos modelos climáticos e das divergências entre pesquisadores dedicados aos estudos das mudanças climáticas. Através de estudo etnográfico realizado em um dos maiores centros de modelagem dos EUA, o NCAR (US National Center For Atmosphere Research), a autora pôde constatar através de suas observações e entrevistas que “os modeladores não estão sempre dispostos e hábeis para reconhecer as incertezas e limitações de seus próprios modelos diante do público e dos seus pares” (LAHSEN, 2005, p.906, tradução nossa). Segundo a autora, apesar dos modeladores oscilarem entre momentos em que acreditam que suas simulações são “truth machines” e momentos em que buscam se distanciar e entender sua prática como representações não fidedignas do real, geralmente, “demonstram-se emocionalmente envolvidos com seu trabalho e não assumem facilmente seus erros” (Idem, p.917, tradução nossa), o que torna, segundo a autora, problemática a suposição feita por Mackenzie (1990) de que aqueles que participam diretamente da produção do conhecimento apresentam um alto grau de incerteza quanto a sua atividade.

Outros autores realizaram estudos etnográficos a respeito dos “mundos sociais” que formam o campo da meteorologia dando ênfase às particularidades culturais das rotinas e práticas dos diversos profissionais envolvidos (FINE, 2007); discutiram de que maneira grupos distintos envolvidos com a pesquisa lidam com dados e informações produzidas por diferentes matrizes experimentais como, por exemplo, a modelagem e a coleta direta de dados (SUDENBERG, 2005, 2007a, 2007b). Esses trabalhos – também realizados em centros meteorológicos norte-americanos e europeus – demonstraram que a prática da ciência climática comporta uma ampla “ecologia” de saberes, técnicas e equipamentos cuja inter- relação pode variar em cada contexto.

Mais recentemente, novos estudos sobre modelagem e mudanças climáticas surgiram com o objetivo de investigar como modelos climáticos circulam nos vários grupos e ambientes adquirindo “vida social” (HASTRUP e SKRYDSTRUP, 2013) e autoridade epistêmica e política (HULME, 2013). Não obstante, tais iniciativas ainda mantêm seu foco na pesquisa realizada na América do Norte e Europa. Até o momento, são raros os estudos que investigaram como modelos climáticos migraram de seu contexto de origem em países desenvolvidos para outros países de menor desenvolvimento científico nessas áreas – exceções são os trabalhos de Jankovic (2004, 2007), Mahony e Hulme (2012) e Mahony (2014). Há, portanto, uma lacuna na pesquisa social das ciências climáticas, sobretudo, a respeito do desenvolvimento da modelagem climática em países menos desenvolvidos.

No Brasil, estudos recentes têm indicado a crescente importância de modelos matemáticos, imagens de satélites e simulações em redes de pesquisa que tentam informar processo de tomada de decisão em assuntos climático-ambientais ao mesmo tempo em que buscam atualizar suas infraestruturas de pesquisa (WALFORD, 2008; LAHSEN, 2009; TADDEI, 2012, 2013; RAJÃO e VURDURBAKIS, 2013; MONTEIRO, 2014, 2015; BAILÃO, 2014; MIGUEL e MONTEIRO, 2014; MIGUEL, ESCADA e MONTEIRO, no prelo; MIGUEL, no prelo). Com foco nesses processos de produção de conhecimento, questiona-se como novas formas de representação científica do clima e do espaço podem constituir novas práticas governamentais em contextos diferentes daqueles dos países desenvolvidos. Contudo, tais estudos ainda são em número reduzido se comparado ao que foi produzido a respeito das ciências climáticas na América do Norte e Europa.

Dado o exposto, a presente tese pretende contribuir teórica e empiricamente para as discussões apresentadas tratando do desenvolvimento de modelos e simulações computacionais para prever tempo, clima e mudanças climáticas no Brasil. Tratará especificamente da modelagem climática em um importante centro de pesquisa nacional, o INPE, e suas relações com atores científicos e governamentais articulados ao campo da meteorologia nacional e internacionalmente. Nesse sentido, a presente pesquisa pretende colaborar com análises que partem de um contexto investigativo diferente daquele no qual foi produzida a maior parte da literatura dos ESCT sobre modelagem climática, suscitando questões e evidenciando contrastes que revelam a grande complexidade dos mundos sociais, políticos e científicos que envolvem esse tipo de prática científica.

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